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Caro Manuel Halpern,
Li o seu artigo intitulado “Um Mundo no Bolso”, na última edição do “JL”, em jeito de balanço da música portuguesa (não erudita) da primeira década do séc. XXI (que na verdade só termina no final de 2010) e tomo a liberdade de lhe comunicar que estou genericamente de acordo consigo. Apenas lhe faria uma observação. Gostaria que tivesse prestado mais atenção à música tradicional/folk que, tal como fado, teve um grande florescimento na década inaugural do presente século. A década de 90 terá sido a década de maior apagamento, embora nela tenham surgido grupos/intérpretes tão importantes como Navegante, Gaiteiros de Lisboa, Frei Fado d’El Rei, Realejo, Danças Ocultas, Quadrilha, Amélia Muge e Filipa Pais, mas é efectivamente já no século XXI que a música de raiz tradicional ganhou um novo impulso, depois do período áureo que se registou no pós-25 de Abril de 1974 até meados da década de 80, com grupos/intérpretes como Almanaque, Brigada Victor Jara, Vitorino, Teresa Silva Carvalho, Janita Salomé, Terra a Terra, Raízes, Vai de Roda, Pedra d’Hera, Ronda dos Quatro Caminhos, Xaranga, Rosa dos Ventos, Disto & Daquilo… sem esquecer os Trovante pelo importante contributo que deram ao movimento sobretudo com o álbum “Baile no Bosque” (1981). De facto, foi após o ano 2000 que apareceu e/ou se afirmou um acrescido lote de grupos e músicos de assinalável qualidade, uns mais ligados à tradição portuguesa outros mais cosmopolitas, por assim dizer. Cito-lhe alguns: Galandum Galundaina, Roda Pé, Dazkarieh (que por acaso até referiu no seu texto mas muito de fugida), Roldana Folk, Mandrágora, Mu (estes dois já distinguidos com o Prémio Carlos Paredes), Ginga, Banda Futrica, Segue-me à Capela, Moçoilas, Manuel d’Oliveira, Lúmen, Chuchurumel, Diabo a Sete, Pé na Terra, Fol&ar, Gnomon, Monte Lunai, A Barca dos Castiços, Roncos do Diabo, Ventos da Líria, Assobio, etc. (estes e muitos outros podem ser vistos e ouvidos em http://www.myspace.com/lugaraosul). Para a pujança e fulgor do movimento, além de importantes festivais e certames musicais (de que o FMM de Sines talvez seja o mais mediático), é de primordial importância o papel desempenhado por editoras independentes (Açor/Emiliano Toste, Vachier & Associados, Ocarina e Hepta Trad, por exemplo) sem as quais excelentes discos não teriam vindo a lume. Digna de menção é igualmente a dedicação de alguns realizadores de rádio, designadamente Luís Rei (“Terra Pura”), João Sá (“Folklândia”), Carlos Norton (“Sopa da Pedra”), Jorge Costa (“Multipistas”) e Octávio Fonseca (“Os Cantos da Casa”), que em rádios locais e na internet (com o podcast) vêm prestando um serviço de divulgação que é de toda a justiça enaltecer. O que não pode deixar de se lamentar é a atitude de marginalização e menorização das rádios nacionais (incluindo a pública Antena 1) face a este interessantíssimo fenómeno da nossa vida musical, instrumentalizadas que estão pelas majors, que, como é sabido, enjeitaram por completo a música tradicional/folk e apenas se empenham em promover um género que está completamento gasto e estafado – a pop. Talvez não seja um acaso que o florescimento das músicas de raiz (fado e música tradicional) coincida precisamente com a decadência do género de feição menos identitária. Algo está a mudar na música portuguesa e ainda bem que assim é.
Cordialmente,
Álvaro José Ferreira