A mente funciona de maneira estranha e eu já deixei de tentar perceber como funciona a minha. Por alguma razão que me escapa, esta semana recordei-me do primeiro artigo de opinião que escrevi na Exame Informática e que tinha como título ‘Há demasiados smartphones bons no mercado’ . Revisitei-o depois de ler que a LG confirmou oficialmente que está a ponderar abandonar este mercado e deparei-me com este excerto: “Outras há que persistem e que lançam sucessivamente bons telefones. Indiscutivelmente. Mas não ganham dinheiro com eles. Se tivesse um euro por cada vez que ouvi dizer que a Sony ou LG iam acabar com a divisão de smartphones, estaria neste momento a provar o menu de degustação do Belcanto”. Quatro anos e meio depois, parece que vou poder fazer cash out e ir, finalmente, ao restaurante do José Avillez (embora, aqui entre nós, nesta fase, preferisse A Tasca do Celso).
O que me deixa com esta sensação de Twilight Zone é que acabei de testar o LG Wing e, apesar de ser um terminal com falhas, é algo que traz inovação ao mercado. Enquanto gadget para criadores de conteúdos, como resistir a um smartphone em que podemos deslizar o ecrã principal em 90° e ter acesso a um secundário? Cool, certo? Pois bem, está prestes a acabar.
Em vez disso ficamos com um segmento médio a transbordar de oferta, onde parece que todos os fabricantes têm as mesmas peças e se entretêm a fazer diferentes configurações: por €300 a marca X faz um smartphone bonito com um CPU fraco; a marca Y aposta tudo no desempenho e acaba com um chassis que é feio que dói… É um intervalo de preços onde não há milagres e o consumidor tem de ter essa noção. Ler press releases sobre telemóveis de €150 a gabar-lhes a capacidade das câmaras para fotografia tanto me faz soltar uma gargalhada como me desperta uma ligeira raiva por achar que estão a querer enganar as pessoas. Haverá espaço para todos neste segmento? Bem, há quatro anos achava que ia haver uma concentração do mercado em menos marcas. Acertei parcialmente, creio. Paz à alma da BQ.
Onde me parece que houve essa maior concentração foi nos topos de gama. Lembram-se quando, em 2015, a Sony escolheu a Cristina Ferreira para embaixadora do Xperia Z5 Premium? Pois, é natural que não se lembrem. E onde estão os topos de gama da Sony atualmente? Pois… Imaginem o genérico do original Twilight Zone e no final da introdução de Rod Serling aparece a Cristina Ferreira, a preto e branco, a soltar uma gargalhada estridente enquanto segura um Xperia… Assustador? Bem avisei que a mente funciona de maneira estranha.
Com a exceção da Asus – que lança smartphones muito interessantes, mas, injustamente, não ganha ainda a devida quota de mercado –, o top 3 dos melhores topos de gama continua dominado por Apple, Samsung e Huawei (continua a demonstrar uma resiliência impressionante depois da guerra decretada por Donald Trump), e dificilmente este cenário se alterará. Oppo e Xiaomi ganham terreno, mas, por enquanto, falta-lhes aquela aura premium, que é muito trabalhada pelo marketing. Fenómenos como o da Apple são raríssimos e é por isso que ainda hoje há uma série de boa gente que prefere dar mais dinheiro por um iPhone pior do que por um concorrente direto melhor de outro sistema operativo. Sim, os Android desvalorizam duas vezes mais do que os terminais da Apple, mas ver alguém dar €300 por um iPhone 8 recondicionado de 64 GB com um ecrã de 1334×750 deixa-me com os nervos em franja… Como se acabasse de abrir uma porta e me deparasse com uma Cristina Ferreira monocromática a segurar um Sony Xperia.