Pode ter sido apenas uma coincidência, mas podemos ter assistido ontem, à hora dos telejornais, ao primeiro capítulo do que será a próxima coabitação do poder em Portugal: pouco depois de Luís Montenegro prestar as declarações iniciais como primeiro-ministro reconduzido no cargo, as emissões das televisões fizeram uma espécie de plano-sequência para o cenário da Gare Marítima de Alcântara para captarem a apresentação da candidatura de Henrique Gouveia e Melo que, segundo as sondagens, é visto como favorito para ser o próximo Presidente da República.
Curiosamente, nas declarações proferidas ontem pelo primeiro-ministro e pelo almirante na reserva percebeu-se um mesmo propósito: procurar discursos abrangentes, que unam mais do que dividam. Montenegro descartou qualquer hipótese de entendimentos preferenciais para segurar o Governo no Paramento, prometendo “dialogar com todos”, enquanto Gouveia e Melo apresentou-se sob o slogan abrangente de “Unir Portugal”. A grande diferença é que se os portugueses já conhecem a forma de decidir e de governar do líder do PSD, a incógnita ainda é quase total sobre como irá comportar-se em Belém o antigo líder da task-force do processo de vacinação contra a Convid-19.
No seu discurso de 20 minutos, proferido ontem com recurso a teleponto, o ex-chefe de Estado da Armada prometeu ser um Presidente “diferente”, capaz de ser “confiável, estável e atento”. Disse que decidiu avançar depois de ter lido “sinais claros de cansaço, desânimo e desencanto na nossa jovem democracia”, num momento crítico do mundo: “Veem-se nuvens carregadas de incerteza e de perigo no horizonte. A guerra voltou ao coração da Europa, destruindo a ilusão de uma paz garantida. O Ocidente vacila, divide-se, perde o rumo. Os Estados Unidos já não garantem segurança – lançam incertezas. A força tenta impor-se à razão. A economia global retrai-se e, com ela, esmorece a esperança
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