Os cartazes de péssimo gosto do partido Chega referentes ao Bangladesh sugerem que a população daquele país asiático está a “invadir” Portugal. Ora, isso não só não acontece, como o que se passou há algumas centenas de anos foi exatamente o contrário: os portugueses de Quinhentos invadiram (agora sem aspas) o Bangladesh – nome que, em bengali, quer dizer simplesmente Estado de Bengala – e cometeram ali façanhas arrepiantes.
As aventuras dos portugueses naquelas paragens do delta onde confluem as águas do Ganges e do Bramaputra (e no Oriente em geral) são, aliás, múltiplas e dariam para preencher páginas e páginas de uma escrita cerrada em letra miudinha. Com efeito, as movimentações daqueles nossos remotos avós são tão frenéticas que até nos chega a dar a impressão de que não tinham um momento de descanso, sempre de espada numa mão e de mecha para inflamar a pólvora do arcabuz na outra, com os olhos exorbitados de ambição de glória e cupidez de enriquecer rapidamente, nem que fosse a troco de façanhas pouco ortodoxas… A leitura dos nossos cronistas de Quinhentos tem, assim, muito de empolgante, por um lado, e de repousante, por outro, visto que conjuga o tom de frenesim com a sonolenta monotonia de sucessivos feitos de armas levados a cabo numa ritmada cadência de balada.