Os primeiros fósseis da linhagem do Homo sapiens datam de há 300 mil anos, em Marrocos, mas só há cerca de 60 mil é que deixámos África para colonizar todos os pontos do globo. Isto torna-nos relativamente recém-chegados à maioria dos habitats que hoje ocupamos, pois vivemos em climas quentes durante a maior parte da nossa história evolutiva. Considerando a nossa limitada adaptação ao frio, como é que a nossa espécie passou a dominar não só as antigas terras quentes, mas todas as regiões do planeta?
Tecnologia
As primeiras provas da presença de hominídeos na Europa vêm de Happisburgh, em Norfolk, em Inglaterra. Nessa altura verificavam-se invernos muito frios, como os que se verificam atualmente no sul da Escandinávia. Os dados indicam que os hominídeos não estiveram no território durante muito tempo, pelo que não tiveram oportunidade de se adaptar fisiologicamente às baixas temperaturas. A forma como estes sobreviveram às duras condições continua a ser um mistério, visto não existirem grutas ou restos de abrigos na área. É, por isso, difícil imaginar que tenham sobrevivido aos invernos de europeus sem fogo e roupa quente. No entanto, o facto de haver hominídeos tão a norte significa que tiveram de encontrar uma forma de resistir ao frio.
Os neandertais criaram ferramentas para usos domésticos que são distintas das ferramentas de caça. As ferramentas serviam para curtir e perfurar peles e incluíam buris para cortar madeira e osso. Outras ferramentas foram utilizadas para afiar lanças, matar animais, e preparar alimentos. Pistas arqueológicas mostram que o domínio do fogo pelos neandertais não servia apenas para conforto térmico e cozinhar, mas também para reforçar as suas ferramentas. Um estudo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences indica que os neandertais conseguiam produzir um adesivo à base de alcatrão (não confundir com asfalto) de bétula. Algo que denota um controlo avançado dos materiais e da fonte de calor.
Dieta
Existem fortes evidências de que os neandertais caçavam animais, tais como marcas de corte nos ossos das presas. Estas descobertas são consistentes com estudos dos povos caçadores-recoletores modernos, que mostram que aqueles que vivem em áreas mais frias dependem mais dos animais que caçam do que os que vivem em climas mais quentes, já que a carne é rica em calorias e gorduras necessárias para resistir ao frio. Estudos recentes calcularam que estes hominídeos necessitavam de consumir entre 3360 e 4480 kcal diárias para suportar a atividade física necessária para caçar, assim como para resistir às baixas temperaturas.
Morfologia
Os Neandertais, que habitaram a Eurásia entre 400.000 e 40.000 anos atrás, viveram durante a era glacial. Estes possuíam membros curtos, robustos e atarracados, e torsos largos e musculados adequados à produção e retenção de calor. Adicionalmente, simulações de computador com base nos esqueletos encontrados indicam que o nariz neandertal era mais eficiente do que as espécies anteriores na conservação de calor e de humidade. Estas características potenciavam uma maior capacidade ventilatória face ao ar frio e seco. Outro exemplo da adaptação a climas da era glacial é que, em áreas de menor incidência da luz solar, os hominídeos desenvolveram tons de pele mais claros para melhor sintetizar a vitamina D.
O nosso património genético ainda se traduz na impossibilidade em viver em lugares frios se não tivéssemos desenvolvido formas de resistir às temperaturas. A capacidade humana em adaptar-se através do comportamento foi fundamental para o nosso sucesso evolutivo. A adaptação física humana ao clima é mais lenta do que a adaptação comportamental, que é mais rápida e flexível.