25 de janeiro: GNR detém três homens entre os 39 e os 67 anos por violência doméstica. Um dia antes, o cenário repetira-se em Penafiel. Dois dias antes, em Loulé e Faro. A 26, uma mulher de 80 aos era assassinada pelo marido em Vila Nova de Gaia.
Fevereiro, Dia dos Namorados, e eram detidos mais dois homens por violência doméstica, um na Guarda, outro no Porto. A 19 de fevereiro, um homem regou a namorada com gasolina e pegou-lhe fogo, no Cacém. Em Coimbra, na mesma data, um homem de 51 anos ficava proibido de se aproximar da mulher e do filho, depois de ser acusado de violência doméstica.
Na semana, passada, o cenário repetiu-se: um homem de 65 anos detido em Penafiel pelo mesmo crime. No domingo, foi a vez de Valongo. Esta segunda-feira, seguiu-se Alcobaça. Agora, com o confinamento social recomendado, as denúncias podem diminuir, mas os casos nem por isso. O alerta é das associações de apoio à vítima.
“Os grandes estudos de prevalência em Portugal, feitos em 1995 e 2007, indicam que há um padrão constante que não diminuiu. Numa situação de maior isolamento, o receio é que haja apenas um silenciamento”, conta Elisabete Brasil, especialista em violência de género, muitos anos responsável pelo Observatório das Mulheres Assassinadas da UMAR, agora numa outra associação chamada FEM – Feministas em Ação. Para logo depois lembrar queo pode aí vir, em demasiadas casas, é uma maior tensão, associada a problemas laborais. “E como o agressor é, em regra, pouco tolerante à frustração, pode complicar-se.”
Para já, a informação que chega do outro lado do mundo, onde o confinamento social já terminou, não é muito animadora. “As ONG da China estão a dar-se conta de que houve um silenciamento dos casos durante este período da quarentena que lhes foi imposta.” Agora, segue a especialista, as denúncias triplicaram. E os divórcios também.
A outra pandemia
É uma situação que está mais viva na Europa do que poderíamos pensar e atravessa mesmo todo o planeta. Por exemplo, em Seatle, nos EUA, onde a pandemia de Covid-19 também avança a passos largos, a organização LifeWire garante que esse agravamento acontece sempre que, por momentos breves, o mau tempo obriga a ficar em casa. “Imaginem dias a fio”, sublinham os seus responsáveis, citados pela Vice. Rachel Krinsky, a diretora executiva da associação, diz mesmo que tudo isto são más notícias para as pessoas que enfrentam a violência dentro de portas. “Esperamos um aumento da tensão e provável aumento da violência”, disse Krinsky. “O que torna estas pessoas mais vulneráveis? Estarem todos no mesmo ambiente, agressor, vítimas e crianças.”
Crystal Justice, a chefe de desenvolvimento da linha americana de apoio a vítimas de violência doméstica, lembra ainda que “O abuso é sobre poder e controlo – daí que seja preciso ter em conta que o agressor pode usar qualquer ferramenta para exercer esse poder. Incluindo questões de saúde, como a Covid-19″.
Assim, uma das recomendações que já estão a ser feitas para estas pessoas é estabelecer um plano de segurança – ou seja, uma estratégia para minimizar o risco, como por exemplo combinar um sinal com os vizinhos, que podem telefonar a pedir ajuda.
Um código para os vizinhos
“É também muito importante não confrontar o agressor”, acrescenta Daniel Cotrim, assessor técnico da APAV – Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, a lembrar que este é o momento de nos ajudarmos uns aos outros também nestas questões. “Reforço o pedido: as pessoas que estão perto têm mesmo de intervir. Se podemos fazer compras pelos vizinhos com dificuldade de mobilidade, também podemos chamar a polícia para ajudar alguém que está a ser agredido.”

Há outras possibilidades. Por exemplo, mudar algo numa janela ou combinar uma mensagem com uma palavra específica, como o “Love is”, escrito tudo junto num SMS, sugerido pelas autoridades do Reino Unido.
“Ou pedir ajuda a gritar ‘fogo’ em vez de ‘socorro’, sugere ainda Daniel Cotrim, a lembrar que estes tempos de coronavírus e de isolamento social também são propícios a que se invista na tão necessária consciência social. Ainda assim, acrescenta, há uma luz ao fim deste túnel sem fim à vista. “Há também alguns estudos que dizem que, nestas situações extremas, a violência na intimidade pode diminuir, se o agressor conseguir lidar com a frustração. E como se reduz o confronto, é também uma possibilidade a ter em conta”.
Contatos úteis
– Linha de emergência: 112
– Linha Nacional de Emergência Social: 144 (24h/dia)
– Serviço de informação a vítimas de violência doméstica (chamada gratuita 24h/dia): 800 202 148
– Linha da Segurança Social: 300 502 502
– Linha SOS Criança: 116 111
Saiba ainda que a Rede Nacional de Apoio a Vítimas de Violência Doméstica também está a funcionar.