Quando propomos entrevistá-lo, a propósito da atribuição do Prémio Nobel da Medicina ao casal May-Britt e Edvard Moser, que dirige o Instituto Kavli, onde trabalha, Paulo Girão faz questão de clarificar: “Sou um técnico de investigação, integrado numa equipa de 80 pessoas. É a mesma coisa que o Michael Schumacher ganhar o Campeonato do Mundo de Fórmula 1 e decidirem entrevistar o mecânico da equipa responsável pelos pneus…” Confirmamos o interesse e descobrimos um português completamente convertido ao modo de vida norueguês, a trabalhar numa das áreas científicas mais desafiantes da atualidade – o cérebro.
Aos 36 anos, o investigador, que cresceu nas Caldas da Rainha e se licenciou em Bioquímica na Universidade de Coimbra, leva já 15 anos de Escandinávia. O primeiro contacto aconteceu ao abrigo do programa Erasmus, na Dinamarca, seduzido pela literatura e história medieval daquela região, que o apaixona. Durante o doutoramento em neurociências não hesitou e rumou ainda mais a norte. Mudou-se para Trondheim, na Noruega, uma cidade, na altura, ainda pouco conhecida na área de investigação e com um clima polar pouco meigo para quem vem da Europa temperada. Os colegas estranharam a opção mas, se dúvidas restassem, a atribuição do Prémio Nobel da Medicina e Fisiologia ao casal Moser (partilhado com o neurocientista americano John O’Keefe), pela “descoberta das células que constituem um sistema de posicionamento espacial”, veio confirmar que a sua bússola apontou para o sítio certo.
Festa durante uma semana
Há dez anos, começou a estudar-se, no Instituto Kavli, uma estrutura cerebral, vizinha do hipocampo (a “sede” de processamento das memórias), o córtex entorrinal. Durante o trabalho, feito em ratinhos, através de elétrodos colocados nas cabeças dos animais para registar a atividade cerebral, descobriu-se, com surpresa, que um grupo de neurónios tinha funções específicas no processamento de informação espacial: uns responsáveis por medir distâncias (grid cells), outros por medir direções (head direction cells), e outros ainda por assinalar a proximidade a objetos e obstáculos (border cells). O conjunto destas informações permite-nos planear uma deslocação, escolhendo o melhor caminho para ir do escritório ao centro comercial, por exemplo. “É um sistema transversal a todas as espécies, e funciona da mesma maneira em todos os mamíferos”, reforça. A descoberta do chamado “GPS do cérebro” foi tão revolucionária que, a partir de 2005, se começou a falar na possibilidade de o casal ganhar o Nobel. Primeiro em “brincadeira”, depois mais a sério. “Quando participávamos em congressos, o nome Moser, nos posters ou apresentações, despertava sempre muita atenção.” Mesmo assim, o anúncio (a 6 de outubro) chegou de surpresa. “É uma grande emoção! Durante uma semana, ninguém trabalhou nada aqui no instituto. Houve festas, discursos, bebemos champanhe. Havia jornalistas por cá o dia todo, a televisão pública andou dias e dias atrás da minha chefe…”
Sobre o casal, Paulo Girão elogia a capacidade de motivar uma equipa tão multicultural, com investigadores vindos de todas as partes do mundo, e o pioneirismo. “Hoje, o nosso instituto é reconhecido internacionalmente como uma referência na área das neurociências. E isto deve-se ao trabalho dos Moser”, sublinha.
Com um filho de um ano e uma namorada de origem norueguesa e americana, Paulo Girão é um grande fã da vida no Norte da Europa. Nem o frio nem o isolamento o demovem. “A princípio, estranhei, mas hoje, uma das coisas de que mais gosto é de poder andar 12 horas a pé, seguidas, sem ver ninguém. A paisagem natural aqui é deslumbrante. Se pudesse, era capaz de me mudar para o meio de uma floresta, longe de tudo.” Mas sem nunca perder o rumo.