Quem viveu no Portugal anterior a 1974 tem experiência própria do que é uma ditadura e dificilmente se deixará seduzir pelos “cantos de sereia” dos inimigos da democracia. Quando depararmos com uma corrente política que pretende dar a entender que “dantes é que era bom”, importa, assim, ponderar sobre as circunstâncias que levaram ao poder o férreo regime que assombrou o País durante meio século. O golpe militar que fez Portugal descer ao abismo ocorreu há exatamente cem anos, a 28 de maio de 1926. Mas, como ele não surgiu do nada, convém recuperar os acontecimentos imediatamente anteriores e os que se lhe seguiram de perto.
Nos seus 15 anos e sete meses de duração, a República implantada a 5 de Outubro de 1910 – a I República – vira desfilar nada menos do que 45 governos e oito Presidentes. Seguir-se-ia, após o golpe de 1926, um período de sete anos de ditadura militar, batizada em 1928 de Ditadura Nacional. De 1932 em diante, até ao ainda muito longínquo 25 de Abril de 1974, não haveria mais quedas do governo: o executivo, com periódicas remodelações ministeriais, manter-se-ia blindado durante décadas, ditatorialmente chefiado por António de Oliveira Salazar e, na meia dúzia de anos finais, por Marcelo Caetano. O Estado Novo – repressivo e de partido único, decalcado dos modelos políticos da Itália fascista e da Alemanha nazi, com a oposição proibida e silenciada, a comunicação social censurada e a impossibilidade de ser emitida em público qualquer opinião crítica sobre os rumos que o País levava, sob pena de prisão e de tortura – seria institucionalizado em 1933. O que se passou nos sete anos que medeiam entre 1926 e 1933 é relativamente pouco conhecido, e é esse período de agitação cinzenta que começaremos por recordar.

