Os dados são da Organização Internacional para as Migrações e estão patentes no relatório “Oito meses depois do Idai: cronologia de deslocamento, necessidades humanitárias e desafios futuros em Moçambique”, consultado pela VISÃO. Neste documento, a OIM faz o relato da evolução das necessidades das populações que foram atingidas pelo Idai em março deste ano, acompanhando o número de deslocados e as suas principais necessidades.
Tal como a Visão tem vindo a noticiar, o processo de reconstrução das regiões centro e norte do país tem sido demorado, apesar das várias ajudas nacionais e internacionais que chegam ao terreno. Grande parte do trabalho continua a ser levado a cabo por associações humanitárias internacionais, que têm garantido o acesso a alimentação e a água potável a milhares de pessoas – atualmente, quase 90 mil estão ainda em centros de reassentamento. Aliás, ao longo dos meses o número de famílias que procurou abrigo nestes centros foi aumentando, num sinal de que as antigas residências não estavam em condições de ser habitadas nem recuperadas, nota o mesmo documento.
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E no topo das necessidades humanitárias, realça a OIM, continua a comida – que é apontada por 47% dos inquiridos como a principal carência. Este número mantém-se inalterado desde abril, mês em que a organização começou a fazer o acompanhamento da situação, o que sinaliza a falta de soluções de longo prazo que possam resolver um problema estrutural que se tem vindo a agravar, também por conta das alterações climáticas. Durante os últimos meses Moçambique tem-se visto a braços com inundações e com secas severas, num sinal claro de que o clima nunca mais voltará a ser o mesmo, e de que é urgente encontrar soluções para uma situação que não é esporádica.
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Também o acesso a água potável continua a ser um problema grave no país, com a OIM a indicar que se em abril era uma necessidade apontada por 6%, em outubro saltou este número para os 18%. Já recentemente a Visão tinha dado conta de que os dados mais atuais mostravam que mais de um milhão de pessoas continuava com dificuldades em aceder a água potável, o que potencia doenças e dificulta tratamento, para além de agravar todas as questões relacionadas com higiene e saneamento. Os mesmos dados mostram que estas carências atingem praticamente de igual forma os residentes dos campos de reassentamento e as populações que conseguiram voltar às suas comunidades.
As principais preocupações são, pois, garantir que sobretudo estas pessoas, cuja vida ainda não foi recuperada, têm condições para enfrentar mais uma época de chuvas e ciclones – que já começou – sem regredirem até ao nível zero de subsistência como aconteceu até agora.
Recorde-se que, segundo o que Visão tem conseguido apurar, a grande maioria das pessoas está a sobreviver com base na ajuda humanitária que continua a ser prestada, uma vez que as duas sementeiras que já foram tentadas, na região da Beira, fracassaram antes da época das colheitas. As crianças continuam a ser o grupo mais vulnerável, com carências nutricionais a ser sucessivamente reportadas por organismos como a UNICEF e a portuguesa Helpo.