Não há dúvida de que há uma batalha que todos os portugueses conhecem, nem que seja só por terem ouvido falar dela: é a de Aljubarrota. Pois bem, esse grande confronto militar entre portugueses e castelhanos, que teve uma importância decisiva para a manutenção da independência do nosso país e que veio confirmar que a ideia de nacionalidade existia e era forte entre as classes populares, ocorreu faz agora – 14 de agosto – 640 anos. O teatro das operações foi o campo chamado de S. Jorge, perto da pequena localidade de Aljubarrota (concelho de Alcobaça, distrito de Leiria, antiga província da Estremadura), e as espadas e lanças começaram a tilintar ao entardecer desse quente dia de verão de 1385. A refrega, ainda que violenta, durou pouco tempo e, num sentido contrário ao das apostas (se as tivesse havido…), os portugueses, embora em muito menor número, triunfaram sem qualquer margem para dúvidas, a tal ponto que durante décadas os castelhanos não se recompuseram da pesada derrota sofrida. Convém desde já recordar que nesse tempo ainda não existia um Estado chamado Espanha, estando o território do país hoje nosso vizinho repartido pelos reinos de Castela, Aragão, Navarra e Granada (este último, muçulmano). Castela, o maior de todos e fazendo fronteira com Portugal, era o que representava a ameaça para a independência do nosso país.
A Batalha de Aljubarrota foi a que mais peso teve na nossa História, pois permitiu que Portugal não fosse absorvido pela Coroa castelhana e, mais tarde, integrado na Espanha unificada. Insista-se que esta não foi “uma batalha qualquer”: se o desfecho tivesse sido o oposto, tudo o que se passou do século XIV para cá na Península Ibérica teria sido diferente e talvez a própria expansão ultramarina (vulgo “os Descobrimentos”) não se tivesse passado da forma como ocorreu. Basta lembrar que Portugal se lançou nos mares por estar de costas voltadas para Castela e o oceano Atlântico ser a única via livre que se lhe abria. E que os nossos vizinhos só se lançaram também nessa via quando Colombo viu por cá recusada a sua proposta de chegar à Índia navegando para oeste e foi bater à porta do lado oferecendo os seus serviços.

Vejamos então. Nesse verão quente de 1385, o exército invasor de Portugal, com o próprio rei João I de Castela à frente (ou, antes, a meio, pois vinha doente com febres e era transportado de liteira), entrara em Portugal pela pedregosa e agreste província da Beira Alta. Essa força era integrada por uns 32 mil homens, incluindo muitos cavaleiros franceses, aliados de Castela no quadro de um conflito europeu mais vasto que então se travava, e que ficaria conhecido por Guerra dos Cem Anos. O que é pouco frequente referir-se é que também faziam parte do exército invasor muitos nobres portugueses, entre os quais o próprio irmão do condestável D. Nuno Álvares Pereira, o célebre comandante da força portuguesa que se opôs aos invasores e uma das figuras de referência da História nacional. Com efeito, se, para os burgueses e os pés descalços, a luta era pela independência, para os fidalgos não passava de um choque de lealdades: a que era devida ao “legítimo” rei castelhano e à sua esposa infanta de Portugal contra a que os do partido revolucionário tinham jurado ao novo rei eleito primeiro pelo povo e depois confirmado nas Cortes de Coimbra, D. João, o Mestre de Avis (que, por mera casualidade, tinha o mesmo nome do soberano de Castela, ainda que em boa verdade este se chamasse, obviamente, Juan). Mais adiante se explicará toda esta conjuntura, que não é tão complicada como parece.
Os combatentes portugueses eram “rebeldes”, ou “marginais”, pois não passavam de uma fação composta por alguns fidalgos e por plebeus, na maioria pobres
Os invasores traziam consigo 16 trons, ou seja, canhões, armas que por cá nunca tinham sido usadas. É certo que se tratava de uma artilharia muito rudimentar, que fazia mais barulho do que estragos. Na sua marcha para Lisboa, tentaram tomar Coimbra, mas não conseguiram, desaire de que depois se desforraram entrando em Leiria e saqueando a cidade. O seu exército era tão grande que se tornava difícil mantê-lo todo junto, pelo que, a 30 de julho, a vanguarda fez alto em Abrantes, a fim de esperar pelos mais atrasados. Era como uma enorme e colorida fita que se estendia por muitos quilómetros.
Do ponto de vista tático, os resistentes portugueses – podemos chamar-lhes rebeldes, ou mesmo “marginais”, pois não passavam de uma fação composta por meia dúzia de fidalgos de ideias consideradas estranhas e por plebeus, na sua maioria pobres – estavam hesitantes e algo divididos. Enquanto o novo rei de Portugal, D. João I, então com 28 anos, montava acampamento perto do Tejo e se dispunha a esperar a chegada de prometidos reforços ingleses (no quadro da tal Guerra dos Cem Anos), o seu amigo e “braço direito” condestável D. Nuno Álvares Pereira, que guardava a estrada do Alentejo, propôs que se desse imediatamente batalha aos invasores. Do João I acabou por concordar, e ao encontro da imponente máquina de guerra castelhano-francesa partiu, então, uma pequena coluna portuguesa de aproximadamente seis mil homens, comandada por D. Nuno.
Escreveu-se que D. João I “acabou por concordar”, o que dá a entender que houve reticências da sua parte. É verdade, pois há outra coisa que normalmente não é dita. Custe ou não a admiti-lo, por essa altura já D. João I meditava sobre o partido que havia de tomar, olhado alternadamente para o seu frágil e ameaçadíssimo trono português e para a relativa segurança que poderia obter das bandas de Castela, se se mostrasse arrependido do ato de “rebeldia” contra o “legítimo” herdeiro do trono. Outra possibilidade seria embarcar para Inglaterra. A impulsividade e a convicção na vitória por parte de Nuno Álvares acabaram, no entanto, por o ajudar a decidir-se. Ficou – talvez mais por vergonha de dar o dito por não dito do que por outro motivo, mas viria a lucrar enormemente com isso. Hoje, D. João I é considerado um rei basilar na nossa História, a ponto de ter merecido o cognome de O de Boa Memória.
Voltando à batalha que se anunciava. Pensa-se hoje que talvez os invasores não fossem os 32 mil que durante muito tempo se julgou, nem os portugueses resistentes os seis mil consagrados pela versão corrente, mas a desproporção das forças era, decerto, enorme. A tropa portuguesa anticastelhana incluía uns 800 besteiros e ainda um destacamento de 200 arqueiros ingleses, arregimentados ao abrigo da aliança anglo-lusa assinada em 1373, ainda no tempo do rei D. Fernando, de que adiante se falará. A maior parte do exército era, no entanto, constituída por peões, homens do povo de pé descalço e meio despidos que lutavam com um ferro aguçado chamado chuço. O grande cronista Fernão Lopes – que nos deixou toda esta história contada nas suas magníficas crónicas de D. Fernando e D. João I – chamou-lhes “ventres ao sol”, porque quase todos, atendendo quer à pobreza, quer ao calor de agosto, estavam em trono nu.
Imaginemos, pois, de um lado garbosos cavaleiros de armadura e elmo empenachado montados em cavalos cobertos de panos coloridos e empunhando longas lanças semelhantes às de torneio, e do outro uns desgraçados seminus, cobertos de suor e com os pés descalços fincados no chão que tinham resolvido defender.
Terreno minado
O que fez D. Nuno Álvares Pereira para minimizar o desequilíbrio das forças? Ao ter conhecimento de que a vanguarda dos invasores, que avançavam em fila indiana muito lentamente, se encontrava perto de Leiria, ordenou que fossem construídas trincheiras num pequeno planalto (o campo de S. Jorge) que lhe pareceu adequado para ser palco de uma batalha. Ali cavaram os seus portugueses “marginais” uns buracos, ditos “covas de lobo”, semelhantes às armadilhas com que os homens de tempos imemoriais caçavam mamutes. Mas as forças portuguesas dispuseram-se primeiro numa das vertentes da colina, só mudando para as posições defensivas quando, por volta do meio-dia de 14 de agosto, avistaram a vanguarda dos inimigos, que avançavam imponentemente pelo que restava de uma antiga estrada do tempo dos romanos (a Via Lusitanorum).

Os castelhanos, como se compreende, acharam que combater contra inimigos entrincheirados e numa posição mais elevada era muitíssimo desvantajoso, e por isso decidiram seguir rumo a Lisboa, ignorando aquele punhado de portugueses sujos e malcheirosos. Foi então que estes últimos, dececionados, começaram a gritar, chamando os inimigos ao combate e insultando-os com os piores nomes. Isto acabou por fazê-los mudar de ideias. Afinal, pensaram os invasores, se deixassem nas costas a pequena força portuguesa poderiam ainda vir a ter dissabores, pelo que o melhor seria resolverem desde logo a questão, dando-lhe combate e vencendo-a. Decidiram, assim, contornar o pequeno planalto e lançar o ataque num ponto onde o declive era menos acentuado. Mas isso era exatamente o que D. Nuno Álvares Pereira e a sua gente esperavam: alteraram logo o seu posicionamento e, escudando-se nas defesas construídas durante a noite, aguardaram a pé firme o ataque da cavalaria franco-castelhana, lançado quando o sol começava já a declinar.
De um lado, cavaleiros de armadura e elmo empenachado; do outro, uns desgraçados em tronco nu, a que Fernão Lopes chamou “ventres ao sol”
Por espantoso que pareça, a batalha – destinada a ter tão grandes consequências – resolveu-se em cerca de uma hora, e saldou-se pelo esmagador triunfo dos “ventres ao sol” e a consequente derrota total dos castelhanos, franceses e nobres portugueses que estavam do outro lado. Rezava a tradição que o pequeno exército português tinha formado em quadrado e que um dos lados desse polígono era constituído pela garbosa Ala dos Namorados; modernamente, sabe-se, porém, que não foi bem assim e que foram cavadas no terreno as tais armadilhas em que os inimigos caíram. Terão morrido nessa hora decisiva uns mil homens do lado dos defensores do território português e cerca de cinco mil invasores. Os sobreviventes castelhanos e franceses (e portugueses que estavam desse lado, não o esqueçamos), que mesmo assim ainda eram muitíssimos, debandaram em desordem, cada qual para seu lado, deixando as armas para trás. Muitos dos fugitivos, soltando gritos de pavor, foram chacinados pela população das aldeias da zona, e na manhã seguinte eram tantos os cadáveres espalhados pelos campos que diz-se que as ribeiras ficaram entupidas. É aqui que entra o célebre episódio da padeira de Aljubarrota (ler caixa A padeira serial killer).
O rei cata-vento
É altura de explicar como se chegou a esta situação, contando os acontecimentos que levaram até à célebre batalha. Afinal, por que motivo se achava o rei João I (ou Juan I) de Castela com direito ao trono português? Para entender tudo, é preciso recuar ao tempo em que reinava em Portugal D. Fernando, filho de D. Pedro I e da nobre castelhana D. Constança Manuel. No trono desde 1367 e cognominado O Formoso, diz-se que D. Fernando era pessoalmente muito simpático e que as mulheres suspiravam por ele. Sob muitos aspetos foi, porém, um governante desastrado, apesar de ter tomado algumas medidas positivas.
Comecemos pelo mau. As três guerras peninsulares em que, sucessivamente, se envolveu, custaram muitas vidas e tiveram consequências desastrosas para a economia nacional, embora também seja verdade que da reação a elas haveria de nascer um País novo. Vejamos como surgiram essas chamadas “Guerras Fernandinas”.
A padeira “serial killer”

Conta a lenda que sete soldados castelhanos em fuga do campo de batalha se esconderam, mesmo ao sol-posto, no forno de uma padaria da região de Aljubarrota. A dona da padaria chamava-se Brites de Almeida e, sendo literalmente uma mulher de armas, saíra durante umas horas para caçar castelhanos em fuga. Muitos habitantes da zona tinham, aliás, feito o mesmo, transformando o pós-batalha numa verdadeira chacina. Ao regressar a casa, Brites deparou com os indesejados hóspedes e matou-os um a um com a sua comprida pá de padeira, de ferro com longo cabo de pau, à medida que eles iam saindo do forno.
Correm muitas histórias em torno da figura de Brites de Almeida. Diz-se que era uma algarvia de Faro com seis dedos em cada mão, muito feia e muito forte. Conta-se também que vivera diversas aventuras na Europa e no Norte de África. Mas o que a memória popular sobretudo reteve foi a sua faceta de serial killer. Todos os portugueses ouviram falar da “padeira” e a maioria pensa vagamente que foi ela que derrotou “os espanhóis” (que, como sabemos, eram apenas “os castelhanos”, visto ainda não existir Estado espanhol) na mais famosa batalha da nossa História. Mas, afinal, mesmo que a lenda corresponda a um facto verdadeiro, Brites de Almeida “limitou-se” a matar sete castelhanos indefesos, assustados e imersos num ambiente hostil.
Pouco antes, em Castela, o rei Pedro O Cru (contemporâneo do nosso D. Pedro O Justiceiro, pai de D. Fernando) tinha sido assassinado pelo seu irmão Henrique, conde de Trastâmara, que lhe sucedeu no trono com o nome de Henrique II. Descontentes com o ocorrido, alguns fidalgos castelhanos vieram a Lisboa e puseram-se à disposição de D. Fernando caso ele estivesse disposto a alinhar numa guerra destinada afastar o Trastâmara do trono vizinho e a sentar-se ele próprio nele. Esta iniciativa dos fidalgos negociadores não foi completamente inesperada nem descabida, visto D. Fernando ser bisneto, por via materna, do antigo rei castelhano Sancho IV.
O Formoso nem pensou duas vezes. Aceitou logo e imaginava-se já instalado no trono de Castela, revestido dos atributos de soberano mais poderoso da Península. A ilusão era perfeita, pois teve a satisfação de ver muitas localidades castelhanas içarem a sua bandeira – Zamora, Cidade Rodrigo, Santiago de Compostela, Tui, Orense, Lugo, Corunha, Baiona, Cória, etc. A contar com o ovo antes de a galinha o ter posto, mandou logo cunhar moeda com a legenda “Fernando Rei de Portugal e Castela” e, ocupado como estava com estas comemorações antecipadas, não se preparou convenientemente para a guerra. Contudo, alguma coisa fez: por medida de segurança, aliou-se ao rei mouro de Granada, com o qual estabeleceu uma paz válida por 50 anos, e com o rei de Aragão, comprometendo-se com ambos a não fazer as pazes com Castela.
Para nos ajudar a visualizar as cenas, lembremos que tudo isto acontecia na altura em que os nobres tinham passado a usar a cara rapada e um penteado com feitio de tigela. Consta que D. Fernando, usasse ou não o tal corte de cabelo (não possuímos um retrato fidedigno para o confirmar), tinha boa aparência física e que, como já se disse, esse atributo lhe garantia o sucesso junto das damas.
Em 1371, ao cabo de dois anos de campanhas militares contra Henrique de Trastâmara, D. Fernando viu-se forçado a aceitar a Paz de Alcoutim. Volvido outro par de anos, o mesmo Henrique de Trastâmara conseguiria conquistar e incendiar parcialmente Lisboa e só acedeu a evacuar o território português depois de ter assinado as vantajosas condições da Paz de Santarém.
Nesta época, os franceses e os ingleses andavam envolvidos na já várias vezes referida Guerra dos Cem Anos, ao mesmo tempo que revoltas camponesas alastravam no Norte de uma Europa ainda convalescente da devastação levada a cabo pela peste negra de 1347-1351. Portugal, mesmo que quisesse manter-se alheado do grande conflito anglo-francês, não o conseguiria, e já vimos que D. Fernando não gostava de ver as armas a enferrujarem penduradas nas paredes. Sendo assim, as guerras peninsulares acabavam por ser reflexos dessa outra, maior, que se travava para lá dos Pirenéus. Vejamos um exemplo: Henrique de Trastâmara contava com o apoio de França, enquanto Pedro O Cru era um homem dos ingleses. Aliás, na guerra que os opôs e em que O Formoso entrou alegremente, defrontaram-se mercenários comandados pelo condestável francês Bertrand du Guesclin e archeiros ingleses do Príncipe Negro, filho de Eduardo III de Inglaterra.
Entretanto, D. Fernando fazia e desfazia promessas de casamento, ao sabor das alianças de circunstância. Primeiro, quando era inimigo de Castela, combinara desposar a infanta Leonor de Aragão. Depois, feitas as Pazes de Alcoutim, pediu a mão de uma infanta castelhana, também chamada Leonor. Para complicar, desmanchado o primeiro noivado e com a segunda futura mulher já em Portugal, acabou por se casar, meio às escondidas, na discreta igreja de Leça do Balio, com uma portuguesa de quem o povo não gostava e a quem chamava Aleivosa. O nome dela? Leonor Teles. Leonor também! Esta “aleivosa”, para o efeito, divorciara-se do marido, o fidalgo beirão João Lourenço da Cunha. A escolha do local da discreta boda, a norte do Porto, o mais longe possível de Lisboa, foi, aparentemente, para “ninguém” ver. É que os habitantes da capital, liderados pelo alfaiate Fernão Vasques, tinham protestado energicamente contra aquela ligação e exigiam que o rei cumprisse a sua palavra e desposasse a princesa castelhana. Onde já se tinha visto uma rainha portuguesa ser de condição inferior à do rei e ainda por cima divorciada de um súbdito dele?
Voltando às guerras, em 1381 seria a vez de o cata-vento D. Fernando pegar em armas contra o novo rei João I de Castela. Este terceiro conflito terminaria depressa, com a combinação do casamento da pequena infanta portuguesa Beatriz (ou Brites, como então se dizia), de 8 anos, única herdeira de D. Fernando (filha dele e de Leonor Teles), com o soberano vizinho. Significava isto que, a médio prazo, o rei de Castela seria também rei de Portugal. Depois de D. Fernando se ter imaginado, com alguma precipitação, soberano de Castela, a situação sofria uma reviravolta completa.
Para compreendermos melhor as indecisões matrimoniais e os entusiasmos afetivos de D. Fernando, convém que façamos um flashback no flashback.

Atrações fatais
Quando já tinha o casamento combinado com Leonor de Castela e ainda não conhecia Leonor Teles, D. Fernando coabitava com uma meia-irmã, chamada Beatriz (Brites), filha do falecido rei D. Pedro e da famosa Inês de Castro (cuja história não cabe aqui recordar). Presume-se que a moça fosse tão enfeitiçante como a mãe, pois o rei não resistia aos seus encantos. Eram irmãos, mas não era a primeira vez que tais coisas aconteciam, nem seria a última…
O feliz “casal” morava no Paço de A-Par-de S. Martinho, que era na época a residência oficial do rei. O edifício já não existe, mas o que ocupa o seu lugar é conhecido dos lisboetas: trata-se do atual Centro de Estudos Judiciários (CEJ), um pouco acima da Sé, e até há umas décadas Cadeia do Limoeiro. Este nome vem, aliás, de uma árvore que havia no interior do antigo palácio real e em cuja sombra talvez D. Beatriz (ou Brites, como se queira) tagarelasse com as suas damas de companhia.
Franceses e ingleses andavam envolvidos na chamada Guerra dos Cem Anos, e o confronto luso-castelhano também pode ser visto no âmbito desse conflito
De qualquer modo, a relação estava destinada a durar pouco tempo, visto que o rei não tardaria a deixar-se encantar por uma dessas damas, Maria Teles de sua graça. Contudo, a história não termina aqui – longe disso. Estava ainda para entrar em cena a verdadeira protagonista: a já referida Leonor Teles.
Essa entrada da femme fatale ocorreu em 1371, num dia que mudou a vida de D. Fernando e do próprio País. Leonor, então com 21 anos e casada com o já aludido fidalgo João Lourenço da Cunha (com quem tivera um filho, apesar de serem primos), foi ao paço visitar a irmã e cruzou-se com o rei. Muito perturbado, esquecido da meia-irmã, da aia desta, da infanta castelhana e de todos os compromissos em geral, o pobre Fernando foi abrir o coração a Maria e ao tio das duas Teles, que também vivia em Lisboa. Ambos lhe disseram que Leonor era mulher para se deixar conquistar pelo rei, sim, mas apenas de uma forma pública e assumida. Ou seja, desde que se tornasse rainha. Para O Formoso isso não constituiu problema: casar-se-ia com ela, e a infanta castelhana que se deixasse ficar na sua terra. Havia ainda o obstáculo do marido de Leonor Teles, mas este problema resolveu-se por si mesmo quando o pobre João Lourenço da Cunha achou por bem exilar-se em Castela.
Entretanto, em Lisboa, o rei e Leonor Teles passaram a comportar-se como um casal, para grande irritação popular. No ano seguinte a terem-se conhecido, casaram-se então em segredo no já referido mosteiro de Leça e passados meses nascia a infanta Beatriz, a tal que um dia estaria destinada a dar o nó com João I de Castela.
Pese embora a má vontade do povo, os primeiros tempos de casado não correram mal a D. Fernando, visto que o reino era próspero e chegou até a assinar-se, em plano de igualdade, a tal aliança com Inglaterra, destinada a durar até hoje, apesar de normalmente não darmos por isso.
E há males que vêm por bem, pois nesse tempo da Guerra dos Cem Anos a escolha de uma rainha portuguesa livrou D. Fernando da tremenda dificuldade de ter de optar entre uma noiva do partido francês (o que sucederia se a eleita fosse a infanta castelhana) ou uma do partido inglês (se fosse aragonesa, por exemplo). Mas é óbvio que o desfazer do noivado com a filha de Pedro O Cru tornara inevitável a guerra de que já falámos, aliás, no contexto do grande conflito europeu e em moldes que a aliança luso-inglesa clarificara.
No plano pessoal, depois de um início de casamento feliz, D. Fernando começou a ter dores de cabeça quando se tornaram notórias as infidelidades da sua amada Leonor Teles. O rival amoroso do rei era o conde galego João Fernandes Andeiro, que haveria de viver maritalmente com a sereia quando esta ficou viúva. E essa mudança de estado civil da rainha não tardou muito a acontecer, pois O Formoso abandonou a cena deste mundo cruel em que tão levianamente se movimentara com 37 anos de idade, não se sabe bem se vítima de doença provocada por causas naturais (possivelmente tuberculose) ou se devido à ingestão prolongada de veneno. Há quem se incline para esta segunda possibilidade. Mas antes de se lhe fecharem os olhos ainda teve tempo de casar a filha Beatriz com João I de Castela, transformando este monarca estrangeiro no herdeiro do trono português.
Depois de termos visto as coisas más do reinado de D. Fernando, é agora altura de passarmos às boas.

Entre outras coisas, O Formoso tomou mexidas destinadas a fazer aumentar a produção agrícola, incitando ao desbravamento de terras e aligeirando os impostos que incidiam sobre os camponeses. Era este o objetivo da Lei das Sesmarias, segundo a qual os proprietários das terras não cultivadas eram obrigados a entregá-las a quem as cultivasse. Isto não chegou a funcionar em pleno, mas a intenção do rei, ou dos seus conselheiros, foi boa. D. Fernando estimulou também o desenvolvimento da marinha, facilitando a construção naval e isentando de direitos de exportação as mercadorias embarcadas pela primeira vez pelos armadores. Em complemento, criou em Lisboa e no Porto a Companhia das Naus, uma autêntica empresa seguradora que cobria os riscos da navegação.
Uma outra lei obrigava todos os vadios e mendicantes válidos a trabalhar, sob pena de levarem açoites. Alguns destes alegavam que eram ermitães, mas o argumento não colhia: se tinham bons braços, que lhes dessem uso. Quanto aos padres, foram impedidos de adquirir terras sem licença régia, e esta não era fácil de obter.
O casamento com a portuguesa Leonor Teles livrou o reiD. Fernando do embaraço de ter de escolher uma noiva no partido francês ou no partido inglês
No plano social, foi no tempo de D. Fernando que a burguesia, sobretudo a da capital, tomou verdadeira consciência da sua força. Os assalariados desta classe cada vez mais pujante viviam, porém, na fronteira da miséria, o que levou o rei a incitar as corporações religiosas a pôr de pé um plano de assistência.
A muralha
Pesem estas boas intenções, quando D. Fernando morreu, em outubro de 1383, deixou o País nas ruas da amargura. No ano seguinte, durante quase cinco meses, Lisboa esteve cercada pelas forças enviadas pelo rei castelhano pretendente ao trono por ser casado com a pequena infanta Beatriz.
Se não existisse já a muralha construída na década anterior, tudo teria sido uma trágica reedição do que já ocorrera em 1372, por altura de outro cerco ordenado por Henrique de Trastâmara, em que D. Fernando fora humilhado e a capital portuguesa saqueada e incendiada. Mas O Formoso, pense-se dele o que se pensar, sabia tomar medidas administrativas acertadas e, entretanto, trabalhando-se a bom ritmo, fora dada por concluída num par de anos, entre 1373 e 1375, uma bela muralha. Claro que isto representou um esforço enorme de operários e mestres-de-obras oriundos de toda a Estremadura e do Ribatejo, que tinham mourejado incansavelmente sob as ordens de um tal Gomes Martins, que era na altura aquilo a que agora chamaríamos presidente da câmara. Mesmo assim, já durante o cerco de 1384 se chegara à conclusão de que era conveniente reforçar a cerca aqui e ali, e as pedras e os baldes de cal lá iam andando de um lado para o outro com o inimigo à vista. A muralha, realmente imponente, tinha 77 torres e 38 portas. Algumas destas últimas deixaram vestígios na toponímia da cidade, como as Portas de Santo Antão, o nome da rua onde fica o Coliseu e onde se situava a entrada que comunicava de forma mais direta com o Rossio. O que resta das Portas do Mar pode ainda ser visto na parte baixa de Alfama, entre o Campo das Cebolas e o Jardim do Tabaco.
Afinal, e para lá da própria existência da muralha, dois motivos conjugados levariam os castelhanos a levantar o cerco, em setembro de 1384. Um deles foi a epidemia de peste que se espalhou no acampamento; outro, os constantes ataques lançados contra as posições sitiantes, a partir de fora, pelas tropas de D. Nuno Álvares Pereira.
O alcaide do Castelo de Faria
Durante as desastradas guerras entre o rei D. Fernando de Portugal e Henrique II de Castela (ou Henrique de Trastâmara), descritas no texto principal, um exército inimigo de cavaleiros e peões comandado por Pedro Rodriguez Sarmento, o adiantado da Galiza, entrou pelo Minho adentro. Um adiantado era uma espécie de governador militar. Sem encontrar resistência, a tropa galega saqueou todas as terras que lhe ficavam no caminho até perto de Barcelos. E foi só aqui que um exército português reunido à pressa pelo conde de Seia, tio de D. Fernando, fez frente aos invasores. A batalha foi renhida, mas os portugueses acabaram derrotados, e muitos deles feitos prisioneiros. Passou-se isto em 1368.
Conta Alexandre Herculano nas Lendas e Narrativas que entre os reféns da batalha se contava um tal Nuno Gonçalves, alcaide (ou governador) do Castelo de Faria, uma fortificação das redondezas fundada no século IX. Gonçalves saíra do castelo para ir defender o conde de Seia e tudo correra mal. Quem ficou satisfeito foi Sarmento, o adiantado da Galiza, sobretudo quando o ilustre prisioneiro lhe sugeriu a entrega do castelo em troca da sua liberdade. Dentro das muralhas, a guardar a praça-forte, ficara Gonçalo Nunes, o filho de Nuno Gonçalves, e era de crer que o rapaz, ao ver o pai a ferros, não hesitasse pela sua parte em entregar a fortaleza aos inimigos para o libertar.
Só que Nuno Gonçalves levava os seus deveres a peito e a sugestão que fizera ao adiantado inimigo não passava de um estratagema. Conduzido até junto das muralhas por um grupo de homens de armas galegos a tilintar de espadas e de lanças, ordenou de cá de baixo aos besteiros que defendiam o castelo que chamassem às ameias o seu filho. Gonçalo Nunes não tardou a aparecer no alto da muralha. Gritando, o pai perguntou-lhe se sabia de quem era o Castelo de Faria, ao que o filho respondeu que sim, que era do rei D. Fernando. O pai perguntou-lhe depois se estava informado de que o dever de um alcaide era nunca entregar, fosse em que circunstância fosse, o castelo confiado à sua guarda. O jovem respondeu afirmativamente. Então, Nuno Gonçalves gritou ainda mais alto, exortando o filho a defender a fortaleza até à morte. E rematou com uma maldição terrível: “Maldito por mim, sepultado sejas tu no inferno como Judas o traidor na hora em que os que me cercam entrarem nesse castelo sem tropeçarem no teu cadáver!”
Escusado será dizer que o velho alcaide foi imediatamente trespassado pelas lanças dos guardas galaico-castelhanos. Mas ele não ignorava que essa sorte era inevitável. O filho, lá em cima, incitava os seus a uma defesa feroz. A terrível morte do pai, à frente dos seus olhos, inspirara-o, e o primeiro ato dos defensores do castelo foi dispararem uma nuvem de flechas contra a guarda avançada castelhana. Muitos soldados invasores tombaram ali mesmo, junto do cadáver do velho alcaide.
O Castelo de Faria nunca chegou a render-se.
O famoso condestável
D. Nuno, Nun’Álvares, também conhecido simplesmente por “o Condestável”, é uma das figuras centrais – e mais populares – da História portuguesa. Tão célebre pelos seus dotes de guerreiro como pela sua vertente religiosa, é igualmente identificado por Santo Condestável, S. Nuno de Santa Maria, Beato Nuno ou Frei Nuno.
Nascido em 1360, este homem dos mil nomes era filho bastardo do prior da Ordem do Hospital e neto de um arcebispo de Braga. O prior ofereceu-lhe 31 irmãos e irmãs. O jovem Nuno casou-se muito novo, aos 16 anos, com uma viúva mais velha, Leonor de Alvim, com a qual habitou uma dúzia de anos no seu solar minhoto da região de Basto e que o deixou por sua vez viúvo aos 28, depois de lhe ter dado três descendentes – incluindo a iniciadora da depois poderosíssima Casa de Bragança, Beatriz Pereira de Alvim, que seria mulher do primeiro duque daquele título, D. Afonso, filho natural do futuro rei D. João I e de Inês Pires.
Dizer que D. Nuno habitou no solar de Basto é uma maneira de colocar a questão, pois quase nunca lá estava. Assim que estalou a crise dinástica de 1383, devida ao facto de D. Fernando ter morrido sem deixar filho varão, o nosso jovem, com vinte e poucos anos, saltou para a ribalta (e para o cavalo, que aliás era uma mula) e nunca mais parou em casa. Visceralmente oposto à ideia de que se entregasse o trono ao rei castelhano, alinhou com uma figura destinada a desempenhar um papel importantíssimo na História de Portugal, da qual falaremos largamente um pouco mais adiante: D. João, Mestre de Avis, futuro rei D. João I, que aparecera (não inteiramente por vontade própria) a liderar os que se opunham à coroação de D. João de Castela como rei de Portugal.

Costuma dizer-se que o Mestre soube ver em Nuno o homem de que precisava para organizar uma resistência eficaz às ofensivas militares castelhanas, mas se calhar o inverso é mais verdadeiro. Com efeito, e como já atrás se disse, foi o filho do prior do Hospital que construiu a imagem e o prestígio do futuro D. João I, convencendo-o a abraçar e a liderar a causa anticastelhana. De qualquer das formas, o Mestre nomeou-o, enquanto regente, condestável do reino, um cargo de comandante-chefe das forças armadas criado pouco antes por D. Fernando e cujo primeiro titular tinha sido um tal Álvaro Pires de Castro, irmão de Inês de Castro.
Cem anos antes, talvez nada disto tivesse acontecido, mas, neste final do século XIV, existia já, em Portugal, um forte sentimento nacional
E a verdade é que Nuno se revelou o homem certo no lugar certo, pois venceu os castelhanos em Atoleiros (na região de Portalegre), Aljubarrota (a célebre batalha já descrita) e Valverde (perto de Mérida, para lá da fronteira). Mesmo sem ter viajado pela Europa, estava informado acerca da maneira como se combatia lá fora, e logo a partir de Atoleiros adotou as novas táticas em uso para lá dos Pirenéus, na Guerra dos Cem Anos. Os pesados cavaleiros com armaduras iam passando de moda e o que estava a resultar era o uso de tropas apeadas para o combate corpo a corpo e de besteiros. Estes últimos eram os soldados que lutavam com bestas (este “e” é aberto), aquele misto de espingarda e arco que disparava umas setas curtas chamadas virotes.
Por sinal, os cavaleiros eram nobres e os peões, homens do povo arregimentados. Era, de certo modo, o início do exército entendido como povo armado, em oposição à conceção elitista da profissão das armas. Muita água correria depois nos rios, e hoje a ideia dominante voltou a ser a do exército profissional.
A figura de Nuno Álvares Pereira é tão famosa que não podemos ignorar a sua projeção através dos séculos, nem que para isso seja necessário dar um rápido salto no tempo.
Depois de ter sido guerreiro, Nuno aderiu à Ordem dos Carmelitas, fundou em Lisboa o Convento do Carmo e ali passou a maior parte da vida, até morrer em 1431. Durante séculos foi considerado santo sem o ser oficialmente. A canonização acabaria, contudo, por se concretizar em 2009. Mas para isso foi necessário que, em 2000, uma dona de casa de Ourém que estava a fritar peixe apanhasse com salpicos de óleo num olho, o que lhe causou lesões na córnea. Face às reservas dos médicos, Guilhermina de Jesus, devota do beato Nuno de Santa Maria, rezou então com muita fé, de mão assente numa imagem do velho condestável. E parece que se curou. Era o sinal que faltava e que tardara mais de meio milénio, pois foi suficiente para que Nuno Álvares Pereira, patrono do Exército português, tenha sido canonizado pelo Papa Bento XVI. Já décadas antes fora beatificado e a sua imagem nunca deixara de ser usada como bandeira por setores nacionalistas conservadores.
Neste particular, assemelha-se a Joana d’Arc, a heroína francesa desta mesma Guerra dos Cem Anos que desde há um século e picos tem servido de estandarte à extrema-direita do seu país. Involuntariamente, um e outra tornaram-se depois da morte aquilo que nunca tinham sido em vida: servidores da tradição contra a inovação e, em última análise, dos fortes contra os fracos.
Entrevista secreta
Entremos agora nas confusões do interregno, ou seja, daquele período entre reinos (daí a palavra) em que o poder supremo não se encontrava nas mãos de ninguém.
O Mestre de Aviz, futuro reiD. João I, era filho natural do antigo rei D. Pedro I, que o teve com uma burguesa chamada Teresa Lourenço
Morto D. Fernando, e com Leonor Teles a desempenhar as funções de regente, enquanto a maior parte da nobreza de Portugal apoiava o pretendente castelhano, a burguesia e o povo revoltaram-se, pois não queriam ser governados por um estrangeiro. Cem anos antes, não teria sido provável que isto tivesse sucedido, mas neste último quartel do século XIV existia já um forte sentimento nacional. Se os nobres, os “filhos de algo” (daí a palavra “fidalgos”), continuavam mais fiéis a um senhor de quem recebiam benesses do que a uma ideia abstrata de “nação” (nem eles aceitariam a ideia de pertencer à mesma nação que o povo), já os plebeus encaravam o assunto de modo diferente. Acresce que o terreno estava maduro desde que a Peste Negra fizera estragos terríveis em toda a sociedade, e o exemplo das revoltas camponesas em França conhecidas por Jacqueries fez com que os plebeus ricos (os tais burgueses) receassem o pior, levando-os a tomar nas mãos, dentro do possível, os destinos da sociedade. Mas este grupo dos plebeus era tudo menos homogéneo, visto que englobava quer os patrões, quer os empregados. Os primeiros, naturalmente, esforçaram-se por ser eles a controlar os acontecimentos.
Tudo começou com um levantamento popular em Lisboa. Sob a orientação da burguesia mercantil, D. João, o mestre da Ordem de Avis, foi eleito numa espécie de assembleia popular, em plena rua (no Largo de S. Domingos), “defensor e regedor do Reino”. Ora, uma das primeiras coisas que ele fez depois dessa eleição foi assassinar – com as suas próprias mãos – o já referido conde Andeiro, amante da rainha viúva e chefe de fila do partido castelhano. Em boa verdade, era este galego que governava o País, pela influência que exercia sobre a amante, ao ponto de, se ela se tornasse efetivamente rainha (como pretendia o rei castelhano durante a menoridade de Beatriz), vir a ser ele o verdadeiro governante. Por este motivo, concitara não apenas o ódio popular, mas também a má vontade de muitos fidalgos e de praticamente todo o alto clero. Resumindo: quase toda a gente via neste galego um alvo a abater.

Quanto a Leonor Teles, já sabemos que o povo a odiava, tanto mais que mandara pessoalmente decapitar os chefes da rebelião que em tempos estourara em Lisboa para tentar evitar o seu casamento com o pobre D. Fernando. Além disso, ainda em vida do marido a Aleivosa tinha feito assassinar a própria irmã Maria Teles (não fosse ela ainda fazer-lhe sombra no tocante aos favores do rei), afugentara para Castela os filhos de Inês de Castro e de D. Pedro I e rubricara uma sentença de pena capital contra o Mestre de Avis imitando a assinatura do marido (que se recusara a condenar o meio-irmão). Neste poço de defeitos, só se salvava mesmo, ao que parece, a beleza física, que era o único fator que contava para o apaixonado D. Fernando.
A morte do conde Andeiro foi planeada por um burguês rico e já bastante entrado em anos, que morava em Lisboa e tinha sido chanceler (cargo equivalente ao do moderno primeiro-ministro) de D. Pedro e de D. Fernando. Foi também ele, como se verá, o “inventor” do futuro D. João I. Aposentado por motivos de idade, ouvira com indisfarçável orgulho o último rei recomendar à vereação lisboeta que não tomasse qualquer resolução sem antes ouvir o seu conselho. Era como que o senhor da cidade, cujos habitantes anónimos o respeitavam, embora aqui e ali se notassem, inevitavelmente, umas naturais pontinhas de ressentimento e até mesmo de inveja.
Quando soube que o rei de Castela invadia Portugal, o Mestre de Aviz convocou o povo de Lisboa para uma reunião, no Mosteiro de S. Domingos
Ora, Álvaro Pais odiava de morte o conde Andeiro, e gizou um plano para o apear da situação de homem-forte a nível nacional em que se encontrava para desgraça pública. Olhou em redor procurando alguém que pudesse ocupar o lugar do amante da rainha e deu então com os olhos no nosso Mestre de Avis, filho natural do antigo rei D. Pedro I e de uma burguesa vistosa chamada Teresa Lourenço, pertencente a uma família de mercadores lisboetas.
Visto que sofria de gota e que lhe custava muito deslocar-se, Álvaro Pais mandou chamar o jovem D. João. Podia fazê-lo, pois era um homem importante, embora plebeu. O Mestre de Avis acorreu logo, e na entrevista, que teve por cenário a casa do rico burguês, com as suas arcas trabalhadas e ricas tapeçarias flamengas, ficou assente que D. João mataria o Andeiro, colocando-se dessa forma a jeito para vir a sentar-se em breve no trono. Pois não era verdade ser ele filho de rei? Naquele tempo fazia-se assim a política interna, tal como hoje sem olhar a meios para atingir os fins, mas com um despudor que mais tarde seria banido através de um toque de cosmética.
O Mestre de Avis ainda objetou que a missão era difícil de desempenhar, uma vez que o conde Andeiro andava sempre acompanhado de fidalgos amigos e bem guardado por dezenas de escudeiros, mas Álvaro Pais era da opinião de que a coisa era praticável se se contasse com o apoio do povo de Lisboa, e esse apoio estava ele em condições de garantir. Prometeu-lhe também a cooperação de determinados fidalgos, entre os quais o conde de Barcelos, irmão da rainha mas inimigo de Andeiro.
D. João ficou logo tentado a aceitar, mas solicitou a Pais alguns dias para refletir e para pedir a opinião do seu amigo Nuno Álvares Pereira e do tio deste, Rui Pereira – opinião essa que, aliás, quase conhecia de antemão, pois ambos o tinham já incitado a desencadear um golpe de Estado.
A morte do Andeiro
Assente a conspiração, no dia 6 de dezembro de 1383 o Mestre de Avis, acompanhado de 25 homens armados de espada e usando couraças e braçais (aquelas proteções de ferro para os braços com uma espécie de dobradiças para os cotovelos), entrou no Paço de A-Par-de-S. Martinho. Lá dentro, deparou com Leonor Teles sentada numa sala, rodeada de damas de companhia e de fidalgos, entre os quais o seu irmão conde de Barcelos, e com o Andeiro sentado aos pés.
D. João pediu perdão à rainha pela forma inopinada como entrara e desculpou-se com um pedido de reforço de tropas para defender o Alentejo, ameaçado pelos castelhanos. Enquanto a rainha estava distraída a dar as ordens para que o tal reforço se efetivasse, o Mestre de Avis pediu em surdina ao conde de Barcelos que se ausentasse, pois queria matar ali mesmo o Andeiro. O irmão de Leonor Teles respondeu que, pelo contrário, ficaria para o ajudar, mas face à insistência do Mestre, que prometeu ir almoçar com ele a seguir, acabou por abandonar a sala, seguido dos restantes fidalgos à exceção do conde de Ourém.
D. João e os seus homens ficaram assim sozinhos na presença da rainha e do amante. Foi então que o Mestre de Avis convidou o Andeiro a acompanhá-lo a uma sala contígua, onde o atingiu com uma punhalada na cabeça. Não sendo o ferimento mortal, João Fernandes Andeiro, ensanguentado, fugiu para junto da rainha, mas ali Rui Pereira, o tio de Nuno Álvares, trespassou-o com a espada.

Enquanto Leonor Teles gritava e as aias a imitavam, D. João fechava as portas e ordenava ao seu pajem que fosse correr pelas ruas da cidade bradando que acudissem ao Mestre de Avis, pois estavam a matá-lo no paço real. O rapaz cumpriu a ordem, e não tardou que uma multidão ululante se comprimisse contra os muros do edifício, os homens transportando escadas e as mulheres braçadas de lenha para atear fogo. O povo queria assaltar o palácio, fazer justiça por suas mãos nas pessoas da Aleivosa e do Andeiro, aclamar o Mestre se fosse ainda tempo de o salvar e não deixar pedra sobre pedra. Era uma autêntica Jacquerie à portuguesa. Alguém dos de dentro achou por bem aconselhar D. João a mostrar-se à janela, para evitar o pior. Este assim fez, e foi vitoriado pelo povo entusiástico, de cuja massa se destacava a silhueta de Álvaro Pais, montado a cavalo e exibindo um sorriso discreto.
Era então bispo de Lisboa um castelhano chamado D. Martinho, considerado virtuoso pelo vulgo e acerca do qual não havia muito a censurar. O prelado recebia nesse dia o prior de Guimarães e um tabelião de Silves, seu parente. Inquieto com a movimentação popular, mandou fechar as portas da Sé e subiu com os convidados a uma das torres, para melhor apreciarem o espetáculo da revolução em marcha. Cá em baixo, o povo, vendo gente na torre, gritou para cima que fizessem repicar os sinos em sinal de festa pela morte do Andeiro. O bispo cometeu o erro fatal de não obedecer, o que fez com que a multidão, enfurecida, arrombasse as portas do templo, escalasse a torre em tropel e arremessasse lá do alto o prelado e os seus dois convidados.
Entretanto, o Mestre de Avis, conforme prometera, almoçava tranquilamente com o conde de Barcelos, irmão da rainha.
A crise de 1383–1385 mostrou
a oposição entre a burguesia ascendente e as forças hegemónicas tradicionais
da nobreza
e do alto clero
Duplamente viúva (e já antes divorciada), Leonor Teles, em pânico, fugiu na mesma tarde para Alenquer. Dali, ordenou a todos os alcaides das fortalezas que aclamassem como soberanos D. João de Castela e D. Beatriz. A ordem foi cumprida sem dificuldade, pois quase todos os castelos estavam nas mãos de partidários seus, ali colocados pelas hábeis manobras de sedução que durante anos desenvolvera junto do Formoso e influenciável rei.
Quando chegou a Lisboa a notícia de que D. João de Castela invadia Portugal, o Mestre de Avis convocou a população para uma espécie de assembleia-geral, no Mosteiro de S. Domingos, durante a qual foram traçadas as linhas de atuação para fazer face ao partido estrangeiro. A este plenário seguir-se-ia outro, agora nos Paços do Conselho, perto da Sé, onde o Mestre foi oficialmente empossado no cargo de “defensor e regedor dos reinos de Portugal e do Algarve”, para o qual já fora eleito na rua. Um ano e meio mais tarde, acabaria por ser aclamado rei, nas Cortes de Coimbra, inaugurando desse modo uma nova dinastia.
Convém acentuar que nesse tempo existia já um claro sentimento nacional, sobretudo desde que, no século anterior, D. Dinis tinha desenvolvido uma política de fomento e decretado que todos os documentos oficiais passassem a ser escritos na língua corrente, em vez de o serem, como até então, em latim. Se Portugal existia como Estado independente desde o tempo de D. Afonso Henriques, no século XII, durante os primeiros reinados não tinha ainda a individualidade própria que viria a ser adquirida no decorrer desta crise de 1383-1385. Pode, talvez, dizer-se sem exagero que começa aqui a verdadeira história da independência nacional.
As Cortes de Coimbra
Na atrás referida reunião das três ordens (nobreza, clero e povo) que teve lugar em Coimbra, no antigo paço real, a causa da entronização do Mestre seria brilhantemente defendida pelo jurista João das Regras. Mas não julguemos que foi fácil: o brilhante orador (era-o, com certeza) teve de mobilizar todos os seus talentos para convencer a assembleia das vantagens de optar pelo Mestre em vez do castelhano ou (provisoriamente que fosse) de um dos filhos de D. Pedro e de Inês de Castro.
A primeira questão levantada pelo advogado foi se as Cortes, atendendo ao estado de divisão do País, tinham direito a eleger um novo rei. Chegou à conclusão de que sim, recorrendo a uma comparação com a eleição do Papa, que, na sua ótica, até podia ser escolhido por um só cardeal. Entrando na matéria, e analisando as pretensões do rei castelhano, João das Regras defendeu que estas estavam prejudicadas pelo facto de D. Fernando ter deixado irmãos. Além de que D. Beatriz devia ser considerada filha ilegítima de D. Fernando, pois nascera do ventre de uma mulher já casada com outro homem que não o rei. Se este ponto hoje não nos convence, há 640 anos o conceito de ilegitimidade era mais abrangente (e nem é preciso recuar tanto, basta cem anos). Agora, um argumento que, esse sim, já é mais convincente: Leonor Teles tinha relações com o rei e com o conde Andeiro e, nas palavras de João das Regras, “ela que com dois dorme, mui mal será certa de qual deles emprenha”.
Além disso, o rei de Castela e Beatriz não podiam ainda herdar o trono por ele ser “antipapa”, quer dizer, seguidor do pontífice concorrente do de Roma entronizado pelos franceses na cidade de Avignon (ou Avinhão). Mas o cisma da Igreja (ou Grande Cisma do Ocidente) é uma matéria que seria longo desenvolver e não é para aqui diretamente chamada.
Quanto aos direitos ao trono dos infantes D. João e D. Dinis, filhos do antigo rei D. Pedro e de Inês de Castro, o melhor seria nem considerar a questão, visto os pais não serem casados, por muito que D. Pedro tivesse feito constar que a cerimónia se realizara. Imparável, o jurista não dá ponto sem nó: mesmo admitindo que esse consórcio se tivesse mesmo efetuado, de que valeria ele se os pretensos cônjuges eram compadres (visto Inês ter sido madrinha do primeiro filho de Pedro)? Mas, argumento dos argumentos, ainda mesmo que fossem legítimos, o direito a sentarem-se no trono de Portugal tinha-se esfumado no momento em que pegaram em armas contra ele, nas guerras do tempo de D. Fernando.
Apesar de todos os esforços oratórios de João das Regras, muitos nobres continuavam a querer como rei este D. João filho de Pedro e Inês, enquanto a infanta Beatriz fosse criança. Quanto aos representantes do povo, defendiam obviamente a causa do Mestre de Avis. Os ânimos azedaram-se, Nuno Álvares Pereira encarniçou-se contra o chefe do partido dos nobres e foi preciso o Mestre recomendar calma. Houve um intervalo, e quando os trabalhos recomeçaram João das Regras tirou da manga três documentos arrasadores. Um eram as instruções enviadas pelo velho rei D. Afonso IV, pai do futuro D. Pedro I (e avô de D. Fernando), ao arcebispo de Braga, de visita a Roma, para que este insistisse com o Papa que recusasse conceder a dispensa canónica indispensável ao casamento do então infante com Inês de Castro. Outro era um pedido do próprio D. Pedro ao Papa para que legitimasse os filhos da sua ligação com Inês. O terceiro era a recusa do pontífice a este pedido.
Os delegados presentes resolveram então vergar-se ao peso da argumentação do advogado, e o Mestre de Avis foi eleito rei. Este ainda recusou a honra, alegando que não tinha as qualidades requeridas e que, além disso, era clérigo (não esqueçamos que chefiava a ordem religiosa de Avis), mas não quiseram ouvi-lo e rei ficou, com aclamação festiva a 6 de abril de 1385. Provavelmente, o que D. João temia era estar a envolver-se em grandes complicações, visto que o partido castelhano continuava a ser, mais ou menos secretamente, o preferido da grande nobreza, e avizinhava-se uma tempestade (que desabaria mesmo).
De qualquer das formas, e independentemente da decisão das Cortes, em finais de 1383, muito antes da sua reunião, já estavam claramente definidos os partidos. De um modo geral, as classes trabalhadoras alinhavam com o “defensor e regedor”, enquanto os alcaides e os nobres davam voz pelo rei castelhano e pela infanta Beatriz, recomendando que se sentasse no trono D. João, filho de Pedro e Inês (que como sabemos também era do partido castelhano), durante a menoridade da infanta. Era uma luta de classes, prenunciadora já, num passado remoto, do grande choque social que 400 anos depois abalaria França e o mundo.
Se refletirmos um pouco, facilmente chegaremos à conclusão de que esta “crise”, como tradicionalmente se chamou aos acontecimentos que marcaram o fim da dinastia de Borgonha e o advento da de Avis, tem em si três componentes distintas. Uma é a afirmação, pela primeira vez, da independência portuguesa face ao projeto anexionista de uma força exterior. Outra é a oposição entre a burguesia ascendente e as tradicionais forças hegemónicas da nobreza e do alto clero. A terceira é o surgimento do elemento popular a combater ao lado dos burgueses ricos; esta aliança só viria a ser desmascarada no século XIX, pelo marxismo, mas nos nossos dias assistimos à perda da consciência de classe e a uma estranha sedução dos pobres pelos ricos.
Reportando-nos agora estritamente ao século XIV, é verdade que a aliança dos pobres com os ricos parece bastante contranatura, se pensarmos que eram os ricos que pagavam aos pés descalços e que estes se queixavam amargamente da magreza dos seus vencimentos, mas ainda vinha longe a entrada em cena de outra perspetiva. Tudo se explica pelo facto de o inimigo verdadeiro de uns e de outros continuarem a ser os nobres, os que nada faziam a não ser caçar, guerrear e cobrar tributos. Além dos castelhanos, evidentemente, que faziam frente comum com os fidalgos portugueses.
Desacatos de “hooligans”

Os auxiliares ingleses que tinham vindo para ajudar os sublevados portugueses não regressaram ao seu país sem antes terem feito por cá uma série de desacatos, como verdadeiro bando de hooligans semelhante à claque de um clube da Premier League de futebol. Roubavam casas, pilhavam campos, violavam mulheres, assaltavam nos caminhos… E não se tratava da primeira vez que isto acontecia, pois já em vida de D. Fernando, O Formoso, logo depois da assinatura da aliança anglo-lusa, estes amigos com os quais não seriam precisos inimigos tinham feito estragos semelhantes quando vieram participar nas guerras contra os castelhanos. Nesse tempo, por muito que O Formoso se queixasse ao seu comandante, este limitava-se a recomendar à população portuguesa que colocasse nas suas casas um estandarte inglês, partindo do princípio de que os hooligans respeitariam os haveres de quem dessa forma se mostrasse seduzido pelos encantos da loura Albion. Pura ilusão, ao que parece.
A hora decisiva
Mesmo antes das Cortes de Coimbra, D. João de Castela sabia que não lhe restava outra alternativa que não fosse invadir Portugal e apoderar-se, pelo argumento das armas, do trono a que se achava com direito por via do seu casamento.
Um primeiro exército, bastante numeroso, entrou pela fronteira do Alentejo e, a 6 de abril de 1384 (precisamente um ano antes da aclamação do Mestre), foi derrotado, como já se referiu, em Atoleiros, no atual distrito de Portalegre, pelos portugueses comandados por Nuno Álvares Pereira. Entretanto, outro exército castelhano cercava Lisboa, que se defendeu como pôde. Uma terceira invasão, de menores dimensões, entrou pela Beira Alta, mas foi travada em julho de 1385 perto de Trancoso.
Os ventos estavam a soprar favoravelmente às cores nacionais, ou aos insurretos, já que ambas as realidades se confundiam. Mas se a revolução de 1383 fora bem-sucedida, a guerra contra Castela estava ainda longe de se encontrar ganha.
Foi vencida, isso sim, ao fim da tarde de 14 de agosto de 1385, no momento em que se travou a decisiva Batalha de Aljubarrota – a tal que todos os portugueses conhecem nem que seja apenas por ouvirem falar dela, ou, pelo menos, da célebre padeira que não se sabe ao certo se existiu, mas que está indelevelmente ligada aos acontecimentos. Como já descrevemos esse terrível embate no início deste texto, não voltaremos ao assunto, agora que estão explicadas as causas que conduziram a ele.
Aljubarrota garantiu a independência de Portugal e marcou o início de um logo período de declínio de Castela, onde foi decretado um luto de dois anos. Apenas numa hora, tinha morrido a maior parte da sua nobreza e seria preciso esperar pelo tempo dos reis católicos Isabel de Castela e Fernando de Aragão, um século depois, para que o Estado vizinho de Portugal, politicamente unificado, voltasse a erguer a cabeça. No entanto, hoje, os jovens espanhóis desconhecem praticamente esta batalha, a que os programas escolares não recomendam que seja dedicada mais do que uma breve referência nos manuais de História.