Não há nada a desvendar, é o fim. O título da peça – Final do Amor – já diz tudo. Trata-se da história de uma separação entre um homem e uma mulher. A primeira frase chega abruptamente: “Queria ver-te para dizer que acabou, não vai continuar. Não vamos continuar. Acaba aqui.” Começa o combate.
Pedro (Pedro Caeiro) fala ininterruptamente, é cruel, ácido, desagradável. Inês (Inês Pereira) agacha-se, apoia-se nos joelhos de vez em quando, mas escuta em silêncio, quase nem chora. Depois, fala ela: “Acabaste? Disseste tudo?” Inês replica, é igualmente cruel, ácida e desagradável. Chama os três filhos para a discussão, acerta contas e, em determinado momento, desfere um golpe quase fatal. Tudo parece ser terapêutico.
Final de Amor, do dramaturgo francês Pascal Rambert, é um texto avassalador. Pelo tema, claro, mas sobretudo pelo ritmo acelerado, pelo duelo de emoções, pela brutalidade das palavras. Não é um diálogo. O espetáculo dura, sensivelmente, duas horas. Na primeira hora, fala ele; na segunda hora, fala ela.
Burocrático, aborrecido? Nada disso, no fundo é como se fossem dois longos monólogos, agressivos, dolorosos, impiedosos. Rambert já admitiu, em entrevista ao jornal Público, ser a linguagem “o verdadeiro tema da peça”. Um “fluxo ininterrupto, com falta de ar, numa maratona entre o medo e a libertação, entre a banalidade e o lirismo, entre a crueza e o subterfúgio, entre a trivialidade e a grandiosidade”, resume o encenador Nuno Gonçalves Rodrigues.
A peça estreou-se, em 2011, no Festival de Avignon, com interpretação de Audrey Bonnet e Stanislas Nordey, atores para quem originalmente Pascal Lambert escreveu o texto. Em Portugal, Final do Amor esteve em cena pela primeira vez na Culturgest, em 2016, numa encenação de Victor de Oliveira. Foi a partir dessa tradução que, agora, trabalharam os Artistas Unidos (que continuam em bolandas, sem casa própria e, por isso, apresentam Final do Amor no Teatro Meridional).
Aviso aos espectadores mais sensíveis: vale muito a pena, mas é preciso fôlego para aguentar este duelo de palavras.
Final do Amor > Teatro Meridional > R. do Açúcar, Beco da Mitra, 64, Lisboa > T. 91 999 1213 > até 25 mai, qua-sáb 21h, dom 17h > €7 a €13