Em dezembro de 2001, Guimarães deixou de ser “apenas” uma cidade bonita. Com a classificação do centro histórico como Património Mundial da Humanidade pela UNESCO, saiu reforçadíssimo o orgulho da população. Este era, afinal, o reconhecimento de um trabalho que vinha desde a década de 80: o da requalificação de espaços e edifícios públicos iniciado pela autarquia, com os particulares a seguirem o bom exemplo nas suas casas. “O centro histórico era drasticamente diferente”, recorda José Nobre, diretor do Departamento de Cultura, Turismo e Juventude da Câmara Municipal de Guimarães. “Foi interessante ver a mesma pessoa que, antigamente, via da sua janela um local degradado, está agora perante o ex-líbris da cidade.” E agora, o que se avista à janela do património? Para acompanhar estas transformações, uma visita à Casa da Memória, com inauguração marcada para o próximo 25 de Abril, será obrigatória. Uma âncora da história e da cultura de Guimarães, que, com os contributos da população, falará das suas tradições, raízes e memórias, usando tecnologias inovadoras. A recuperação da antiga fábrica de plásticos Pátria, na Avenida Conde Margaride, está concluída deste julho de 2012, ano da Capital Europeia da Cultura, mas o projeto teve um parto complicado. “O grau de exigência era tão alto, que valia a pena perder mais tempo para que o resultado fosse o mais apurado possível”, adianta José Nobre. “Em cada vimaranense há um historiador e não podíamos defraudar as suas expectativas.” E, afinal, o que é, em Guimarães, merecedor de lembrança?
A linguagem fabril foi mantida, dividindo-se o edifício em duas naves, uma dedicada ao Território (focada na cartografia do concelho), outra à Comunidade. A exposição permanente estará dividida em quatro momentos: Fundação da Nacionalidade, Sociedade Rural, Industrialização e Contemporaneidade. O envolvimento da população na construção dos conteúdos foi decisivo, com a recolha em vídeo de testemunhos de ilustres e anónimos sobre o que guardam de mais marcante na cidade. “Mais do que uma visita contemplativa, queremos oferecer aos visitantes uma experiência, com uma série de soluções tecnológicas que foram especificamente criadas para a Casa da Memória”, conta José Nobre.
Hambúrgueres, petiscos e cozinha de autor
A classificação do centro histórico teve efeitos mensuráveis, como a evolução notória e consistente do turismo. E terá, porventura, aberto a porta a outros investimentos, nomeadamente com a candidatura de Guimarães a Capital Europeia da Cultura. “Muita gente veio em 2012 e acabou por ficar, atraída pelo lado humano, o que fez com que exista na cidade uma indústria criativa muito interessante”, conta Gustavo Areias, que, depois de experiências profissionais fora de Portugal, também regressou à sua terra natal por esta altura. Ultrapassada a ressaca de um ano tão intenso e os efeitos da crise económica subsequente, alguns sinais sugerem que o pior já passou. Veja-se o caso da Dan’s Finger Food & Drinks, a hamburgueria aberta em novembro do ano passado por Gustavo e outros sócios da Live Tank, uma empresa de comunicação e de marketing. A imagem cuidada e a qualidade da oferta transformaram-na na casa da moda em Guimarães. “Metade da decoração foi a pensar na fotografia”, confessa Gustavo. A arma secreta, contudo, foi resgatada de um insuspeito café de Guimarães, o Danúbio (abstemo-nos de dizer o vernáculo pelo qual era conhecido): o chefe de cozinha Daniel Cardoso, que depois de ter conquistado uma clientela eclética com as suas experiências gastronómicas, tem agora uma chapa à medida das suas ambições. Das suas mãos saem generosos hambúrgueres de picanha em inúmeras combinações, com ingredientes como pimento jalapeño, cogumelos marron, alheira de Mirandela, camarões panados, abacaxi ou presunto pata negra. Os vegetarianos também não saem desiludidos, com duas sugestões bem esgalhadas no menu. A acompanhar, bebidas frescas, como o mojito com gengibre ou a sangria de espumante com frutos silvestres e maracujá. A casa, apesar de estar nas imediações do centro histórico (próximo do estádio do Vitória), vive maioritariamente dos locais ou de curiosos das redondezas. “As pessoas estavam à espera de algo deste género, que fugisse ao modelo tradicional da restauração vimaranense e as fizesse sentir que estão noutro lugar”, comenta Gustavo Areias.
As circunstâncias repetem-se na Sala 141, também a poucos passos das muralhas, na Avenida Afonso Henriques, um gastropub prestes a comemorar o primeiro aniversário, criado por um vimaranense de gema, André Leston, e a sua mulher, Marisa Cid. André foi um dos tais que decidiu regressar a Guimarães em 2012, mas a oportunidade de abrir um negócio próprio surgiu mais recentemente, com o encerramento do Avenida, frequentado há vários anos pela sua família. A traça original do antigo snack-bar pouco mudou, mantendo-se o teto de madeira, o balcão longo e as janelas amplas. Acrescentou-se uma enorme mesa comunitária, a estimular as conversas entre quem chega. “Quando as pessoas estão à mesa, dão um bocadinho de si. Não foi por acaso que pusemos o nome Sala, queremos que o convívio aconteça de forma espontânea”, diz André. Na carta, privilegiaram os petiscos, entre os quais sanduíches e saladas que fogem à oferta rotineira, ovos rotos com espargos verdes, vários revoltos, queijos e enchidos de porco ibérico. A experiência de André como barman também é posta em prática, com cocktails clássicos e originais. A cerveja artesanal Areias, produzida em Guimarães, é outra aposta forte da casa, assim como o vinho do Douro 100 Hectares. Com uma oferta igualmente diferenciadora surgiu o restaurante Le Babachris. Quando o chefe Christian Rullan, de Palma de Maiorca, juntamente com a mulher, Bárbara Rodrigues, fez as primeiras viagens de reconhecimento ao Norte de Portugal, em 2014, à procura de um local para se fixar, ficou encantado com Guimarães. Optou por uma casa discreta na Rua D. João I, suficientemente distante da confusão turística, mas pejada de história, onde se pudesse concentrar na sua cozinha. “Não tenho carta, crio a partir daquilo que encontro no mercado e tento não repetir os pratos”, sublinha. Para o maiorquino, interessava criar um restaurante informal, acessível a qualquer pessoa, desde que tivesse uma mentalidade aberta para se deixar levar e descobrir novos sabores. “Nem sempre há muita tolerância, mas isto é como uma escola”, conta. Para uma lição completa, o melhor é aparecer às sextas e sábados, ao jantar, para provar os menus de degustação.
Dos vinis aos produtos regionais
Outros negócios instalaram-se em Guimarães especificamente atraídos pelo turismo. “Se há um antes e um depois da classificação pela UNESCO, também podemos falar do efeito provocado pelos voos low cost”, diz o diretor do Departamento de Cultura, Turismo e Juventude, José Nobre. Para quem quer trabalhar para os turistas, é inevitável fixar-se no centro histórico. Ambos os filhos de Ana Vieira, antigos estudantes no polo de Guimarães da Universidade do Minho, já lá viviam, num edifício da Rua Dr. António Mota Prego, que conduz à Praça de Santiago. Em dezembro, foi a vez de Ana ali abrir a Mercearia Almofariz. Entre os produtos vendidos, escolhidos a dedo, estão queijos da Serra, alheiras de Macedo de Cavaleiros, vinhos do Douro ou biscoitos de Valongo, para levar ou degustar no local. Ana gaba a limpeza do casco histórico e repete a máxima ouvida na terra: “Guimarães é uma boa madrasta”. No caso do Solar do Arco, é de uma segunda vida que falamos. Quando o restaurante tradicional, com pergaminhos, fechou portas, os sócios Amadeu Lima, Vítor Ferreira e Paulo Sousa não quiseram perder a oportunidade de se fixarem na Rua de Santa Maria. Em Fafe, já tinham uma boa casa de gastronomia regional e a ideia foi voltarem a apostar no mesmo tipo de pratos (entre as especialidades, está a vitela assada no forno à moda de Fafe, os medalhões assados na brasa e o polvo à lagareiro). A inauguração foi há duas semanas, revelando um restaurante completamente renovado, de branco caiado. “A aceitação tem sido muito boa”, diz Amadeu.
Com um olho posto nos turistas e outro nos locais, está o Almanaque 23, aberto em fevereiro passado nas galerias do Toural, um centro comercial esquecido na estreita Rua da Arrochela. Cada um dos três sócios dá o melhor de si. O artista José Teibão desdobra-se na criação de quadros, chávenas, t-shirts e outros artigos de edição limitada, Ricardo Couto seleciona os vinis e a BD de autor e Francisco Pinto dos Santos trata dos outros livros, romances, ensaios e infantis, em segunda-mão. “Há sempre novidades, o ideal é as pessoas irem passando”, aconselha Ricardo. A música, essa, está sempre a tocar (na página do Facebook costumam pôr a playlist diária). Numa das paredes, lê-se: “Atenção, não nos responsabilizamos por overdoses culturais.” Lost in translation, os turistas espreitam, com curiosidade, pela janela.