Quando amamos alguém, o nosso coração palpita que nem uma batata frita e parece que temos borboletas no estômago. Nem sequer é preciso haver desejo para o sentimento se manifestar fisicamente.
Há cerca de um ano, um estudo da Universidade de Aalto, na Finlândia, concluiu que, enquanto alguns tipos de amor, como o romântico, eram fortemente sentidos em todo o corpo, outros, como o amor pela sabedoria, eram sentidos de forma menos intensa e sobretudo na cabeça.
Agora, o mesmo grupo de investigadores mapeou as áreas do cérebro que são ativadas por seis tipos de amor e chegou a conclusões surpreendentes, reveladas num estudo publicado na revista Cerebral Cortex.
Utilizando imagens de ressonância magnética funcional (fMRI), a equipa coordenada por Pärttyli Rinne, filósofo e investigador, analisou de que maneira o cérebro responde ao amor por parceiros românticos, filhos, amigos, desconhecidos, animais de estimação e pela Natureza.
Depois de ouvirem cada “história de amor”, os participantes imaginaram essa emoção durante dez segundos. Medindo a sua atividade cerebral enquanto pensavam em vários tipos de amor, os investigadores observaram, em tempo real, que o cérebro se iluminava em diferentes áreas.
“O padrão de ativação do amor é gerado em situações sociais nos gânglios basais, na linha média da testa, na precuneus [pré-cunha] e na junção temporoparietal nos lados da parte de trás da cabeça”, explicou Rinne, em comunicado. “No amor parental, houve uma ativação profunda no sistema de recompensa do cérebro da área do estriado enquanto se imaginava o amor, o que não se verificou em nenhum outro tipo de amor.”
A maior surpresa foi o facto de as áreas cerebrais ativadas pelo amor entre as pessoas serem muito semelhantes, só diferindo na intensidade da ativação. Todos os tipos de amor interpessoal ativaram áreas associadas à cognição social, ao contrário do que acontece no amor pela Natureza e no amor por animais de estimação – a não ser quando as pessoas tinham cães ou gatos.
As áreas cerebrais associadas à sociabilidade revelaram estatisticamente se as pessoas tinham ou não um animal de estimação, ao ouvirem cenários como este: “Está em casa a descansar no sofá e o seu gato aproxima-se de si. O gato enrosca-se ao seu lado e ronrona, sonolento. Amamos o nosso animal de estimação.” No caso dos tutores de cães ou de gatos, essas áreas cerebrais são mais ativadas – ou seja, o amor por eles é neuralmente mais semelhante ao amor interpessoal.
COMO É NEURALMENTE?
Pärttyli Rinne tem 45 anos, estuda o amor há 16 e apresenta-se como filósofo-investigador e argumentista-autor. O interesse pelo tema surgiu quando se apaixonou pela mulher, no final do primeiro mestrado, na Academia de Teatro.
“A experiência foi tão forte que senti que as coisas mais importantes da vida estão relacionadas com o amor, de uma forma ou de outra. Decidi concentrar-me na tentativa de compreender o fenómeno do amor e comecei a estudar Filosofia”, explica numa entrevista disponível no site da Universidade de Aalto.
Em comparação com os séculos anteriores, o estudo do amor estava em declínio no século XX. “As emoções eram consideradas superficiais e vagas, e o amor não era levado a sério”, recorda.
Na universidade chegaram a insinuar que a sua investigação era ridícula, mas Rinne fez ouvidos de mercador, avançou com um doutoramento sobre a conceção de amor de Immanuel Kant e nunca mais largou o tema, tanto na área da Filosofia como na de escrita de guiões. Talvez por isso, este estudo se leia com prazer.
Não é novidade que o amor leva à formação e à manutenção de laços entre pares e às ligações entre pais e filhos, influencia as relações com os outros e até com a Natureza. Mas, quando amamos, será neuralmente a mesma coisa amar, por exemplo, o nosso filho e amar uma bela paisagem?
Foi esse o ponto de partida para esta investigação, que recrutou 55 pessoas (29 mulheres e 26 homens), saudáveis, falantes nativas de finlandês, entre os 28 e os 53 anos (média de 40,3 anos), que declararam ter, pelo menos, um filho e estar numa “relação amorosa de casal” (duração média de 11,9 anos). Todas moravam na área metropolitana de Helsínquia e 27 delas tinham animais de estimação.
MERGULHAR NO CENÁRIO
Os tipos de amor foram induzidos por narrativas áudio gravadas (três frases, com a duração de cerca de 15 segundos no total). Cada narrativa descrevia um cenário com o parceiro romântico, o filho, o amigo, o animal de estimação (cão ou gato), um desconhecido ou a Natureza (bela) circundante. Existia também uma categoria neutra que podia descrever, por exemplo, uma viagem de autocarro sem interação social.
Na véspera dos exames, foi pedido aos participantes que reservassem cinco a dez minutos para pensar e refletir afetivamente sobre o que era o amor para eles, em relação aos seis tipos do estudo. Já no laboratório, receberam instruções para “mergulhar” – em finlandês, eläytyä – no cenário representado, da maneira mais vívida possível.
As narrativas terminavam sempre com a frase “Sente amor por [x] / Ama [x]”, por exemplo: “O seu filho corre alegremente para si num prado. Sorriem juntos e os raios de sol cintilam no seu rosto. Sente amor pelo seu filho.”
As histórias sobre o amor pelos amigos incluíam representações de altruísmo quotidiano recíproco e partilha de sentimentos. No caso do amor por desconhecidos, elas envolviam atos de benevolência retribuídos com uma expressão de gratidão. E as relativas ao amor pela Natureza retratavam ambientes naturais lindíssimos, nos quais a pessoa se encontrava imersa.
Os investigadores sugerem que a experiência do amor é moldada por fatores biológicos e culturais, com origem em mecanismos neurobiológicos fundamentais de ligação. “Mas é necessária mais investigação”, nota Pärttyli Rinne, “para uma melhor compreensão da forma como os fatores culturais e demográficos influenciam os vários sentimentos de amor e as suas correlações no cérebro humano”. 
A químicada paixão
O desejo deixa uma marca no cérebro relativa a um parceiro específico – mas que não é indelével
O que se passa no nosso cérebro para desejarmos estar mais com uma pessoa do que com outras? E como superamos o fim de uma relação, do ponto de vista neuroquímico? Foi para responder a estas questões que uma equipa liderada por Zoe Donaldson, especialista em Neurociência Comportamental na Universidade do Colorado em Boulder, nos EUA, pegou em arganazes-do-campo, conhecidos por serem monogâmicos, e recorreu a exames de neuroimagem para observar os seus cérebros.
Os investigadores viram, então, como a dopamina inundava o sistema de recompensa do cérebro dos pequenos roedores sempre que eles tentavam alcançar os parceiros. E verificaram que a enxurrada de dopamina continuava quando estavam juntos. “Descobrimos uma assinatura biológica do desejo”, explica-se no estudo, publicado na revista científica Current Biology, em janeiro deste ano.
Numa segunda fase, os casais estiveram separados durante quatro semanas, um tempo considerado longo na vida destes ratinhos. Quando se reencontraram, o aumento de dopamina já não aconteceu. “É uma espécie de reinicialização do cérebro”, comparou Donaldson, “que permite ao animal seguir em frente e potencialmente formar um novo vínculo”. O cérebro tem a capacidade de se proteger da abstinência daquela “onda” de dopamina, o que ajuda a superar o fim de uma relação.