Nas últimas horas surgiram vários vídeos em diferentes plataformas onde os utilizadores ditam a palavra “racist” (racista, em inglês) e o seu iPhone mostra, por breves momentos “Trump”. O nome do presidente surge apenas por alguns momentos, sendo depois substituído pelo termo correto.
A Apple justificou a falha dizendo que se tratava de um tema relacionado com a fonética, onde o sistema tinha dificuldade em lidar com palavras com a letra “R” e sonoridades semelhantes, prometendo ainda “uma correção ainda hoje [ontem]”.
Um especialista ouvido pela BBC afirma que a explicação da Apple “não é plausível”, enquanto um ex-funcionário da Apple ouvido pelo The New York Times e que trabalhou no desenvolvimento do Siri conta que parece tratar-se “de uma partida séria”.
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Recorde-se que esta não é a primeira vez que sistemas de Inteligência Artificial (da Apple e não só) geram resultados duvidosos. Neste momento, a ‘falha’ parece estar sanada.
Veja alguns vídeos publicados nas últimas horas com este bug.
Holy shit it’s real! Apple iPhones replace the word “racist” with “Trump” when using the dictation feature. Apple claims it’s working to fix this “bug.”???? pic.twitter.com/J60YUohhJM
Apple’s voice dictation sometimes flashes “Trump” when users say “racist.” Alex Jones claims it’s a conspiracy, but what it actually reveals is how many Americans think Trump is racist and use those words together. I'll explain:
Além de confirmar a morte de Gene Hackman e da sua mulher, Betsy Arakawa, o xerife do condado de Santa Fé, Adan Mendoza deu conta também da morte do cão do casal.
A causa dos óbitos não é conhecida ainda.”Está uma investigação em curso, no entanto, neste momento, não acreditamos que se trate de um crime”, disse o xerife.
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O ator, com uma carreira que se estendeu por mais de seis décadas, recebeu dois Oscars, dois Bafta, quatro Globos de Ouro e um Screen Actors Guild Award.
Galeto
No mais popular snack-bar da capital, que encerra apenas um dia por ano – não é nem no Natal nem no Ano Novo, mas sim no dia 1 de maio, Dia do Trabalhador –, a última entrada acontece às três da manhã, confirma-nos Francisco Oliveira, filho de um dos fundadores, António Oliveira, e atual proprietário do Galeto, aberto há 59 anos. Obra dos arquitetos Victor Palla e Bento d’Almeida, símbolo do que de mais moderno se fazia no País em meados dos anos 1960, ganhou o título de Loja com História em 2016.
No Galeto a última entrada acontece às três da manhã. Foto: José Carlos Carvalho
Desengane-se quem acha que poderá ser o único com apetite durante a madrugada. A recente fila de espera que se forma noite adentro para conseguir lugar naquele balcão de madeira envernizada comprova que o Galeto está (de novo) na moda. Ou talvez nunca tenha saído. Seja no fim de um concerto, no Campo Pequeno, por exemplo, depois de um jogo de futebol, ou de mais um turno no trabalho, sabe bem repor os níveis de bons sabores. Escolher o bife à Galeto (€18,80), servido no típico prato de alumínio com ovo estrelado, fatia de fiambre e pickles, mais a “meia meia” (€4,30), como lhe chamam os empregados, um prato com metade de batatas fritas e outra metade de esparregado, é seguramente um dos pedidos que mais trabalho dá à cozinha. Av. da República, 14 > T. 21 354 4444 > seg-dom 7h30-3h
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Evolution Lisboa
Este pode ser um dos segredos mais bem guardados da capital, mas que a partir desta nossa edição será revelado a todos os que noite dentro, em bons convívios, têm um “ratito” que não os larga enquanto não comem qualquer coisa. Se a maioria dos lisboetas natos conhece de cor os lugares a funcionar até de madrugada, talvez ainda não tenham descoberto o The Kitchen e o The Living Room, restaurante e bar abertos 24 horas no amplo e convidativo lobby do hotel Evolution Lisboa, graças à iluminação a atirar para o futurista.
Cozinha aberta 24 horas no hotel Evolution Lisboa, no Saldanha. Foto: José Carlos Carvalho
Neste quatro estrelas do grupo Sana, bem localizado na central Praça do Saldanha e bem visível graças à escultura de Gustavo Fernandes – uma mão esquerda com 8,5 metros de altura, que sustenta o hotel –, a cozinha não fecha e a qualquer hora se pode comer um entrecôte de novilho Black Angus (€28), um hambúrguer de picanha com queijo cheddar, alface, tomate, aioli de malagueta (€18) ou um pica-pau do lombo, com alho e pickles (€22, 150 gramas). A única restrição é servirem bebidas alcoólicas até às três da manhã, depois dessa hora venham as águas, os sumos e refrigerantes ou os mocktails. Tudo o que nos hidrate, pois a noite vai longa. Pç. Duque de Saldanha, 4 > T. 21 159 0200 > aberto 24h
Snob
Passou a abrir todos os dias, desde que reabriu em dezembro passado, depois de Miguel Garcia (sócio do Café de São Bento) ter comprado o Snob ao anterior proprietário, o senhor Albino Oliveira. Entrando, tudo é familiar neste bar que abriu em 1964, embora esteja visivelmente renovado. A madeira que cobre as paredes foi tratada, a alcatifa no chão é de um vermelho-vivo. Sobre as mesas já não há panos verdes de jogo, mas os candeeiros de latão são os mesmos, assim como os sofás, agora forrados de couro verde-garrafa.
O Snob está aberto todos os dias. Foto: Guilherme Ornelas
Da pequena cozinha envidraçada, instalada na segunda sala, sai o prato supremo da casa: o bife à Snob (lombo €20, vazia €17), 160 gramas de carne frita num molho de natas, com batatas fritas cortadas aos palitos grossos, seguindo a receita do senhor Albino. Os valentes dificilmente hão de resistir aos croquetes (€4,50/duas unidades) com mostarda Savora. Basta descer uns 30 metros da Rua de O Século, pelo passeio do lado esquerdo, e tocar à porta encimada por um toldo verde, como sempre se fez. R. de O Século, 178 > T. 92 645 9164 > seg-dom 19h-2h (cozinha fecha à 1h)
Café de São Bento
É preciso tocar à campainha – “Please ring the bell”, lê-se na tabuleta dourada –, e ali estamos a tocar. Um dos empregados, fardado com camisa branca, papillon e colete em padrão escocês, recebe-nos com simpatia e deixa-nos passar, desviando a pesada cortina. Situado a dois passos da Assembleia da República, o Café de São Bento ganhou fama como sendo o poiso habitual de muitos políticos, mas, se isso é verdade, entre a clientela é possível muitas vezes encontrar três gerações de uma família à mesa. A esmagadora maioria vem pelo bife, inspirado no antigo bife à Marrare, numa receita apurada ao longo dos anos, que é a imagem deste clássico lisboeta inaugurado em 1982 (faz no próximo mês de julho 43 anos).
O Café de São Bento irá comemorar 43 anos em julho. Foto: Afonso Moreira Pires
O bife à Café de São Bento (vazia €27/200 g, lombo €30/200 g, €35/250 g) chega mergulhado num molho saboroso, perfeito para molhar as batatas fritas aos palitos servidas numa taça à parte, e, para quem desejar, com ovo a cavalo (€2,50) ou esparregado de espinafres (€4,50). Há outras duas opções, o bife grelhado (com batatas fritas aos palitos ou às rodelas) e o “à portuguesa” (com alho, louro e presunto, acompanhado de batatas fritas às rodelas). Em 2022, o Café de São Bento teve umas obras de renovação, não para mudar alguma coisa, mas para substituir o que já estava marcado pelo tempo. A remodelação chegou ao primeiro andar do edifício, onde existe uma outra sala de refeição. R. de São Bento, 212 > T. 91 365 8343 > seg-sex 12h30-14h30, 19h-2h, sáb-dom 19h-2h (cozinha fecha à 1h)
Café do Paço
Entre a azáfama da campainha da porta a tocar, mais os telefonemas a tentar uma reserva tardia, os três empregados não têm mãos a medir. Às sete em ponto, abre-se uma das salas de refeições mais acolhedoras e cinematográficas da cidade, com os seus sofás altos de veludo carmim com capitoné, uma espécie de cabine com privacidade, para duas a quatro pessoas. Ao som de Frank Sinatra e Nat King Cole, os comensais vão chegando, desde pares de namorados jovens a estrangeiros que já falam português, habitués solitários, famílias com as três gerações, todos à procura do ambiente familiar e intimista, mas com alma transformada em burburinho.
Café do Paço, uma das salas de refeições mais cinematográficas de Lisboa. Foto: Luís Ferraz
O pedido faz-se sem hesitações: um croquete com mostarda (€1,90), quentinho acabado de fazer, e meio bife (€18,50, 120 g), a que chamam prego do lombo no prato, de uma carne muito tenra e saborosa, cujo molho à base de natas não se sobrepõe. As batatas fritas em palito e o esparregado de espinafres e nabiças são as guarnições certas (quem quiser, pode pedir ovo estrelado, €2). Os bifes do lombo (€25,50, 200 g) podem também ser fritos com alho ou com molho três pimentas. Guarde-se apetite para mais um clássico, o quente e frio da sobremesa (€5,50), guloso gelado de nata com chocolate quente derretido. Aberto há 16 anos, numa zona menos movimentada da cidade, perto do Campo dos Mártires da Pátria, o Café do Paço passou em 2024 a fazer parte do grupo Paradigma e, felizmente, a classe e a qualidade mantêm-se inalteradas. Paço da Rainha, 62 > T. 21 888 0185 > seg-sáb 19h-1h
OUTROS POISOS TARDIOS
Intenso
Boa carne e bom molho no Intenso. Foto: Carlos Vieira
Serve comida tradicional portuguesa, bem pensada e melhor confecionada pelo chefe Mateus Freire. O clássico bitoque do lombo (€19) vem com batata frita (duas frituras), ovo a cavalo e um molho guloso, apurado durante 62 horas e refrescado com vinho branco, onde se ensopa o pão de trigo, feito na fornada da tarde para o jantar. São 180 gramas de carne macia, para comer num ambiente descontraído. R. da Boavista, 69A > T. 93 838 1922 > seg-qui e dom 12h-24h, sex-sáb 12h-1h
Rocco – Gastrobar
Por ficar próximo de teatros (São Carlos, Trindade e São Luiz), nada como uma sessão cultural seguida de um belo repasto. Sente-se num dos balcões mais vistosos da cidade e mande vir um bife à casa, lombo de novilho, batata frita caseira e ovo estrelado (€32). The Ivens Hotel, R. Ivens, 14 > T. 21 054 3168 > seg-dom 10h30-1h
JNcQUOI Avenida – DeliBar
Na cozinha, estão os chefes António Bóia e Filipe Carvalho, quatro abençoadas mãos na preparação das comidas. Na barra, desenhada pelo catalão Lázaro Rosa-Violán, há 48 lugares à espera, num ambiente elegante, moderno e descontraído. Para fomes mais tardias, quem sabe depois de um espetáculo ou concerto no vizinho Tivoli, no Parque Mayer ou no Coliseu dos Recreios, uma das opções: bife pimentas (€36) ou bitoque com ovo a cavalo, foie gras e chips de batata (€37). Av. da Liberdade, 182-184 > T. 21 936 9900 > qui-sáb, véspera feriado 12h-2h, dom-qua 12h-24h
Cockpit
Pequenino como o cockpit de um avião, este clássico de Alvalade estende-se para uma esplanada aquecida e bastante concorrida por uma clientela heterogénea. Pedro Maurício, o proprietário, é um anfitrião exemplar. Sempre atento, cumprimenta os clientes e tira os pedidos, dando sugestões sem hesitar. Quando lhe perguntamos por um bife (“nem é o que sai mais na casa”), dá-nos quatro opões: recheado com queijo de Serpa (€15), com molho três queijos, com molho de natas (ambos €14), ou um naco de 200 gramas de carne fatiada. Todos levam ovo e acompanham com batata assada e salada. Av. Sacadura Cabral, 18C > T. 21 796 7856 > seg-sáb 18h-2h
Marisqueira O Palácio
Em Alcântara Terra, no “largo das cervejarias” (intersecção entre as ruas Prior do Crato, Vieira da Silva e Maria Pia), fica este templo de bem comer marisco, pratos de cozinha portuguesa e petiscos vários. Na lista, constam bifes e bitoques do lombo com “molho glutão” da casa, acompanhados por uma travessa de batatas fritas aos palitos e uma imperial bem geladinha. R. Prior do Crato, 142 > T. 21 396 1647 > seg-qua, sex-dom 12h-2h
Portugália
Na casa que assinala um século este ano, no dia 10 de junho, mantém-se a máxima com que abriu em 1925: “Uma cervejaria democrática.” Os bitoques no prato de barro podem ser servidos com molho à Portugália, ou grelhados com manteiga de ervas. Os cortes da carne de vaca variam entre vazia (€17,50), alcatra (€14) e lombo (€23,50). À meia-noite, temos de estar saciados e na rua. Av. Almirante Reis, 117 > T. 21 314 0002 > seg-dom 12h-24h
Brilhante
Carne do lombo e lavagante na Brilhante no Cais do Sodré. Foto: D.R.
É num ambiente de brasserie, com balcão em pedra com 26 lugares, que o chefe Luís Gaspar serve o bife à Brilhante, inspirado no clássico bife à Marrare, especialidade dos antigos cafés do século XIX, trazida para Lisboa por António Marrare, cozinheiro napolitano. A receita ganhou aqui nova identidade, sobretudo graças ao molho, depois é só escolher carne do lombo (€31) e os acompanhamentos: ovo estrelado (€2,50), escalope de foie gras e esparregado de espinafres com Parmigiano Reggiano (€12) ou lavagante (€25). R. da Moeda, 1 l > T. 21 054 7981 > seg-qui 12h-16h, 19h-24h, sex, véspera feriado 12h-16h, 19h-1h, sáb 12h-1h, dom, feriados 12h-24h
Sala de Corte
Há dez anos, que esta steakhouse especializada em carne maturada marca o ritmo dos restaurantes centrados na proteína bovina. São vários os cortes à escolha (vazia, picanha, entrecôte, lombo, chateaubriand, t-bone, chuletón), com gramagens diferentes e preço cobrado por quilo. Vai para a mesa numa tábua de madeira e um dos sete molhos disponíveis (chimichurri, maionese de trufa-preta, béarnaise, manteiga Café de Paris, pimentas, cogumelos, Stilton). Pç. D. Luís I, 7 > T. 21 346 0030 > seg-qui 12h-16h, 19h-24h, sex, véspera feriado 12h-16h, 19h-1h, sáb 12h-1h, dom, feriados 12h-24h
Mini Bar Avillez
Passando a agitação habitual do Bairro do Avillez, escondida naquela que parece uma estante, fica a porta que dá acesso ao Mini Bar. O bar gastronómico do chefe José Avillez, onde o ambiente é festivo (há música ao vivo e DJ set), serve um lombo maturado na brasa com mostarda trufada (€26,25). Os acompanhamentos são à parte: batatas fritas simples (€6,50) e com trufa e parmesão (€12). Bairro do Avillez > R. Nova da Trindade, 18 > T. 21 130 5393 > seg-qua e dom 19h-2h, qui-sáb 19h-3h
Cervejaria Trindade
Abriu em 1836 aquela que é considerada a cervejaria mais antiga do País. Em 2022, na última remodelação, reabriu com novidades pensadas pelo chefe Alexandre Silva. No entanto, os clássicos mantêm-se e entre eles lá está o bife à Trindade, da vazia (€17,90) ou do lombo (€25,40), servido com molho, batata frita (€3,20) e ovo estrelado (€1,30) na típica frigideira de cobre. O que interessa é ter lugar na Petiscaria, no balcão, no restaurante ou na esplanada, pois a cozinha trabalha em contínuo até ao fecho. R. Nova da Trindade, 20C > T. 21 342 3506 > seg-qui, dom 12h-24h, sex-sáb e véspera feriado 12h-1h
Atribui-se a Gouveia e Melo a seguinte frase: “Se eu algum dia for para a política, deem-me uma corda, para me enforcar!” Em 1976, o próprio general Eanes (de quem também não se conhecia um único pensamento político e não foi por isso que os principais partidos o não apoiaram convictamente…), pressionado a candidatar-se a Belém, dizia aos mais próximos: “Deviam ter pensado antes no [Vasco] Rocha Vieira [também militar, recentemente falecido], esse é que percebe de política!” E agora, eis o refluxo de uma época: foi você que pediu um Eanes de segunda geração? Pois aqui o tem.
Se o artigo de Henrique Gouveia e Melo, publicado no Expresso, é, genericamente, uma coleção entediante de lugares-comuns, ele tem o supremo mérito de esclarecer o País de que não estamos perante nenhum bicho-de-sete-cabeças armado em ditador para destruir a democracia. Na verdade, o la paliciano título que fez manchete no Expresso, “O Presidente não está ao serviço dos partidos”, ideia extraída do artigo, é já uma peça do combate político que aí vem: Gouveia e Melo diz uma evidência com a intenção de insinuar que os seus adversários, esses sim, são suspeitos de estar ao serviço dos partidos, uma tese mais desenvolvida, no texto, e que pretende servir de carapuça aos únicos candidatos anunciados, Marques Mendes e Mariana Leitão –, mas que terá alguma dificuldade em encaixar em António José Seguro, visto que este, tudo o indica, se se candidatar, será a contragosto do PS… Portanto, a principal conclusão deste artigo (em larga medida dececionante) é a de que Gouveia e Melo, tão cinzentão como os demais, inicia um combate político corriqueiro, com os argumentos habituais e de forma nenhuma assustadores. A principal desilusão é que também não inova.
Se fizermos, porém, uma análise mais fina à sua primeira grande mensagem, identificamos nela um potencial de conflito entre a Presidência e os partidos que recupera – linha a linha – os tempos áureos do Presidente Ramalho Eanes quando, a partir de Belém, conseguiu exasperar dois primeiros-ministros de dois partidos diferentes, Mário Soares, do PS, e Sá Carneiro, do PSD. É esse perfil demasiado parecido com o de Eanes que está a assustar, de novo, os partidos. E se a História se repete e Gouveia e Melo tiver um projeto bonapartista de formação de um grande movimento, a partir de Belém, como chegou a parecer o PRD de Ramalho Eanes? Embora os presidentes detenham, hoje, depois da revisão constitucional de 1982, menos poder do que no tempo de Eanes, a legitimidade de Gouveia e Melo pode ser ainda maior do que a do seu “modelo”. É que Eanes chegou a Belém com o apoio, precisamente, dos partidos do sistema, enquanto Gouveia e Melo aspira a lá chegar dispensando esse apoio. Se isso suceder, as duas legitimidades, a parlamentar e a presidencial, chocar-se-ão com muito mais estrondo, o que representa, por si só, um risco para a estabilidade. Mas é um risco que Eanes, perante governos minoritários do PS, primeiro, e maioritários da AD ou do bloco central, depois, também sempre representou, afinal.
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Um exemplo: ao sugerir que o incumprimento flagrante de promessas eleitorais possa ser motivo para a dissolução da Assembleia da República (embora nada, na Constituição, o autorize…), Gouveia e Melo invoca os mais duros discursos do Presidente Eanes. Antes de 1982, porém, o PR podia despedir um chefe do governo sem dissolver a AR, enquanto hoje, só interrompendo a legislatura, isso seja (praticamente) possível. Esta terá sido, talvez, a declaração mais inquietante do artigo, mas não deverá passar de uma bravata eleitoralista.
Depois de um ciclo de presidências “doces”, o eleitorado tende a mudar para ciclos de presidências austeras (e vice-versa): Cavaco depois de Sampaio, Marcelo depois de Cavaco. Essa “severidade” é uma aposta clara de Gouveia e Melo para seduzir eleitores fartos de selfies. O seu recado é correspondente: “O Chefe de Estado usa a palavra seguindo a regra da relevância, isenção, equilíbrio, contenção e gravitas.” Este bem podia ser, também, o retrato de Ramalho Eanes ou, pelo menos, o retrato com que os portugueses, retrospetivamente, ficaram dele… Ao assumir-se “entre o socialismo e a social-democracia”, procura seduzir o centrão entre o PS e o PSD, mas revela uma certa candura: sendo frentistas e abrangentes, ambos os principais partidos representam muito mais do que as suas denominações de origem – “socialista” ou “social-democrata” –, quando não se afastaram irremediavelmente delas. Entretanto, para o debate com André Ventura, é melhor que esteja preparado: tendo em conta a forma como privilegia o espetáculo e os gestos de efeito, o candidato do Chega vai, em pleno estúdio, oferecer-lhe uma corda. Vai uma aposta?…
Golpe de Vista
A ironia é um risco, mas lá vai…
Em 1975, em pleno gonçalvismo, com um primeiro-ministro protocomunista e suspeito de simpatias soviéticas, Portugal viu ser-lhe vedado o acesso a informação classificada da NATO. De que está à espera a Organização do Atlântico Norte para fazer o mesmo, agora, com os Estados Unidos da América?…
No mesmo mês em que celebramos os 80 anos da libertação de Auschwitz, um quinto dos eleitores alemães votou num partido neonazi. Esses alemães concentram-se sobretudo no que era a Alemanha de Leste, área que durante quase 50 anos foi uma espécie de protetorado soviético. Digamos que estes vários milhões de pessoas podem ser acusadas de muita coisa, mas não de falta de clareza: gostam de ditaduras e das mais ferozes e sanguinárias que a História regista.
Entretanto, nos Estados Unidos da América, a democracia liberal está em rápido colapso e da maneira que todos os regimes soçobram: quando as suas instituições são destruídas.
Não é em vão que Trump coloca à frente dos principais órgãos e agências governamentais gente que não percebe rigorosamente nada do assunto ou mal consegue soletrar o nome. A necessidade de obediência canina é critério básico e é por dentro que as instituições se destroem, nada como a completa incompetência e a cegueira ideológica para o fazer.
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Só a ingenuidade ou a inconsciência criminosa garantiam que a democracia estava sólida porque as instituições eram à prova de bala. Elas dependem do mais destrutivo dos seres: o Homem, ou seja, são a coisa mais vulnerável que há.
O desrespeito pela separação de poderes e pelos checks and balances também já está anunciado e até, em vários casos, concretizado. Aliás, as assinaturas do novo regime estão aí. Um dos ideólogos trumpistas, Jack Posobiec, disse que era impossível Trump violar a Constituição norte-americana porque ele era a sua encarnação. E o próprio Presidente dos Estados Unidos da América deixou tudo claro quando enunciou o novo mandamento: “Quem salva o país não viola qualquer lei.”
A infalibilidade do líder e a sua vontade de ser lei é o traço distintivo duma ditadura. Se a isto juntarmos a capacidade de tudo saber, de tudo controlar, que Elon Musk, Bezos, Zuckerberg e quejandos tentam assegurar, temos uma nova versão do totalitarismo. E desta vez com meios com que os antigos totalitaristas nem sonhavam.
Seja qual for o regime que está a ser instalado nos Estados Unidos da América, há um que de certeza absoluta não é: uma democracia liberal.
Não surpreende assim a nova postura dos Estados Unidos da América no mundo. Aliás, o discurso de JD Vance em Munique não passou de uma afirmação desses princípios.
Os Estados Unidos da América deixaram de ser aliados da União Europeia porque, pura e simplesmente, deixaram de acreditar e de lutar por uma ordem liberal e, sobretudo, repito, deixaram de ser uma democracia liberal.
São agora aliados de Putin, com quem partilham os “verdadeiros” valores cristãos, uma conceção muito própria da liberdade de expressão, o antiwokismo – leia-se desprezo pelas minorias, por direitos fundamentais e pela simples decência –, o combate à imigração e a promoção da extrema-direita.
Zelensky tem razão quando diz que o alvo de Putin é a Europa, essa parte do mundo em que, por enquanto, ainda vigoram os valores e os princípios democráticos e liberais. Neste momento, o maior apoio de Putin nesse objetivo é a América. É com essa nova América que quer dividir e partilhar a Europa. No fundo, a humilhação que os norte-americanos estão a impor aos ucranianos, as acusações de que foram eles a atacar a Rússia e a tentativa de extorsão são todas coerentes manifestações dessa recente aliança.
É preciso destruir a Europa, não só pelos despojos mas sobretudo pelos valores que ainda consegue promover.
Nesse plano estão os traidores que têm sido financiados e/ou promovidos por Putin e agora pelos seus amigos norte-americanos como JD Vance, Bannon e Musk — a AfD na Alemanha, o Reagrupamento Nacional na França, e o Chega, para dar apenas três exemplos, que ajudam a minar a democracia e que pretendem fazer da Europa um conjunto de colónias norte-americanas e russas. Por certo, algo de parecido com o que eram os países do Pacto de Varsóvia num lado e a parte ocidental no outro. A diferença é que desta vez os que eram apoiados pela América não teriam liberdade, nem democracia, nem independência estratégica. A Europa está sozinha e impotente e com os tais traidores. Tem ainda os valores, mas como diria Staline do Papa, isso não tem exércitos.
A amnésia e a perda da consciência pela condição humana fizeram-nos pensar que a bondade e aquilo que ajudamos a definir como direitos humanos e fundamentais eram um dado adquirido e que não haveria retorno possível. E, sim, desse lado estariam sempre os norte-americanos.
Esses estouvados, ingénuos e que se fartaram de promover ditaduras e outras infâmias parecidas, mas que, mesmo assim, eram os campeões de tudo o que de bom e decente tinha acontecido no último século: os direitos das mulheres, das minorias, dos que tinham sido humilhados ao longo dos séculos. Os que tanto fizeram pela cultura e pelo pensamento. Os que desenvolveram a tecnologia ao serviço de todos como nunca na História. Tantos defeitos, tanta desigualdade, tantos erros, mas as qualidades que têm e os valores que defendiam fizeram a diferença.
Os que ainda acreditam na democracia e na liberdade são poucos e estão desarmados. Basta pensar um bocadinho para se perceber que a democracia é um pequeníssimo detalhe na história das comunidades. Pelos vistos, ainda mais pequeno do que pensávamos.
O Presidente francês, Emmanuel Macron, encontrou-se esta semana com o Presidente dos Estados Unidos da América na Casa Branca. Ouviu o que todo o mundo ouviu de Donald Trump. Que a guerra na Ucrânia pode “terminar brevemente, dentro de semanas” e que está “muito próximo” um acordo entre Washington e Kiev para que os norte-americanos possam aceder a recursos minerais ucranianos, nomeadamente a terras raras, minerais essenciais na produção de vários produtos industriais.
A invasão da Rússia à Ucrânia, dando início à guerra, começou há três aos, completados a 24 de fevereiro. Nesta segunda-feira, 24, Vladimir Putin saía de uma reunião do gabinete russo sobre recursos naturais dizendo que está disposto a oferecer aos EUA acordos lucrativos para exploração de minerais, incluindo nos “novos territórios” anexados pela Rússia, ou seja, as regiões ucranianas de Donetsk, Luhansk, Kherson e Zaporijia. Além disso, falou também na exploração de alumínio na Sibéria, matéria-prima de que os EUA tanto necessitam.
Parece haver aqui dois tabuleiros em jogo – acordo EUA/Ucrânia e acordo EUA/Rússia –, mas se formos analisar bem, talvez seja sempre o mesmo jogo embaciado por manobras de diversão políticas. Num business as usual poderá encontrar-se uma tal de paz, mas vai custar à Ucrânia literalmente as suas entranhas: os seus recursos naturais, a capacidade de ser dona do seu destino, a sua independência. Anexada à Rússia ou à ganância dos Estados Unidos, tanto faz para os sonhos dos que lutaram e morreram contra a invasão.
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E, na verdade, que país é verdadeiramente independente e vive em plena liberdade? Só nas ilusões dos utopistas.
Ainda na semana passada, Donald Trump tinha chamado ao Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky “comediante modestamente bem-sucedido” e “ditador”. Que ele era dispensável na mesa das negociações da “paz”. “Ele está lá há três anos e faz com que seja muito difícil fechar acordos.” Aquele que o mundo viu emergir como um herói na sequência da invasão está, mais do que nunca, no fio da navalha. Tem aqui uma saída para o atoleiro da guerra, mas, como ele próprio disse, “não posso vender a Ucrânia”. Veremos se não venderá.
O acordo que os EUA lhe propõem implica, segundo Zelensky, dar aos norte-americanos 500 mil milhões de dólares em riqueza mineral em troca do apoio fornecido durante a guerra. Implica ainda que os EUA tenham uma participação financeira de 100% num “fundo de investimento para a reconstrução” da Ucrânia, que fará a gestão conjunta dos recursos do país – minerais, petrolíferos e de gás, infraestruturas e portos. Os tais 500 milhões de dólares serão a contribuição ucraniana para o fundo, 50% das receitas do mesmo. Mas nos territórios agora ocupados pela Rússia, e que eventualmente venham a ser desocupados, a contribuição ucraniana será de 66%.
O que acha Vladimir Putin disto? Segundo Donald Trump, o Presidente russo aceitará o envio de uma força europeia de manutenção de paz para o território ucraniano depois do cessar-fogo. Aliás, a Rússia votou a favor de uma resolução norte-americana para a paz na Ucrânia, apresentada no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Reino Unido e França abstiveram-se.
Será este então o papel da Europa – tema da visita de Macron à Casa Branca –, enviar soldados de paz para a Ucrânia. Para que os negócios decorram sem sobressaltos.
Mal se dá por ele, de tal maneira se encontra bem integrado na margem direita do rio, a poucos minutos de Peso da Régua. O Torel Quinta da Vacaria, numa das propriedades vinícolas mais antigas (1616) da região demarcada do Douro, é um exemplo de como um hotel de cinco estrelas pode dialogar com o seu passado histórico.
O projeto de arquitetura do gabinete de Luís Miguel Oliveira manteve a casa branca original à entrada – onde viveu a avó de Armanda Passos: “Do Douro aprendi, desde pequena, a olhar para dois sítios: para o rio e para o céu”, escreveu a artista plástica –, acrescentando-lhe um edifício semienterrado em tom bordeaux, onde se encontra o núcleo principal do hotel.
É neste edifício que ficam os 33 quartos e suítes (divididos pelas categorias Árvores e Frutos, Rio, Pássaros e Estados de Espírito), os dois restaurantes com a consultoria do chefe de cozinha Vítor Matos, o 16Legoas e o Schistó (ver caixa), o bar Barbus e o Calla Silent Wellness & Spa, que usa produtos biológicos da portuguesa Oliófora nos seus tratamentos e tem uma piscina interior com janela panorâmica sobre as vinhas e o rio.
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Fotos: Lucília Monteiro e Luís Ferraz
O Torel Quinta da Vacaria não é mais um hotel no Douro. Há um apelo ao silêncio e ao desligar do mundo exterior desde que se faz o check-in na belíssima sala com lareira, obras de arte da Galeria Filomena Soares e decoração irrepreensível de Joana Astolfi (trata-se do seu primeiro projeto no Douro). Para todos os espaços, dos quartos às áreas comuns, a arquiteta e designer escolheu mobiliário à base de madeira de carvalho ou nogueira e palhinha, mesclado com peças de origem portuguesa: cerâmica, cestaria e têxtil provenientes de lojas como Burel Factory, Depozito, Oficina Marques, Bordallo Pinheiro, A Vida Portuguesa ou Fabricaal.
Lá fora, além dos terraços e da piscina exterior para os dias quentes, passeia-se entre as vinhas e os jardins da autoria do paisagista João Bicho, num silêncio apenas interrompido pelo comboio que ainda atravessa a quinta, propriedade do grupo português Marec.
Torel Quinta da Vacaria > Vilarinho dos Freires, Peso da Régua > T. 254 240 242 > a partir €295
Comer e beber no hotel
16Legoas O restaurante mais tradicional do hotel (aberto a não hóspedes) a cargo do chefe Vítor Gomes e com consultoria de Vítor Matos, aposta nos produtos locais e na cozinha tradicional. Arroz de robalo de anzol, lúcio do rio Douro e pá de cordeiro de leite são algumas das sugestões servidas com azeite e vinhos da quinta.
Pá de cordeiro de leite. Foto: Lucília Monteiro
Schistó Abre em março este restaurante de fine dining do hotel, com assinatura do chefe de cozinha Vítor Matos (duas Estrelas Michelin no Antiqvvm, Porto, e uma Estrela no 2Monkeys, Lisboa). De terça a sábado ao jantar, terá um menu de dez momentos com produtos do Douro.
Adega Quinta da Vacaria 1616 Construída de raiz pelo arquiteto Luís Miguel Oliveira e revestida a xisto, está aberta a visitas e provas de vinhos do Porto e DOC Douro. T. 96 443 0091 > seg-dom 9h-18h > a partir €15
Depois de uma campanha eleitoral dominada pelos temas da crise económica e do crescimento da imigração, Friedrich Merz, que conduziu a União Democrata-Cristã (CDU) ao triunfo nas urnas, não perdeu tempo a mudar o foco do seu discurso. Na proclamação de vitória, no domingo, 23, logo que foram conhecidos os resultados que lhe entregam a cadeira de chanceler, ele anunciou que, sob o comando do governo que pretende formar, “a prioridade absoluta” da Alemanha passa por um objetivo central: “Fortalecer a Europa o mais depressa possível para que, passo a passo, possamos realmente alcançar a independência em relação aos Estados Unidos da América.”
Essa declaração foi lida, de imediato, como uma mudança de paradigma na política alemã, que representa a maior alteração estratégica de Berlim desde a reunificação do país. E ganha ainda maior significado por ter sido proferida por um político que sempre se declarou um “atlantista” convicto e que na sua vida profissional, como advogado, trabalhou com e em grandes empresas norte-americanas. A diferença é que, entretanto, o poder também mudou em Washington e Merz sabe que a Alemanha tem uma responsabilidade acrescida como terceira maior economia mundial e como “motor” da União Europeia.
“Nunca pensei que teria de dizer algo assim na televisão, mas não me restava outra hipótese depois das declarações de Donald Trump na semana passada, em que se tornou evidente que o seu governo não se preocupa muito com o destino da Europa”, justificou o novo chanceler alemão, que promete acelerar as negociações com os sociais-democratas, de forma a conseguir formar uma coligação governamental num prazo mais rápido do que é habitual na política germânica, em que estes processos costumam prolongar-se por vários meses.
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Sem tempo a perder
O sentimento de urgência enunciado por Merz foi rapidamente assimilado pelos restantes dirigentes do partido, após umas eleições em que a extrema-direita da AfD subiu ao segundo lugar, os sociais-democratas sofreram um revés histórico, os liberais desapareceram do Parlamento e a Esquerda, apesar de uma cisão, subiu alguns lugares. Os resultados indicaram que os eleitores jovens foram os responsáveis pelas subidas dos partidos dos extremos. E, em mais uma eleição, verificou-se um outro fenómeno cada vez mais corrente: as mulheres jovens votam mais à esquerda e os homens à direita.
Estes resultados, num contexto geopolítico absolutamente novo, fazem aumentar a responsabilidade sobre o novo governo, formado entre os dois partidos do centro, num país em que um terço dos eleitores depositou o seu voto nas organizações extremistas.
A tarefa de Friedrich Merz, numa Alemanha a caminho do seu terceiro ano consecutivo de recessão económica, é difícil e quase existencial para o futuro do sistema político. Ele precisa de restaurar a confiança na democracia liberal, numa época em que as autocracias começam a dominar o discurso político. E, como líder da maior economia do continente, tem de assumir o papel de maquinista da principal locomotiva europeia, a nível económico, militar e especialmente, também, no campo político. “Desde a reunificação da Alemanha, nenhum chanceler foi confrontado com uma tarefa tão monumental”, sintetizou, a propósito, em editorial, a revista Der Spiegel.
Grandes desafios
São muitos os desafios à espera de Friedrich Merz e da sua capacidade de conseguir formar uma aliança com os sociais-democratas que, de uma vez, termine com a imagem de indecisão e paralisia que marcou a era do seu antecessor, Olaf Scholz ‒ a qual ditou a sua queda.
Embora pareça existir união entre os dois principais partidos do centro para acelerar as reformas necessárias na economia alemã – cuja poderosa indústria está obrigada a transformar-se para não morrer ‒, a verdade é que, nas questões mais vitais e urgentes, vai ser preciso procurar entendimentos com outros partidos. Uma delas é a reforma do “travão da dívida”, uma regra orçamental que, na opinião de conservadores e socialistas, tem contribuído para a estagnação da economia alemã, por impedir maior investimento público. No entanto, isso exige uma revisão da Constituição, que só será possível com uma maioria de dois terços no Parlamento.
A verdade é que esta coligação surge como desejada pelos dois partidos, que, alternadamente, ao longo de décadas, têm exercido o poder. E a maioria dos vizinhos europeus espera que ela resulte, de forma a que a Alemanha assuma o protagonismo que lhe pertence, como país mais poderoso da União Europeia. “Estamos no início das negociações de coligação, com os sociais-democratas. E o que precisamos de fazer, como novo governo, é restaurar a confiança na Alemanha e também restaurar a confiança na nossa democracia”, afirmou David McAllister, dirigente democrata-cristão e presidente da Comissão de Negócios Estrangeiros do Parlamento Europeu. “A Alemanha é o maior país da União Europeia, a economia mais forte e, juntamente com a França e a Polónia, desempenha um papel crucial na Europa. E o que precisamos é de um governo alemão que seja capaz de tomar decisões, seja capaz de agir a nível nacional, europeu e internacional”, sublinhou. É esse o grande desafio de Friedrich Merz: modernizar a Alemanha e afirmar a voz da Europa, num mundo em rápida convulsão. Estará à altura?
Um país, dois dilemas
Após mais de três décadas de reunificação, a Alemanha ainda não conseguiu eliminar velhas divisões. E é no antigo leste comunista que agora cresce mais a extrema-direita
Maioria suficiente? Os conservadores da CDU e os sociais-democratas do SPD conseguiram alcançar a maioria dos assentos no novo Parlamento alemão. No entanto, para decisões importantes, nomeadamente a mudança da Constituição, vão precisar de formar alianças, de modo a garantirem dois terços dos votos.
Zelensky vai a Washington meter-se na boca do lobo. Literalmente. Pensa que vai para uma coisa, mas sairá de lá com outra bem diferente. A ingenuidade não é do presidente ucraniano, mas de qualquer chefe de Estado ou de Governo que tenha de lidar com Trump. Especialmente com este Trump, ainda mais alucinado.
Zelensky acredita que obterá garantias de segurança em troca de minerais estratégicos e terras raras, mas isso não passa pela cabeça de Trump, que já garantiu não estar disposto a prestar esse apoio. Para ele, a Europa que se ponha a caminho.
Kiev também está convencida de que os EUA continuarão a fornecer ajuda militar sob a forma de doação. Mas essa hipótese nem passa pela cabeça do presidente americano que continua a distorcer os números da assistência já prestada à Ucrânia desde o início da guerra: “Foram 500 biliões de dólares e isso tem de ser pago”. Na verdade, foram apenas 124 biliões nos últimos três anos, um valor muito inferior ao que a Europa, tanto coletivamente como de forma unilateral, já entregou. Macron fez questão de o corrigir na Sala Oval.
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Ou Zelensky tem algum compromisso secreto com Trump, garantindo que este não negociará um cessar-fogo e a paz numa posição de total fraqueza, ou arrisca-se a ser humilhado pelo presidente americano, que tem da Ucrânia e da guerra uma visão pouco abonatória e até desprestigiante. O grande Trump (em físico) não quer saber do pequeno Zelensky. E isso diz tudo.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.