Em Janas, chamam “cantina” a este lugar que serve comida simples, saudável, generosa e de conforto, a preço económico. A Aldea Coop – que junta, na mesma casa, restaurante e cafetaria, mercearia de produtos biológicos e drogaria – foi o caminho natural depois da Eco Aldeia de Janas ter começado a vender os primeiros cabazes de frutas e hortícolas biológicos em 2018.

É preciso recuar a 2010, quando Afonso David e outros engenheiros do ambiente criaram a Associação Dólmen para dar formação na área da sustentabilidade e ecologia e fazer uma ecoaldeia perto de Lisboa. “Janas tinha todo o potencial por manter preservada a estrutura de uma aldeia. Não está descaracterizada e tem comércio local com três padarias, três mercearias, uma churrasqueira famosa, uma loja de animais, escritórios de arquitetura e de engenharia abertos ao público, o showroom das Velharias de Janas. É uma comunidade completa”, descreve Afonso.
Na verdade, são os atuais mil associados, na sua maioria estrangeiros radicados na região, que “gerem” a Aldea Coop. São eles também os principais clientes dos produtos de agricultura biológica provenientes de três quintas, uma com alojamento local (com capacidade para 20 hóspedes), uma com vinha e outra com horta. A este tudo-em-um foi recentemente acrescentado, a pedido dos sócios, a loja de artesanato com mobiliário e objetos de decoração, desde as cadeiras de tesoura de Monchique a artigos feitos por uma fiadeira local. Segue-se uma plataforma de serviços variados, feita de associados e para associados.
Pão com manteiga de regalar
Em frente à Aldea Coop, a tal “cantina”, numa garagem aberta à beira da estrada, há mais de 40 anos que ali funciona a Padaria da Carlota, com o pão saloio em formato grande, médio, pequeno e bolinha. Simples, feito de água, farinha e sal, num dos dois fornos a lenha onde Carlota Vicente, hoje com 87 anos, chegou a fazer 22 fornadas por dia.

“Até regala comer uma fatia de pão com manteiga”, diz Carlota enquanto nos mostra o forno de pedra. Nascida e criada em Janas, começou por fazer bolos quando trabalhou numa padaria, antes de emigrar para Inglaterra e deixar um forno montado na garagem em frente à casa onde continua a morar. Hoje, é o filho de 53 anos a levar o negócio para a frente. Fica mesmo ao lado da famosa Churrasqueira de Janas, de Pedro e Lúcia, onde tudo o que sai das brasas é bom, do frango ao coelho, das “gaitadas” (pianinho) às espetadas.
Ao comércio tradicional têm-se juntado vizinhos recentes, como a Hula Concept Store, em frente à loja de animais e junto ao talho, com originais coleções de roupa, bijuteria e acessórios, mais estúdio para workshops e aulas de pilates e ioga.
Cabrito assado, do melhor
De Janas até Nafarros é um pulinho, em registo de passeio por uma estrada de terra batida, um atalho florido e repleto de canas altas e esguias. Num instante, estacionamos à porta da Adega do Saraiva, um clássico com mais de 60 anos de história. Quem aqui vem divide-se entre escolher o cabrito assado, cozido à portuguesa, bacalhau assado na brasa ou algum dos substanciais pratos do dia: cabidela e polvo à lagareiro (terça), cozido (quarta, sábado e domingo), pataniscas de polvo, mãozinha de vitela com grão (quinta), caldeirada de peixe, favas com entrecosto ou dobrada com feijão branco (sexta).

É num ambiente rústico e sempre recebidos com muita amabilidade que Maria João, 68 anos, e o marido, João Pedro, filha e genro do fundador, dão continuidade à tradição. É impressionante perceber como uma pequena adega, que começou por servir sandes e copos de vinho, cresceu para três salas e 140 lugares tão disputados. A culpa foi do senhor António Saraiva e da dona Emília, que só há alguns anos passou o segredo do tempero do cabrito à filha. Ficamos a saber que não tem grande marinada e mais não nos contam.
Trabalhos manuais
Com o sol à espreita, é sempre de aproveitar para fazer um passeio. Próxima paragem: Almoçageme, na freguesia de Colares. A praça central, Largo Comendador Gomes da Silva, com coreto e fontanário, é também morada da igreja do século XVIII, consagrada a Nossa Senhora da Graça, há mais de 250 anos, com uma celebração em sua honra sempre no mês de outubro. No fim da época balnear, agradecem-se as colheitas da época e pede-se abundância para o ano agrícola seguinte.
Caminhando pelas ruas, descobre-se o Mãe-Terra, bistrô ovolactovegetariano e vegano com brunch, num cenário minimalista e contemporâneo. O mesmo género da Auake (lê-se “awake”, significa despertar em inglês), loja e estúdio de cerâmica onde Soraia Serrano, 38 anos, dá aulas e asas à sua criatividade.

Depois de vários anos como assistente de bordo na aviação privada, chegando a voar com a família real saudita no Qatar e também em África, a ceramista abriu, há um ano, o seu ateliê, pronta para passar conhecimento, lado a lado com o seu par, Clément Rue, 32 anos, parisiense responsável pela imagem do estúdio.
Ainda com poucos clientes portugueses, são os estrangeiros que vieram para aqui morar (ingleses, alemães e ucranianos) que frequentam os workshops e o curso intensivo. “Quando dou uma aula, deixo a pessoa fluir na sua criatividade”, explica. Soraia Serrano tanto faz objetos utilitários (colheres, taças…) como peças decorativas (as jarras são as suas preferidas).
Trabalhar com a cor é uma novidade no seu percurso. Prefere a simplicidade do branco, daí só usar barro cinzento, que lhe transmite a sensação de serenidade, em contraponto com a anterior vida muito agitada. Em 2026, Soraia prevê ter uma roda de oleiro e começar a ensinar outra técnica, será “como aprender uma língua nova”.
À porta da Auake, Soraia e Clément contam como Almoçageme, tal como acontece em Janas, funciona como um microcosmo em que vários grupos no WhatsApp ajudam a colmatar algumas necessidades. Por exemplo: Soraia encomenda pão ao inglês Charles (C’Alma) e vai depois buscar a sua casa; quando quer comida indiana caseira, tem o contacto de um rapaz que a confeciona e leva-lhe à porta.
Seguindo em direção à praia da Adraga, mais abaixo do Auake, fica o Adraga Atelier, também dedicado à cerâmica, e, acima, a Dolomite, geladaria artesanal que começou no Areeiro, em Lisboa, e passou pela Praia das Maçãs, antes de se instalar em Almoçageme.
Vinho de chão de areia
Esta é a mesma aldeia da Adega Viúva Gomes, a mais antiga da região, armazém de vinhos com mais de dois séculos, num edifício com pináculo de 1808 em frente à igreja. Está há mais de 30 anos na família de José e Diogo Baeta, pai e filho, focados “em valorizar os pequenos terroirs dentro da Região de Colares”. As uvas para o DOC (Denominação de Origem Controlada) Colares crescem em solos arenosos, de vinhas plantadas em pé-franco, maioritariamente com as castas autóctones Ramisco, nos tintos, e Malvasia-de-Colares, nos brancos, as únicas que graças às raízes fundas resistiram, em 1865, à praga da filoxera. Uma paisagem imperdível nas dunas entre as Azenhas do Mar e Fontanelas, terra de maçã reineta, que vale a pena visitar, como aconselha Afonso David da Aldea Coop. Perto, está Gouveia, apelidada de “aldeia em verso”, onde as placas toponímicas expõe as rimas de José Valentim Lourenço (1941-2002), poeta popular e fundador do Grupo de Teatro de Fontanelas e Gouveia.

Por enquanto, os vinhos da Quinta de San Michel, em Janas, ainda não são DOC, mas para lá caminham. Há dois anos, junto à praia da Aguda, próximo de Fontanelas, plantaram vinha em chão de areia.
“Estamos num planalto, a meia cota da serra de Sintra, a um quilómetro em linha reta do mar, expostos à frescura dos ventos atlânticos e à salinidade do mar, com solos argilo-calcários que lhes confere mineralidade”, descreve Carlos Mendes, responsável pelo enoturismo. O produtor Joaquim Camillo e o enólogo Alexandre Guedes, sogro e genro, são os promotores desta quinta de pequena dimensão, com vinha em cerca de quatro hectares, desde 2013.
Produzem quatro vinhos que estão nos antípodas uns dos outros: enquanto a Malvasia-de-Colares dá vinhos com “mais fruta, mais floral e tropical”, o Arinto é um “bicho selvagem, cítrico e mineral”. “Temos um blend único no País de Malvasia e Arinto, o Malvarinto de Janas, mesmo longe da areia, mas ainda assim fresco”, resume Carlos.
Esta pequena produção de brancos, incluindo um vinho de curtimenta feito com contacto pelicular, encontra-se em restaurantes com Estrela Michelin como Belcanto, Alma, Feitoria e 50 Seconds, todos em Lisboa, e restaurantes locais como o Adraga e o Nortada. “Já somos um pouco outsiders, mas queremos estar na aldeia”, afirma.
O espumante feito através do método clássico tem por agora a terceira edição esgotada. “Quem tem Arinto em casa e faz espumante com Malvasia-de-Colares é porque gosta de arriscar”, brinca.
A garrafeira Terroir Wines de Emília Pinto, na Terrugem, faz questão de ter referências locais e os vinhos da Quinta de San Michel não faltam. Aberta no final de 2021, com vinhos de vários produtores do País, a garrafeira prima pela regionalidade com mel do Magoito e mel Abmel, o gin Cacimba, de Gonçalo Fonseca Xavier e José Ribeiro Corrêa, feito com botânicos da serra, desde a típica maçã reineta de Fontanelas, eucalipto, louro e pêssego rosa. Às terças e sábados (7h-17h), quem for à Terroir tem oportunidade de abastecer-se no mercado de frutas e legumes ao ar livre.

Um jardim só para nós
Nascido e criado no Magoito, o cervejeiro Sérgio Pardal continua a ser um dos empreendedores da região. Pela sua mão, em 2019, o edifício da antiga estação do elétrico em Colares reabriu para albergar um bar e fábrica de cerveja artesanal. Vale a pena descer naquela paragem e fazer um brinde no HopSin Brew Pub.
Cinco torneiras são fixas, as outras cinco mudam consoante as suas criações, tendo ganho em 2022 o selo “Made in Sintra”.

Agora, os 120 lugares no terraço com esplanada ganharam uma nova parceria. As pizzas de fermentação lenta da Souldough, que se cortam à tesoura e comem-se sem talheres, são feitas à boa maneira de Nápoles: massa fina no meio e rebordo (o chamado cornicione) alto e fofo, e com poucos ingredientes. Depois da estreia em 2018 na Aldeia da Praia, a caminho da Praia das Maçãs, a Souldough abriu uma segunda morada em Cascais, e agora, há cerca de três semanas, tomou conta desta esplanada.
Daqui seguimos para um jardim improvável, longe de atrações turísticas como a Volta do Duche ou o Parque de Monserrate. No jardim de buxo, o aroma a rosas é inebriante. As aves, a falarem de uma árvore para a outra, interrompem o correr do rio de Colares, e nós caminhamos de devagarinho, aproveitando a Natureza.
Na estrada para a Várzea e o Lourel, a Quinta da Ribafria (século XVI) está aberta ao público há uma década, gerida pela Fundação Cultursintra, a mesma da Quinta da Regaleira. São 13 hectares de jardins e bosques, com um solar de estilo renascentista (1541), com um torreão de inspiração medieval e o escudo dos Ribafria, os antigos alcaides-mores de Sintra.
Nuno e Luísa Morgado sempre andaram por estas bandas. Entre 2013 e 2016, mantiveram a Casa Madalena no Carrascal, quando petiscar era uma modernice. Há nove anos, mudaram-se para a Várzea e as receitas tradicionais portuguesas com toques de Moçambique, Angola e Índia (as origens de Luísa) foram evoluindo para pratos requintados, cheios de aroma e sabor, como o cabrito com canela e cravinho, rissóis de berbigão em massa de tinta de choco, açorda de tomate com gambas, caril de gambas, bochecha de porco preto, arroz de polvo, sarapatel (petisco goês feito com miudezas, de origem alentejana), mousse de requeijão com doce de abóbora caseiro.

As mesas nos nichos são as mais requisitadas e a sala ao fundo, com seis grandes mesas redondas, ideal para convívios. No teto e paredes há panelas a fazer de candeeiros, tachos e tachinhos, cadeiras de pernas para o ar, balança, púcaros e termos, tudo de outro tempo. Nenhum objeto que decora a Casa foi comprado, veio da casa de familiares, amigos e também clientes, que arriscam levar exemplares únicos de pratos e orgulham-se de os ver expostos na parede. “Metade do sucesso de um restaurante é a comida, os outros 50% é o serviço”, resume Nuno. Conferimos e aprovámos.
FAZER
Quinta de San Michel Estr. de Janas > T. 91 399 2167 > Provas, às 11h e às 15h, com marcação prévia: visita guiada com prova de 2 vinhos + 1 espumante €32, com prova de 3 vinhos brancos €28
Adega Viúva Gomes Lg. Comendador José Gomes da Silva, 2-3, Almoçageme > T 96 724 8345 > Provas às quartas 11h30 e 14h30, primeiro sábado de cada mês 16h, com marcação prévia, prova aberta com 4 vinhos €35
VER
Quinta da Ribafria Estr. da Várzea > T. 21 910 6650 > abr-set seg-dom 10h-19h, jan-mar, out-dez 10h-18h
COMPRAR
Terroir Wines R. da Aviação Portuguesa, 125, Loja A > T. 21 936 3740 > ter-sáb 10h-13h, 15h-19h > mercado de frutas e legumes à terça e sábado 7h-17h
Padaria da Carlota R. da Ponte, 4, Janas > T. 21 928 2590 >ter-dom 7h-13h
Churrasqueira de Janas R. da Ponte, 2, Janas > T. 21 929 0064 > ter-sex 17h-21h, sáb 9h30-14h, 17h-21h, dom 9h30-14h, 17h-20h
Hula Concept Store R. do Marco, 3, Janas > seg-sáb 9h30-13h, 14h30-19h
Auake R. da Praia da Adraga, 26, Almoçageme > T. 21 929 2487, 91 696 3383 > ter-dom 11h-19h30 > workshops sábados e domingos, 11h-13h ou 15h-17h, €45
Aldea Coop Lg. Visconde da Asseca, 6A, Janas > T. 21 135 2699, 93 461 4319 > seg-dom 9h-20h
COMER
Adega do Saraiva Lg. do Paquete, 3, Nafarros > T. 21 929 0106, 93 448 0110 > 12h30-15h30, 19h30-22h (exceto domingo jantar e segunda)
HopSin Brew Pub e Souldough Pizza Av. do Atlântico, 1, Colares > T. 21 928 3512 > seg, qua-dom 15h30-23h, novo horário a partir de maio seg, qua-dom 12h30-23h; Terraço pizzas sex 18h30-22h, sáb-dom 12h30-15h30, 18h30- 22h
Petiscaria Casa R. Dom António Correia de Sá, 2, Várzea > T. 21 924 3104, 96 399 2994 > seg, qua-sáb 12h-15h, 19h-22h30, dom 12h-15h

