“Atenta a relevância criminal das referidas condutas, agravada pelo facto de a CNPD (Comissão Nacional de Proteção de Dados) ter remetido as participações recebidas sobre este assunto à Procuradoria-Geral da República (PGR), estas condutas não podem, por força do princípio da separação de poderes, ser alvo de inquérito por parte da Comissão de Transparência e Estatuto dos Deputados”, concluiu-se no parecer da deputada social-democrata Andreia Neto, cuja fundamentação se baseia no respeito pelo princípio da separação de poderes.

O parecer teve os votos a favor do PSD, as abstenções do Chega, PS e Iniciativa Liberal, e o voto contra do Livre – o partido que apresentou a queixa na Comissão Parlamentar de Transparência.

Defende-se, em suma, que cabe “ao Ministério Público, e não à Assembleia da República, investigá-las, com todas as garantias inerentes ao processo penal”.

Em agosto, o Ministério Público abriu um inquérito ao presidente do Chega, André Ventura e à sua deputada Rita Matias sobre a divulgação de nomes de crianças imigrantes matriculadas numa escola de Lisboa.


André Ventura mencionou a lista de nomes na Assembleia da República, durante o debate parlamentar às alterações da lei da nacionalidade, no início de julho, e Rita Matias divulgou os nomes completos das crianças num vídeo partilhado nas redes sociais.

Na queixa apresentada na Comissão Parlamentar de Transparência, o Livre considera que a leitura dos nomes por André Ventura e Rita Matias “foi feita com um propósito claramente discriminatório, com o objetivo de demonstrar que algumas pessoas, por conta do nome que ostentam, não pertencem ao país nem merecem nele estar”.

O objetivo, de acordo com o Livre, era mostrar que “é legítimo apontá-las, excluí-las, estigmatizá-las”. Para o Livre, “a utilização dos nomes destas crianças para estes efeitos – destacando-as, individualizando-as e nomeando-as, num dos casos utilizando os seus apelidos – permite a sua identificação, tanto por colegas como por outros adultos, e é suscetível, inclusive, de fazer perigar a sua segurança”.


Segundo o Gabinete de Crise Instituto de Vulcanologia da Universidade dos Açores, a atividade sísmica na ilha Terceira, “embora de baixa magnitude, encontra-se francamente acima dos níveis de referência, em particular no Vulcão de Santa Bárbara e no Sistema Vulcânico Fissural Oeste da Terceira”.

Em comunicado, o organismo adianta que há uma “tendência crescente relativamente ao observado nos primeiros meses deste ano”.

Este aumento levou à elevação do nível de alerta do vulcão de Santa Bárbara para V3 (sistema vulcânico em fase de reativação). No caso do Sistema Vulcânico Fissural Oeste da Terceira, o nível de alerta mantém-se V2.


A atividade sísmica no vulcão de Santa Bárbara está acima dos valores normais de referência desde 24 de junho de 2022, tendo o evento mais energético ocorrido em 14 de janeiro de 2024, com magnitude de 4,5 na escala de Richter.

Em junho de 2024, o nível de alerta subiu para V3, mas voltou a baixar para V2 (sistema vulcânico em fase de instabilidade), em dezembro desse ano, tendo em conta a redução da atividade sísmica e da deformação crustal.

Numa reunião para avaliar a atividade sismovulcânica, em outubro, o Gabinete de Crise do IVAR decidiu voltar a elevar o nível de alerta vulcânico no Vulcão de Santa Bárbara. O evento mais forte registado no mês passado atingiu uma magnitude de 3,0 na escala de Richter e foi sentido no setor oeste da ilha com intensidade máxima de IV na Escala de Mercalli Modificada. Segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, a vibração neste caso é semelhante à provocada pela passagem de veículos pesados ou à sensação de pancada duma bola pesada nas paredes. Os objetos suspensos baloiçam, os carros estacionados balançam, as janelas, portas e loiças tremem e os vidros e loiças chocam ou tilintam. Na parte superior deste grau as paredes e as estruturas de madeira rangem.


A escala de alertas vulcânicos utilizada pelo IVAR tem oito níveis, em que V0 significa sistema vulcânico em fase de repouso e V7 erupção magmática ou hidromagmática em curso, com explosividade colossal a mega-colossal.

Os cartazes de péssimo gosto do partido Chega referentes ao Bangladesh sugerem que a população daquele país asiático está a “invadir” Portugal.  Ora, isso não só não acontece, como o que se passou há algumas centenas de anos foi exatamente o contrário: os portugueses de Quinhentos invadiram (agora sem aspas) o Bangladesh – nome que, em bengali, quer dizer simplesmente Estado de Bengala – e cometeram ali façanhas arrepiantes.

As aventuras dos portugueses naquelas paragens do delta onde confluem as águas do Ganges e do Bramaputra (e no Oriente em geral) são, aliás, múltiplas e dariam para preencher páginas e páginas de uma escrita cerrada em letra miudinha. Com efeito, as movimentações daqueles nossos remotos avós são tão frenéticas que até nos chega a dar a impressão de que não tinham um momento de descanso, sempre de espada numa mão e de mecha para inflamar a pólvora do arcabuz na outra, com os olhos exorbitados de ambição de glória e cupidez de enriquecer rapidamente, nem que fosse a troco de façanhas pouco ortodoxas… A leitura dos nossos cronistas de Quinhentos tem, assim, muito de empolgante, por um lado, e de repousante, por outro, visto que conjuga o tom de frenesim com a sonolenta monotonia de sucessivos feitos de armas levados a cabo numa ritmada cadência de balada.

No que diz respeito concretamente ao reino de Bengala, aproximadamente coincidente, do ponto de vista geográfico, com o Bangladesh atual, podemos recuperar, a título ilustrativo, um episódio extraído da “História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses”, de Fernão Lopes de Castanheda, onde o mais fiável dos narradores coevos daquelas aventuras (os outros são, nomeadamente, João de Barros, Diogo do Couto e Gaspar Correia) narra o que se passou em torno da construção de uma fortaleza e de outros edifícios em Chittagong – ou Chitagão, como os nossos diziam.

A capital do então Sultanato de Bengala (do Bangladesh, se quisermos) era então a cidade de Gour, onde, à roda de 1537-1538, se encontravam prisioneiros alguns portugueses, entre os quais um tal Martim Afonso de Melo Jusarte, que se distinguira já em diversos combates e protagonizara múltiplas andanças naquelas paragens evocativas dos romances de Emilio Salgari. Apesar da sua condição de detidos, estes nossos velhos compatriotas voluntariaram-se para ajudar o rei bengali na sua luta contra inimigos figadais – os patanas e os mogores –, conseguindo assim obter a liberdade.

Entra aqui em cena um rico comerciante muçulmano chamado Coja Xabadim, que propôs ao governador português da Índia, Nuno da Cunha (o mesmo que obtivera pouco antes, do sultão de Cambaia, a posse da ilha de Diu), a permissão para construir um forte em Chittagong a troco do transporte da sua pessoa e de bens desde ali até Ormuz. Para compreender este pedido, convém ter presente que os portugueses dominavam então as águas do Índico. Cunha aceitou, pois os nossos não rejeitavam qualquer perspetiva de recompensa fácil e rápida. Aproveitando a monção favorável, o governador enviou logo Vasco Pires de Sampaio e Martim Afonso, à frente de 200 homens repartidos por cinco navios, para transportar o dito Coja Xabadim e, no caminho, levar um presente ao rei de Bengala. Só que este último não só se recusou a receber a prenda como decidiu dar voz de prisão aos portugueses. As relações, naquele tempo e naquele espaço, eram quase todas de força.

Importa acentuar que Bengala atravessava um período de caos político, devido às derrotas sofridas face aos patanes e aos mogores. Ao saber da detenção dos portugueses, o governador Nuno da Cunha ordenou que nove navios, com 350 homens capitaneados por António da Silva Menezes, partissem em socorro dos detidos, tudo sob a proteção do influente Coja Xabadim. À frente da expedição seguiram emissários com uma carta para o rei de Bengala, acompanhada de novo presente. Como, porém, o tempo passasse e não houvesse resposta, Menezes concluiu que os mensageiros tinham sido presos, e, sem esperar mais, resolveu dar ordens para incendiar Chittagong e outras povoações da costa bengali. Mal isto tinha sido feito, chegou a resposta do rei; só que isso foi antes de ter tido conhecimento dos incêndios, facto este que o fez dar voz de prisão aos emissários lusos que tinham levado a carta e o presente, e os desgraçados foram metidos a grandes tormentos.

Estavam as coisas neste pé quando Shere Khan (um nome que o escritor Rudyard Kipling iria buscar para batizar o seu tigre de “O Livro da Selva”…), vassalo do rei de Bengala, se revoltou contra o soberano, e este decidiu aceitar a oferta de ajuda dos prisioneiros portugueses, o que lhes valeu a libertação. Já era hábito… Só que Shere Khan não se dera por vencido e, atacando de novo, saqueou a cidade de Gour. O rei de Bengala, que fora ferido nos combates, viria a expirar daí a pouco, sendo sucedido por outro muçulmano de sangue real, colocado no trono de Bengala pelos poderosos soberanos da dinastia Mogol, que dominava a Índia setentrional (não confundir com mongol, que é uma coisa diferente).

De Menezes e dos outros nossos compatriotas da década de 1530 envolvidos no episódio perde-se aqui o rasto, visto serem estas informações parcelares e por vezes “telegráficas”. Mas sabemos que, em 1577, o imperador mogol Akbar, o grande potentado regional, autorizou os portugueses a fixarem-se em pontos da costa de Bengala e a construírem ali feitorias e igrejas. Por lá permaneceram nos séculos seguintes, em muitos casos misturando-se com a população local até se fundirem com ela.

Civilização antiga

Os vestígios da civilização na zona do Bangladesh remontam, pelo menos, a 2000 antes de Cristo. A religião islâmica foi introduzida no século VII por comerciantes árabes prosélitos do novo credo fundado por Maomé, seguindo-se a conquista militar por um general turcomano, no século XIII. Posteriormente, o Sultanato de Bengala, embora mantendo a independência, passaria a ser controlado pelo Império Mogol, a grande potência regional do norte da Índia, construtora de joias arquitetónicas como o Taj Mahal de Agra.

Foi a partir de 1517 que os portugueses começaram a frequentar a região. O caminho marítimo para a Índia tinha sido descoberto por Vasco da Gama menos de 20 anos antes e esses nossos antepassados espalhavam-se rapidamente por toda a orla do oceano Índico, acalentando sonhos de aventura e de fortuna assentes num poder de fogo marítimo dotado de grande mobilidade.

Tudo passa nesta vida, e em meados do século XVIII foi a vez de os ingleses, através da Companhia Britânica das Índias Orientais, assegurarem o controlo da zona. Como é sabido, o Reino Unido viria mesmo a dominar todo o Indostão (atuais Índia, Paquistão, Bangladesh, Sri Lanka e, ainda, a Birmânia/Myanmar), sob a designação de Império das Índias, que apenas se desdobraria em vários Estados independentes a partir de 1947. Uma constante enquanto durou o Raj (o domínio britânico na Índia) foram as incessantes lutas entre hindus e muçulmanos, que desembocariam na partilha do território entre União Indiana (hoje República da Índia), Paquistão e Ceilão (chamado Sri Lanka depois de 1972). O Paquistão, constituído por duas partes sem continuidade geográfica – o Paquistão Ocidental e o Paquistão Oriental – foi criado para acolher as populações muçulmanas, enquanto na Índia a maioria era (e é) seguidora do hinduísmo.

De Paquistão Oriental a Bangladesh

Simplesmente, o então chamado Paquistão Oriental não se conformava com a ligação (e, na prática, a dependência) relativamente ao Paquistão Ocidental. Os tumultos eram, por isso, uma constante, vindo a desembocar numa guerra entre as duas metades desse Estado de características tão peculiares. O conflito armado rebentou em março de 1971 e durou até dezembro desse ano, altura em que o Paquistão Oriental se tornou um Estado independente – exatamente o Bangladesh. Não existia, de facto, afinidade histórica entre as duas metades desavindas, aparte o facto de ambas serem indostânicas e de religião maioritariamente islâmica. 

A rebelião remonta a 1952, cinco anos após a queda do Raj britânico. Uma força política chamada Liga Awami, arreligiosa e de conotação socialista, liderou a campanha pela independência do Bangladesh, contando com o apoio de multidões de pobres, até mesmo de miseráveis. Nas eleições locais de 1954, a Liga Awami derrotou clamorosamente os conservadores da Liga Muçulmana, mas isso não foi suficiente para abalar os sucessivos regimes militares instalados em Islamabad, a capital do Paquistão. Foram-se passando os anos, e em 1970 a Liga Awami voltou a ganhar eleições, desta vez legislativas, sem que o ideal da independência encontrasse qualquer eco em Islamabad. No ano seguinte, desencadeou-se um movimento de desobediência civil assinalado por uma greve geral, que culminou na independência do Bangladesh. Seguiu-se uma repressão sangrenta levada a cabo pelo Exército paquistanês.

Foi então que a Índia, eterna inimiga do Paquistão (sobretudo por motivos religiosos), proclamou o seu apoio aos rebeldes independentistas bengalis. Travou-se assim uma guerra indo-paquistanesa, que se misturou com a luta de independência do Bangladesh, conflito duplo esse que terminaria com o reconhecimento internacional da independência do novo Estado. O conflito levou à morte de cerca de três milhões de civis e à fuga em massa de oito a dez milhões para a Índia. Estes números, que podem parecer elevados – e são – “nada” significam quando cotejados com a cifra populacional do Bangladesh, que é atualmente de 174 milhões de habitantes. É muito? Mais ainda será se levarmos em conta que a superfície do país é “apenas” de 148 mil quilómetros quadrados, ou seja, bastante menos do dobro de Portugal. É, de facto, uma das regiões de maior densidade populacional do mundo, sendo proporcional o número de tragédias naturais ali ocorridas, com destaque para as cheias assassinas.

Um país remoto? Os portugueses de há quinhentos anos não o diriam, pois movimentaram-se por lá com todo o à-vontade, como se estivessem em sua própria casa…

Por onde começar a relatar o indizível? No caso de El Fasher, capital do Darfur do Norte, no Sudão, não há como o fazer sem provocar a dor de quem nos lê. Lamentamos, mas o dever da verdade assim o exige.

Foi provavelmente isso mesmo que pensou o principal responsável pela ajuda humanitária das Nações Unidas, o britânico Tom Fletcher, no início da reunião com embaixadores no Conselho de Segurança, na quinta-feira, 30 de outubro.

“Mulheres e raparigas estão a ser violadas, pessoas estão a ser mutiladas e mortas com total impunidade”, começou. “Não podemos ouvir os seus gritos, mas, enquanto estamos aqui hoje, o horror continua.”

Depois de tomarem o último bastião das Forças Armadas Sudanesas no Darfur, que resistiu às investidas durante mais de 500 dias, os combatentes das Forças de Apoio Rápido (RSF) avançaram de casa em casa, com “relatos credíveis de execuções em massa” enquanto os civis tentavam escapar, contou Fletcher.

Quase 500 pessoas terão sido mortas no Hospital Maternidade Saudita, uma das instalações de saúde visadas nos combates. “Dezenas de milhares de civis aterrorizados e famintos fugiram ou estão em movimento”, disse ainda o mesmo responsável da ONU. “Aqueles que conseguem fugir – a grande maioria mulheres, crianças e idosos – enfrentam extorsão, violação e violência na perigosa viagem.”

E não foi por falta de aviso. Desde que as RSF começaram a cercar El Fasher, há 18 meses, que as ONG e outros observadores andavam a alertar para a iminência de um banho de sangue. No exato dia em que os embaixadores reuniram com Fletcher, veríamos as imagens de satélite captadas no fim de semana anterior por uma equipa do Laboratório de Investigação Humanitária da Universidade de Yale, nos EUA.

Eram imagens com pilhas de corpos de pessoas executadas em massa ou abatidas por snipers. No X, o diretor-executivo do laboratório, Nathaniel Raymond, descreveu como ficou chocado com o facto de elas mostrarem “manchas de sangue evidentes”. “O horror, a escala e a velocidade da matança que está a acontecer agora é diferente de tudo o que vi em 25 anos de carreira”, confessou Raymond, especialista em investigação de crimes de guerra.

Não admira que o título da notícia no site das Nações Unidas seja Sangue na Areia, Sangue nas Mãos, frase dita por Fletcher aos seus colegas, exortando-os a analisar “a contínua falha do mundo em impedir” o que estava a passar-se no Sudão.

A verdade é que os relatos de atrocidades desde que El Fasher caíra nas mãos das RSF, no fim de semana anterior, seguiam um padrão já conhecido. Em abril, e em apenas três dias, o grupo paramilitar originário das milícias Janjaweed tinha matado mais de 1 500 civis, em Zamzam, um campo de deslocados internos, a sul de El Fasher. Na altura, uma investigação do Guardian recolhera testemunhos de massacres com motivações étnicas, execuções em massa e raptos em grande escala.

Ver para crer? Vivam as imagens de satélite quando se sabe que os jornalistas na capital do Darfur do Norte desapareceram devido ao bloqueio das comunicações, foram raptados e, nalguns casos, sofreram agressões sexuais por parte das RSF! “Estamos a reportar no escuro”, disse ao Comité para a Proteção dos Jornalistas um repórter sudanês que conseguiu fugir. “E, a cada hora, perdemos mais uma voz.”

Palavras-chave:

Nova Iorque não enviou apenas um recado — lançou um aviso. A vitória de Mamdani marca uma viragem histórica: não se trata de administrar a cidade tal como ela existe, mas de disputar o que ela pode vir a ser. A capital simbólica do capitalismo global transforma-se, agora, no laboratório da sua própria contestação. O resultado exprime o esgotamento do consenso neoliberal e recoloca no centro a pergunta que o establishment tentou enterrar: quem tem direito à cidade?

Pela primeira vez, um socialista declarado — negro, filho de imigrantes ugandeses de origem indiana, formado na luta contra despejos e defensor de políticas universais — assume o comando político da cidade que, durante décadas, sintetizou desigualdade, especulação imobiliária e finanças desreguladas. Não se trata de uma alternância rotineira: é uma rutura na gramática política dos Estados Unidos.

Durante quase meio século, Nova Iorque funcionou como vitrine do dogma que equiparou desenvolvimento urbano à acumulação privada. Mamdani desfaz essa naturalização. Recoloca a habitação, os transportes, o espaço público e o controlo democrático do solo urbano como fundamentos — e não como concessões marginais. Desestabiliza a lógica que transformou o território em ativo financeiro e a vida urbana em sobrevivência permanente.

Contra o pragmatismo defensivo que se tornou reflexo do Partido Democrata, emerge a possibilidade de uma cidade orientada para a vida comum — e não para a rentabilidade de poucos. Não é apenas um programa de gestão: é uma reconfiguração da própria ideia de cidadania urbana.

A genealogia deste momento tem rosto e tem rua. A viragem municipalista foi construída por movimentos de base — sindicatos de inquilinos, campanhas contra despejos, organizações de trabalhadores essenciais — mas também por figuras como Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez, que legitimaram a justiça económica não como horizonte moral, mas como proposta governável. Mamdani não surge como exceção: é produto de um ciclo consistente de educação política e mobilização social.

A batalha decisiva, porém, será travada onde o poder real se concentra: fora das assembleias. Em Nova Iorque, grande parte da governação urbana opera na sombra — fundos imobiliários, fundos de pensões, promotoras e consultoras de zoning moldam o quotidiano por mecanismos extra-eleitorais. O desafio é transformar programa em norma, norma em política, política em estrutura — resistindo à litigância estratégica, à sabotagem regulatória e às manipulações de mercado.

Há precedentes internacionais. Barcelona, Berlim, Viena e, em menor escala, Lisboa, experimentaram regulamentação anti-especulativa, expansão da habitação pública e mobilização cívica. Os resultados mostram o essencial: reverter a financeirização é possível, mas a contra-ofensiva económica é persistente e tecnicamente sofisticada. A transformação exige política, mas também paciência, perícia jurídica e astúcia institucional.

No plano nacional, o impacto é explosivo. Num país onde Donald Trump consolidou poder transformando o migrante em ameaça, Mamdani afirma a cidade como obra coletiva das comunidades que a constroem. Para o trumpismo, a presença estrangeira é risco; para Nova Iorque, é origem de vitalidade. Não é apenas divergência ideológica — é disputa sobre quem pertence à América do século XXI.

Nada, porém, está garantido. Fora das metrópoles, a retórica anti-imigração permanece ancorada em desindustrialização, precariedade e ressentimento. Mamdani representa uma alternativa — não uma hegemonia. A disputa será material: na renda, no transporte que chega ou falha, no salário que permite ou não viver. É na economia do quotidiano que o futuro político dos Estados Unidos será decidido.

Dentro do Partido Democrata, o desconforto é evidente. Uma geração jovem, multirracial e urbana exige redistribuição e direitos sociais; a elite partidária teme que a palavra socialismo encerre disputas nos subúrbios e no Midwest. Mamdani pode inaugurar um novo realinhamento — ou ser isolado como excentricidade municipal. A chave será enfrentar o lobby imobiliário — o verdadeiro governo invisível da cidade.

O laboratório está aberto. E, se resultar, a velha ordem não regressará intacta.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

1. E agora as eleições presidenciais. Já com oito candidatos assumidos, sete deles apoiados por outros tantos partidos com representação parlamentar, o oitavo por nenhum partido mas tendo na sua candidatura diversos conhecidos (ex-)dirigentes sobretudo de um deles, o PSD. Se nunca houve tantos candidatos nestas condições, outra originalidade é a certeza de que haverá, só pela segunda vez, uma segunda volta; e a incerteza sobre quais os dois candidatos que a disputarão: os dois, porque nenhum se pode ter como certo ir à segunda volta.

Última e pior originalidade: haver um candidato que, sobre ser um defensor de práticas racistas, xenófobas e a partir de falsidades proclamar a necessidade de “Salazares” (destruição da liberdade, polícia política, censura, etc.), não olha a meios para atingir os fins, violando regras elementares da democracia, do respeito pelos outros, da civilidade. Como ele, André Ventura, e o seu partido têm demonstrado à evidência, inclusive no Parlamento, as mais das vezes perante a passividade de quem o preside.

E é isto que está a manchar ou mesmo a aviltar a vida política e a pôr em causa a democracia. Em concreto sobre as presidenciais: apesar do preceito constitucional sobre o racismo e o fascismo, julgo admissível um candidato salazarista ou similar – mas o que tem, como todos, é de respeitar o jogo da democracia, incompatível com o uso da difamação e da calúnia, da mentira, do apelo direto ou indireto ao ódio e à violência. Ora, para evitar que a campanha para as presidenciais seja uma batalha campal “suja” impõe-se que os tribunais e a Comissão Nacional de Eleições tenham um papel ativo e rápido, dentro das suas competências, que se impõe venham a ser mais, lá irei.

2. Nesta perspetiva devem ser encarados e julgados os dois primeiros cartazes da campanha presidencial de Ventura. Com a sua foto e duas frases lapalissianas, que se proferidas por um imbecil noutro contexto só seriam prova da sua imbecilidade: “Isto não é o Bangladesh” e “Os ciganos têm de cumprir a lei”. Mas que em cartazes de Ventura só podem ter a leitura que deles todos fazem: são contra os ciganos e os imigrantes, são racistas, têm implícita uma mentalidade de falta de respeito pelos outros e de ódio (o que sentiriam os milhões de emigrantes portugueses espalhados pelo mundo se no país em que estão vissem um cartaz a dizer “Isto aqui não é Portugal”?). Combater essa mentalidade e suas consequências constitui dever de todos os democratas de todos os quadrantes.

Tal combate tem de ser eficaz. E não me parece que o seja apresentando queixa ao Ministério Público por tais cartazes constituírem crimes de discriminação racial, incitamento ao ódio e à violência. A sua substância é esta, mas o “corpo de delito” não é de molde a sustentar uma acusação penal – e quando a Comissão Nacional de Eleições (CNE) envia o caso para o MP está apenas a chutar para canto…

3. Mesmo que a Justiça portuguesa em geral estivesse à altura das suas responsabilidades, neste caso não haveria fundamento para procedimento criminal. E então perante o que tem sido a sua prática… Recordo que nas últimas legislativas André Ventura/Chega espalharam por todo o País cartazes inadmissíveis, mormente um inquestionavelmente calunioso: o texto era “50 anos de corrupção – É tempo de dizer Chega”, tinha lado a lado as fotos de Luís Montenegro e José Sócrates, em cima, a de Ventura apontando para baixo, o indicador da mão esquerda na testa do líder do PSD… Ou seja, acusando-o diretamente de corrupto, quando tal acusação não constava sequer das alegadas condutas impróprias que lhe são ou eram imputadas.

   Sustentei então que, além de uma providência cautelar para a retirada do cartaz, Montenegro devia apresentar uma queixa-crime contra Ventura. Tratou-se de um crime grave e cometido, bem visível, por todo o País. O primeiro-ministro, porém, limitou-se à providência cautelar, que entrou a 14 de março; e, incrivelmente, nem ela teve vencimento! Aliás se tivesse também não teria efeito prático nenhum, pois a decisão – numa providência cautelar e apesar da evidência do delito… – demorou quase dois meses, foi tomada só em maio, em que a 18 se realizaram as eleições.

4. Ora, como será se no decurso de qualquer campanha, para já na próxima, mais coisas como estes cartazes, ou ainda piores, acontecerem? Se, por exemplo, forem difamados ou caluniados candidatos ou partidos, proferidas contra eles acusações falsas, mentirosas, etc.? Se acontecerem, como é possível que aconteça, não acontecerá nada… O crime ficará impune, o crime compensará.

Assim, é imperioso, e cada vez mais urgente, legislar nesta matéria, para assegurar o mais possível a lisura, a democraticidade e a própria decência das eleições. Urge definir regras claras, eficazes, para que as campanhas eleitorais não sejam infestadas de mentiras, insultos, golpes baixos, não sejam combates na lama em que vale tudo. Na atrás referida coluna defendi, além da imprescindibilidade daquela nova legislação, a criação de tribunais eleitorais que permitam aplicá-la com critério e eficácia, porque em tempo útil, porque com regras próprias quanto a prazos.

É o que acontece no Brasil, onde o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) integra nomeadamente três ministros (conselheiros) do Supremo Tribunal Federal, um dos quais o preside. TSE, com poderes jurisdicionais, que pode aplicar sanções por propaganda delituosa, mentirosa, abusiva, suspender o direito ao tempo de antena e dar nele direito de resposta a qualquer conteúdo falso e/ou infamante, etc.

5. Não obstante acusarem Montenegro de corrupto e o PSD de várias malfeitorias – e, claro, os partidos de esquerda de muitas mais –, o primeiro-ministro e o Governo têm tido posições de aproximação ao Chega, e (dizem…) de “equidistância” entre o Chega e o PS – o que numa ótica da democracia e sua defesa não se compreende. E se o PSD pensa que isso contribui para lhe dar votos e debilitar a extrema-direita – pelo contrário, só a favorece e ameaça o regime democrático.

6. Assim sendo é lamentável a prioridade dada na agenda política do Governo a temas que são bandeira do Chega e a forma como em geral os tem tratado – embora não lhe fazendo as “vontades” todas, era o que mais faltava. A forma de combater o Chega não é, sob pretexto de a desarmadilhar, seguir a sua agenda e de facto ou aparentemente lhe dar ganho de causa. A forma de o combater e lutar pela liberdade e pelos valores do 25 de Abril é, nomeadamente, mostrar que é um partido não patriótico mas ultranacionalista, ou falsamente nacionalista, que ofende  princípios e prejudica interesses verdadeiramente nacionais, e que não tem nada a ver, bem pelo contrário, com a mensagem de Cristo e da Igreja, de que Ventura se reclama um “fiel”. 

E, já agora, hoje amiúde me ocorre que o meu bom amigo Adelino (Amaro da Costa), e o também meu amigo Diogo (Freitas do Amaral), porque católicos militantes e defensores da doutrina social da Igreja não subscreveriam certas posições, mormente quanto aos imigrantes, tomadas pelo atual “poder”. Que integra o partido que fundaram, centrista/conservador, e outro que se reclamava de centro-esquerda e da social-democracia. Que continua, PSD, no seu nome, mas no mínimo escasseia na sua prática.

7. Um “tema” com a atualidade que também lhe deu a recente morte do último seu principal fundador ainda vivo, Pinto Balsemão, o militante nº 1. Balsemão que nunca foi de direita e sempre se afirmou social-democrata, decerto também por isso tendo sido apoiante de Rui Rio e mandatário da candidatura à liderança do partido de Jorge Moreira da Silva. O mesmo, e de forma pelo menos igualmente nítida, se podendo dizer dos outros dois principais fundadores, Sá Carneiro e Magalhães Mota. Sendo que este, como Helena Roseta e outros, nunca mudaram de posição, foram sempre sociais-democratas – e por o serem é que entenderam (bem ou mal agora para o caso não interessa) deixar o partido.

A contra-revolução promovida pelo pensamento reacionário a nível global tem como alvos privilegiados o direito internacional, os imigrantes, as diversas minorias étnicas, religiosas ou de orientação sexual, os direitos das mulheres em geral e o futuro do planeta pelo ódio às preocupações ambientais.

O direito internacional construído ao longo do século XX e afirmado pela subordinação dos Estados aos pactos e convenções sobre direitos fundamentais, ao sistema multilateral de regulação de conflitos pelas Nações Unidas e à aceitação do primado das decisões do Tribunal Internacional de Justiça e do Tribunal Penal Internacional está a ser ameaçado como nunca desde 1945 e em risco de ser desmantelado pelo regresso do primado da lei do mais forte.

É certo que os antigos presidentes da Jugoslávia, do Sudão ou das Filipinas foram já detidos à ordem do TPI, mas outros líderes acusados de crimes e com mandado de captura, como Putin ou Netanyahu, continuam no poder e a ser interlocutores respeitados pelas lideranças americana ou chinesa.

A caça ao imigrante ou refugiado, com países ocidentais a negociarem o regresso das deportações para o Afeganistão, a limpeza étnica no Darfur, dos Rohingya em Myanmar, dos Yazidis no Iraque ou na Síria ou dos palestinianos em Gaza, são vistas com enfado como incidentes desagradáveis ou danos colaterais que, exceto a Palestina, não abrem os telejornais.

A Convenção de Istambul sobre violência contra as mulheres e violência doméstica está a ser esvaziada pelo abandono pela própria Turquia e pela Letónia e pela recusa de ratificação por 5 países membros da União Europeia.

Mas a última grande cruzada é contra a agenda verde liderada pelo abandono do Acordo de Paris pelos Estados Unidos. Ontem, a União Europeia aprovou um acordo mínimo reduzindo as metas a levar à COP 30 que se inicia no Brasil, na próxima semana.

Deve saudar-se que Portugal faz parte desse acordo mínimo sobre metas climáticas até 2040, apontando para uma redução de 85% das emissões relativamente aos níveis de 1990.

Mesmo com um enfraquecimento dos objetivos, o acordo europeu teve a oposição de quatro países e a abstenção de outros dois e o debate aceso vai continuar no Parlamento Europeu com uma crescente convergência da direita tradicional com a extrema-direita. O maior teste será em breve, com a pressão imensa para que seja afastada a meta de proibição de venda na Europa de veículos a gasóleo ou gasolina a partir de 2035.

Neste quadro de defesa dos interesses económicos instalados e de negação da evidência científica, deve ser saudada a forma serena como a ministra Graça Carvalho se tem diferenciado do radicalismo ideológico de Leitão Amaro, Ana Paula Martins ou Nuno Melo.

O debate do orçamento para a área do ambiente trouxe algumas boas noticias. A garantia de financiamento da dessalinizadora de Albufeira, com obras a começar em breve, e o lançamento de outra em Sines, bem como a garantia de financiamento europeu para a barragem do Pisão.

O programa E-Lar, destinado a substituir equipamentos domésticos a gás por aparelhos elétricos, está já a ser concretizado com os 30 milhões de euros disponibilizados em setembro e terá um reforço de 52 milhões de euros em dezembro, que não irão para o “mealheiro” empresarial inventado por Castro Almeida para disfarçar a incapacidade de execução do PRR da maioria dos seus colegas de Governo.

Foi ainda anunciado um programa de apoio à resiliência de infraestruturas críticas nas áreas da saúde, segurança e proteção civil, para prevenir situações como o apagão de abril passado, e apresentados novos programas de apoio à resiliência elétrica destinados à aquisição de baterias e ao incentivo do uso do biometano.

Finalmente, foi anunciado um criativo programa de estímulo à devolução de embalagens de bebidas em plástico ou em metal para aumentar decisivamente os baixos níveis de reciclagem relativamente aos objetivos definidos a nível europeu.

Nem parece ser deste Governo este exemplo de apresentação de medidas pragmáticas, sem tiradas de verborreia ideológica contra a oposição nem de cedência aos negacionistas das alterações climáticas.

Por não contribuir para o fracasso da execução do PRR, pela eficácia e bom senso das propostas apresentadas e pela preocupação de assegurar a concretização de projetos tantas vezes adiados, como a dessalinização da água para consumo doméstico ou a barragem do Pisão, a ministra Graça Carvalho é um caso raro de merecido prémio Laranja Doce.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Que um dirigente político que não gosta da democracia glorifique um ditador e mande afixar cartazes racistas e xenófobos é normal. Não faz mais do que propagandear as suas convicções, agradar aos seus e captar mais votos dos que pensam como ele. 

Já não é tão normal que tanta gente relativize este tipo de comportamento.

Passei a semana a ouvir falar acerca dos efeitos que o Ventura queria produzir com aqueles cartazes. O ângulo de análise de praticamente toda a gente que perora no espaço público foi o de ficar de boca aberta.

A maioria limitou-se a enfatizar que os comunistas, ou seja, os que se afirmam sociais-democratas ou democratas-cristãos ou simplesmente não são de direita radical, caem numa armadilha se disserem que aquilo é, muito provavelmente, um crime de incitamento ao ódio e, de certeza, uma coisa nojenta. Não faltaram os que se riram muito da genialidade do Ventura.

Pelos vistos, a atitude certa é assobiar para o lado ou então dizer que o Ventura é um espertalhão porque está a tentar dividir a comunidade e a fazer com que se fale dele. Já criticar o conteúdo é que não pode ser. O que é proibido dizer é que um tipo que espalha aquela mensagem e defende o regresso ao fascismo (que é o que faz quem diz aquilo dos três Salazares) é um xenófobo, um racista e um fascista. 

E, claro, não faltou quem desculpasse os pobres dos portugueses. Claro que não há racistas, nem xenófobos e todos odeiam o anterior regime. Nada disso, o Ventura diz aquilo tudo para perder votos, para se suicidar politicamente.

Quando é que, de uma vez por todas, metemos na cabeça que há mesmo muitos portugueses que são racistas, xenófobos, saudosos de Salazar (por ignorância, falta de memória ou convicção)? Ou talvez não o sejam, mas a democracia e os seus valores são para eles dispensáveis.

O Ventura diz o que diz, põe os cartazes que põe, porque há mesmo muitas pessoas que gostam daquelas mensagens, o dividir e polarizar e essas coisas todas é secundário e pouco relevante. Bem sei, custa admitir que os nossos vizinhos do lado, as pessoas que se cruzam connosco na rua, alguns dos nossos amigos, gostam da mensagem e ficam muito divertidos se um deputado manda outro para a sua terra apenas por ser negra, mas é o que é: são quase um milhão e meio e a crescer.

Duma coisa estou certo, não será por infantilizarmos as pessoas, não será por dizermos que elas não pensam o que exprimem, que faremos com que mudem de opinião. 

Seja como for, é normal que quem quer destruir a democracia tente destruir os seus pilares, repito. Já ver o PSD, um partido pai da nossa democracia, colaborar neste processo é muito mais do que anormal, é arrepiante. 

Na sequência da aprovação da aberrante Lei da Nacionalidade, Leitão Amaro, figura central do Governo, elogiou o partido que manda deputados portugueses negros regressarem à terra deles (?) e promove mensagens racistas e xenófobas. Não contente com isso, declarou, eufórico, que agora “Portugal é mais Portugal”.

Foi este mesmo cavalheiro que disse que o aumento da imigração tinha sido no âmbito de um processo de reengenharia social e política promovido pelo anterior governo. Replicou, aliás, a tese do seu pai político, Passos Coelho, que cada vez que lhe põem um microfone à frente defende o delírio da teoria da grande substituição, ou do intelectual Miguel Morgado, que acha que “há um convite dos partidos de extrema-esquerda para inundar os países europeus de imigração porque isso é uma forma de reencenar a revolução social que falhou”. Para compor o ramalhete, tivemos o secretário de Estado da Imigração, Rui Armindo Freitas, a dizer que o PS queria mais imigração para ganhar votos – os imigrantes chegavam e punham-se logo a votar…

Para cereja no topo do bolo, só faltava mesmo o senhor primeiro-ministro que, rodeado de oito bandeiras de Portugal, afirmou que se “cumpria Portugal”. Lembrei-me de duas frases: “O nacionalismo é a pior das pragas”, dita por Stefan Zweig, e “o nacionalismo é o último refúgio dos canalhas e o primeiro refúgio dos hipócritas”, de Melvyn Bragg.  

Numa primeira fase, parecia que o PSD e o Governo estavam a tentar replicar o discurso do Chega para lhe tirar as bandeiras – era e é um erro crasso por ser evidente que o original ganha sempre à imitação. Mas a repetição da mensagem e as medidas em relação à imigração e à nacionalidade já não deixam dúvidas: o Governo e o PSD alijaram o seu património político, renegaram as suas origens ideológicas, cuspiram nos seus fundadores e tornaram-se num partido de direita radical ou, no mínimo, de direita dura. 

O PSD já não é um partido da social-democracia europeia, plural, cosmopolita, mas sim uma organização bafienta, defensora do Portugal fechadinho e bacocamente nacionalista.

Ter deixado muitos portugueses politicamente apátridas, na frase feliz do Adolfo Mesquita Nunes, é o menos. O Governo está a contribuir decisivamente para nos tornarmos um país agressivo com os mais vulneráveis e com medo da diferença. Um país que, em vez de tentar resolver os nossos inúmeros problemas sociais e económicos, gasta o tempo a criar um ambiente de desconfiança em relação aos que nos procuram para nos ajudar, e a descobrir problemas onde não há, como é o caso da Lei da Nacionalidade e da patética questão da burca. 

Teresa de Sousa, no Público, está coberta de razão. O maior perigo para a nossa democracia não vem do Chega, vem, sim, da deriva do PSD.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

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Se o Governo fosse do PS e se estivesse a ser liderado por António Costa, a recente intervenção de Pedro Passos Coelho, no quadro do Congresso Internacional do Cooperativismo, em Lisboa, não teria sido mais dura. No final, declarou: “É uma crítica que aqui assumo.” Não podia ser mais claro.

O antigo líder do PSD e antigo primeiro-ministro, num longo discurso de 30 minutos, estabeleceu um programa de governo – do seu governo, se fosse ele que mandasse – que em (quase) tudo se demarca da filosofia seguida por Luís Montenegro. Mas mais do que uma linha de governo, Passos define uma matriz ideológica que está, expressa e explicitamente, nos antípodas da social-democracia. Foquemo-nos nesta frase: “Não devemos perder tempo com preocupações distributivas.” Não podia ser mais explícito na negação das ideias sociais-democratas que se destacam, precisamente, pelas “preocupações distributivas”. Preocupações sociais-democratas que começam no programa do seu próprio partido – mesmo que, volta e meia, não pratique muito.

Passos Coelho é um político direto, que diz ao que vem, sem dissimulações e sem enganar ninguém. Com candura, ou coragem inconsciente, volta a atingir, de forma agreste, um eleitorado que um partido grande precisa de acarinhar. Com efeito, noutro passo do seu discurso, critica o Governo, concretamente, pelo complemento extraordinário atribuído aos pensionistas: “Não chega distribuir um prémio aos reformados e fazer algumas habilidades orçamentais para salvar o ano”, diz o antigo primeiro-ministro. Uma afirmação que renega todas as preocupações de Montenegro acerca da “reconciliação” do PSD com os pensionistas, uma camada eleitoral que, em Portugal, país envelhecido, pode decidir eleições. Direto, como sempre, Passos Coelho põe aí o dedo na ferida: “Chegou o fim das margens de manobra para ir adiando decisões importantes” e são necessárias “mudanças sem ceder a cálculos eleitorais”. De facto, um dos problemas das nossas democracias modernas é o de que uma pequena clientela eleitoral de, suponhamos, 1,5 milhões de eleitores (em Portugal) pode determinar as escolhas e as políticas públicas que afetarão todos. Se os pensionistas são muitos e votam regularmente, os partidos tendem a falar para eles e a satisfazer as suas aspirações, canalizando para esse setor recursos financeiros que podiam ser empregues noutras opções, mais direcionadas para o bem comum. Com esta afirmação, Passos Coelho (que, pelos vistos, está longe de meter os papéis para a reforma…) é coerente na declaração de guerra ao que o passismo chegou a chamar “peste grisalha”, afastando uma massa de eleitorado que, perante este discurso, jamais voltará a dar-lhe o seu voto. Significa isso que uma candidatura presidencial, que necessita de 50% mais um, estaria sempre destinada ao fracasso – mas também significa que ficam diminuídas as hipóteses de sucesso, mesmo em legislativas, se Passos Coelho algum dia voltar à liderança do PSD.

Seja como for, as constantes intervenções de Passos, no espaço público, nas últimas semanas – e ele está a aceitar todos os convites para intervir –, depois de anos de silêncio, apenas interrompidos por aparições fugazes de toca-e-foge (como na campanha eleitoral de 2024, em que mais desajudou do que ajudou o PSD), significam que o antigo primeiro-ministro está a preparar o seu regresso à política ativa. Isso já é claríssimo. Não se vislumbrando, porém, por ser demasiado tarde, uma candidatura presidencial; e estando Luís Montenegro bem estribado na sua maioria clara. Assim, o timing do regresso é um mistério. Mas Passos, ainda assim, gere as suas intervenções à moda de Cavaco Silva: quando fala, o “comentariado” discute-o. Quando intervém, a agenda política estremece. Quando aparece, o País vira o pescoço na sua direção. Esse estatuto senatorial faz de Passos Coelho, tenha ele mais ou tenha ele menos hipóteses eleitorais, um potentado formidável, no panorama político português. Cavaco pode falar, mas já não regressa. Mas Passos permanece como “a reserva moral” da direita. A única reserva moral verdadeiramente ativa. E está a alimentar isso todos os dias, quer pelo silêncio, quer pela intervenção. De uma certa forma perversa, com este discurso, Pedro Passos Coelho tornou-se a principal figura da oposição, nem que fosse por breves momentos. Outra das suas vantagens é a de não ser, como dizem os brasileiros, “um político chuchu”, isto é, uma personalidade sem “sabor”. Tal como outros vultos antes dele – Mário Soares, Sá Carneiro, Cavaco Silva –, ou se ama ou se odeia.

Pelo caminho, Passos Coelho vai dizendo umas verdades de La Palisse: “Quando se evita tomar decisões tão importantes no tempo certo, está-se condenado a tomá-las fora de tempo”, sempre com “um resultado pior”. O problema, em Passos Coelho, é a natureza das “decisões” que devem ser tomadas no “tempo certo”. Já vimos que são decisões que não respeitam o ideário oficial do seu partido. Isso não tem nada de mal, mas o que “é importante decidir”, para Passos Coelho, pode ser uma decisão desastrosa, na perspetiva de quadrantes políticos diferentes do seu. É por isso que os conselhos do antigo primeiro-ministro, embora legítimos, precisariam de ser sufragados eleitoralmente, antes de serem aplicados pelo atual primeiro-ministro. A principal suspeita que podemos ter é a de que o seu ideário não foi sufragado nas últimas eleições. Se considerarmos apenas aquilo que, em 30 minutos, Passos Coelho deixa antever, do seu pensamento, verificamos que nada daquilo consta do programa eleitoral do PSD. Vamos supor que possa haver uma crise política inesperada. Com um Orçamento “dessalinizado” e praticamente aprovado, a única crise que poderia antever-se, a curto ou médio prazo (tendo em conta a legislatura de quatro anos) seria um desenvolvimento judicial, no caso Spinumviva, que deixasse a situação do primeiro-ministro insustentável. Ignoramos se Passos está a apostar nisso, mas um novo PSD liderado, de novo, por ele teria de se submeter a eleições, com um novo programa, suspeita-se, radicalmente diferente.

Passos alerta para o facto de “os governos, em Portugal e na Europa”, atribuírem uma urgência “ao curto prazo e uma importância demasiado relativa ao médio e ao longo prazo, por medo da reação das pessoas”. Bem-vindo à democracia: estamos a falar de ciclos eleitorais de quatro anos e estamos a falar de pessoas (cidadãos e eleitores) que, sim, reagem. “A política, ao contrário do que muitos pensarão, não acaba a cada eleição”, insiste o antigo chefe do governo. Mas sem eleições não há política. E não parece que Passos tenha uma fórmula para evitar que a “democracia seja o pior de todos os sistemas” (à exceção de todos os outros).

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O Bangladesh está a mais de nove mil quilómetros de distância de avião e os dias parece que voam em Daca, a capital, mas ainda assim Cláudia Costa não tem uma vida divorciada de Portugal. Com os pais, que regressaram a Braga depois de décadas emigrados em França, a professora de Francês, Espanhol e Inglês na segunda escola internacional mais importante de Daca (a primeira foi fundada pelo governo dos EUA) fala ao telefone sempre que pode. Com os amigos, mantém o contacto através das redes sociais que também lhe vão trazendo a espuma dos dias.

Na quinta-feira, 30 de outubro, já era noite no Bangladesh (o país está seis horas à frente de Lisboa) quando começou por nos responder com um áudio no WhatsApp: “Vi o cartaz hoje e fiquei chocada. Chocada. Apareceu-me no feed do Facebook e pensei: ‘O que é que se está a passar?!’”

Mora há quatro anos e meio no Bangladesh, com o seu marido e os vossos três filhos. Como é que vê esta polémica?

Faço um paralelo com o que está a passar-se aqui, onde existe um partido extremista muçulmano que vende o seu peixe precisamente jogando com o medo que as pessoas têm da mudança e do futuro. Vamos ter eleições em fevereiro, veremos o que acontece. Esse cartaz e a canção são racismo puro. Estão a atacar um povo que nos últimos anos só tem trazido o bem a Portugal (basta pensarmos na área do têxtil) e que, agora, ao emigrar para o nosso país, faz o que nós também fizemos, como povo, e o que eu fiz e estou a fazer.

A Cláudia nasceu e viveu em França, onde foi leitora numa universidade, e, antes de Daca, deu aulas na Suíça. Também é uma imigrante.

Na Europa, distinguem-se os imigrantes dos expatriados pela cor da pele. Nós, os brancos, somos expatriados, mesmo que estejamos a fazer o mesmo que os imigrantes: a ganhar o nosso pão. A única diferença é que nós trazemos conhecimento e eles estão numa etapa anterior, mas, se já estamos a trazer conhecimento é porque os nossos pais e avós fizeram aquilo que eles estão a fazer agora: a levar os seus filhos para um país onde têm acesso a uma alimentação melhor e a uma educação melhor, para daqui a duas gerações poderem fazer o que eu faço. Se hoje há portugueses professores, médicos ou engenheiros na Suíça, é porque os seus antepassados foram para lá como carpinteiros ou empregadas domésticas. Os portugueses têm a memória curta.

Quando precisam muito dos imigrantes…

Exato. Ainda há pouco tempo, ouvi um discurso do Sarkozy em que ele lembra como a Europa está envelhecida e como o poder está na Ásia, porque está na demografia. Gostava que André Ventura mandasse embora esse milhão e tal de imigrantes – ia ver quem pagava as pensões de reforma dos portugueses. Sempre me ensinaram que quando uma pessoa traz um problema para a mesa, deve também trazer uma solução. E a solução, neste caso, é dar formação, dizer quais são as regras. Não querem ver os imigrantes a rezar na rua, no chão? Então, estabeleça-se que não se pode fazer isso e arranjem-se mesquitas. É só um exemplo, mas Ventura e o seu grupo não querem soluções. Querem o poder à custa de uma população portuguesa pouco educada e pouco viajada.

Os portugueses deviam visitar o Bangladesh?

Por favor, venham! Se vissem, como eu vejo, crianças de 5 ou 6 anos a apanhar lixo na rua para depois ser reciclado, percebiam a razão pela qual as pessoas emigram daqui: fazem o máximo para poder levar os seus filhos para um sítio melhor. Eu faria igual. O problema da integração levantado por Ventura não é um problema do Bangladesh, é um problema de Portugal. Portugal é que tem de integrar estas pessoas, porque, a curto ou longo prazo, vamos precisar delas. O mundo ocidental está a envelhecer e só aqui, no Bangladesh, há 170 milhões de habitantes. Como é que a Europa vai fazer face a esta hegemonia? Temos de abrir caminho para trabalhar com toda a gente no futuro.

A Cláudia não hesitou em trocar Basileia por Daca?

Quando surgiu a oportunidade de vir para o Bangladesh, tive um momento de pausa porque me lembrava das imagens de extrema pobreza e dos comboios com gente em cima. Mas fui pesquisar e verifiquei que o país é muito mais do que isso.

O que encontrou, ao chegar?

Para começar, pessoas muito acolhedoras, que recebem os estrangeiros com afeto. E prontas a ajudar, dão o pouco que têm. O norte, com as plantações de chá, é lindíssimo, o sul tem praias muito bonitas e os Sundarbans (a reserva principal dos tigres-de-Bengala) é uma zona muito extensa e com uma fauna e uma flora fantásticas, onde uma pessoa pode viajar vários dias de barco e não conseguir ver tudo.

Os Sundarbans não têm nada que ver com Daca, onde só na área urbana vivem mais de 22 milhões de pessoas.

Nada (Risos). Daca, fora da zona das embaixadas, é uma cidade suja, poluída, com gente a viver na rua e muito lixo pelo chão, mas não podemos limitar o Bangladesh à sua capital. A última vez que estive em Portugal, precisei de renovar o Cartão de Cidadão e a funcionária que me atendeu comentou: “Você consegue viver com aquelas pessoas tão porcas?!” Ouvi aquilo e fiquei chocada, mas deixei passar, porque alguém com aquela mente… não valia a pena dizer-lhe nada. Aqui mesmo à frente da nossa casa, há agora um prédio a ser construído e os trabalhadores dormem lá, nuns barracões. Como não têm água corrente, a primeira coisa que fazem de manhã é escovar os dentes e lavarem-se com água de bidões. Vemos isso todas as manhãs.

Lá se vai o estereótipo da gente que não se lava.

A maioria das pessoas tem realmente condições de vida difíceis. Elas admiram-nos porque veem a Europa como o Paraíso e acham que saímos do nosso conforto. Mas nós aqui vivemos num conforto igual àquele que tínhamos. Quem nos contrata dá-nos um salário e alojamento iguais ou melhores. A escola construiu um prédio só para os professores, a dez minutos de carro da zona das embaixadas.

Não há muitos portugueses no Bangladesh, pois não?

Há quatro anos, quando chegámos a Daca, éramos uns 12, mas hoje só cá estamos eu, o meu marido, que vai e vem porque tem trabalho em Portugal, e os nossos três filhos. Não existe sequer embaixada, só um cônsul honorário. De resto, conheço mais um ou dois portugueses que trabalham na área do têxtil e vão e vêm, mas temos bastante vida social, porque na minha escola 80% dos alunos pertencem à elite de Bangladesh. Os pais podiam ser uns snobs, porque para eles, se calhar, somos da plebe, e no entanto são muito acolhedores. Não discriminam as crianças estrangeiras e convidam a família toda para as festas.

A vida é muito diferente daquela que tinham na Suíça?

Tento que os nossos filhos sigam um ritmo parecido. A mais velha vai a uma igreja católica que tem missa em bangla e em inglês, em Banani [um bairro cosmopolita de Daca], porque quer fazer a confirmação. Há uma igreja com origem portuguesa, a do Santo Rosário, mas não é muito ativa. Quando cheguei, achei graça ver pessoas com apelidos como Rosário, Gomes, Lopes. São descendentes de portugueses e têm muito orgulho nisso.

Planeia ficar em Daca até quando?

Tenho contrato até junho de 2027, mas ainda vamos ver se as eleições vão ou não modificar o país. Não queremos que aconteça uma revolução com os nossos filhos aqui. Há um ano, foi bom não terem deixado os militares tomar conta do país, mas vejo a população cansada da falta de decisões. Com a fuga de Hasina [Sheikh Hasina, a primeira-ministra, que se demitiu e fugiu, em agosto de 2024], fecharam muitas fábricas e saíram muitas fortunas. As pessoas estão agora à espera de que as eleições reavivem a economia, mas elas podem levar para um lado ou para o outro. E se ganharem os islamitas, podemos entrar num declínio grande. As mulheres deste país são mulheres muito coloridas, que dançam, trabalham… no fundo, têm uma vida parecida com a nossa. Tenho receio de que se regrida na sua independência, como já vimos acontecer noutros países.