O sistema de retenção infantil representa habitualmente uma fatia significativa do investimento no enxoval do bebé. E, ao mesmo tempo, talvez seja a peça mais importante: é suposto proteger a vida dos nossos rebentos no pior cenário possível. Se juntarmos a isto a frequência com que nos expomos ao risco – cada viagem é uma exposição – percebemos porque é que “comprar bem” aqui não é só uma questão de poupança.

Adquirir um sistema de retenção infantil em segunda mão pode parecer o caminho mais equilibrado. Os fatores pró são relativamente fáceis de enunciar:

  • menor investimento, se compararmos o mesmo equipamento novo com usado;
  • relevante em termos de sustentabilidade ambiental – um excelente argumento para conversa de café.

Agora vem a parte menos instagramável: os contras não aparecem à primeira vista. E é aqui que importa formular as perguntas certas – não para assustar, mas para evitar “poupanças” que saem caríssimas.

Há uns anos decidi dar a cadeira que pertencera à minha filha a uma prima que estava grávida. A cadeira estava guardada em cima de um guarda-fatos e, ao pegarmos nela, caiu. À primeira vista, nada de especial: plástico inteiro, tecido no sítio, parecia “impecável”.

Só que, por rotina, fomos confirmar se os cintos corriam bem – e começaram a encravar. Retirou-se a forra, e lá estava: uma fissura discreta na estrutura, invisível por fora, mas suficiente para comprometer o funcionamento.

Foi o lembrete mais útil (e menos simpático) de que uma cadeira não se avalia a olho. E é por isso que, antes de comprar em segunda mão, há perguntas que valem ouro.

As 7 perguntas antes de comprar

1) Quem é o vendedor – eu conheço? Confio no histórico desta cadeira?
Parece básico, mas é o primeiro filtro. Comprar a alguém conhecido (com quem consegue falar abertamente) não é “pormenor”; é acesso a histórico. Num anúncio anónimo podemos encontrar menor preço… que se traduz, muitas vezes, em menor acesso a informação.

2) Esta cadeira já esteve envolvida num acidente (mesmo “um toque”)?
A recomendação mais comum das marcas é clara: após um sinistro, a cadeira deve ser substituída. Tal como um capacete: pode parecer intacto, mas ter sofrido danos internos que colocam em causa a sua função.
E aqui não há “verificação visual” que resolva: para garantir integridade a sério, só um crash test… e, nesse momento, a cadeira fica (obviamente) inutilizada. Ou seja: se houve colisão, a decisão segura é simples – descartar.

3) Quantos anos tem a cadeira e consigo confirmar a data de fabrico?
Plásticos envelhecem, materiais desgastam, e há um “tempo de vida útil” que varia por marca e modelo. Procure sempre:

  • etiqueta de homologação (R44 ou R129) e identificação do modelo;
  • marcações na estrutura (muitas têm data/ano de fabrico gravados na carcaça da cadeira).

Cada marca tem recomendações de limite de utilização, por vezes diferentes consoante o tipo de cadeira e faixa etária.

Pode consultar uma tabela‑resumo das principais marcas comercializadas em Portugal — disponível na página de Instagram da autora e atualizada regularmente.


Se a idade é incerta, a compra passa a ser um ato de fé. (E não cabe neste texto emitir juízos acerca da fé… só não é um método de segurança.)

4) A cadeira está completa – com manual, redutores, base e peças originais?
Uma cadeira “quase completa” é uma cadeira incompleta. Redutores, almofadas, cunhas, base, guias, peças de fixação: tudo isto pode ser determinante para o comportamento da cadeira num cenário de colisão e para o uso correto no dia-a-dia. E atenção a substituições “criativas”: peças não originais, adaptadores, “dá para desenrascar” – aqui, não há espaço a jogos de azar.

5) Houve quedas, mau armazenamento ou alterações face à estrutura original?
Alguns sinais e perguntas úteis:

  • quedas (de armário, mesa, bancada): podem criar microfissuras nos plásticos;
  • exposição prolongada a calor extremo: dentro do automóvel há oscilações de temperatura brutais; esteja atento/a a sinais como descoloração ou deformações;
  • humidade: observe sobretudo os cintos. Se vir manchas escuras, pode estar perante fungos – e isso deve ser critério de exclusão. Mesmo que “saia na lavagem”, a questão é que pode já ter comprometido a integridade do material;
  • alterações visíveis (cortes, costuras, colagens): faça uma verificação cuidada, incluindo desforrar a cadeira para uma “vistoria” mais profunda. Tudo o que “modifica” pode comprometer.

6) Está funcional – e eu consigo testar todos os mecanismos?
Antes de pagar, confirme (ao vivo):

  • arnês/cintos sem torções, sem desfiar, sem zonas “lisas” por desgaste;
  • fivela a fechar e abrir com firmeza (sem “truques”);
  • reguladores a ajustar com fluidez;
  • isofix (se existir) a encaixar corretamente e com indicadores funcionais;
  • reclinação e apoios sem folgas anormais.

Se algo “não está perfeito”, não é um detalhe: pode ser um sinal de que o sistema já deu o que tinha a dar.

7) Esta cadeira serve para a minha criança e para este carro – hoje?
A pergunta não é “se é boa”. É: é compatível com a minha criança, com este carro e com a nossa rotina?
Porque uma cadeira “excelente” mal instalada, mal ajustada ou desconfortável ao ponto de gerar uso inconsistente… perde valor muito depressa. Sempre que possível, teste no automóvel: ângulo, espaço, percurso do cinto, estabilidade, acesso, compatibilidade real.

E em caso de sinistro: e os seguros?

Aqui a realidade é menos bonita do que a teoria: não há uma regra única aplicada por todas as seguradoras. Na prática, vê-se de tudo.

Por isso, a recomendação mais útil é esta: tenha uma nota de boas práticas pronta (idealmente junto da participação/declaração amigável) para, no stress do momento, não deixar os nervos dominarem a cena.
E sim: há marcas que, em alguns casos e com condições específicas, têm políticas de apoio/substituição quando fica comprovado que a seguradora não assegura a troca – sobretudo quando a responsabilidade do sinistro não é do próprio. Vale a pena perguntar antes de precisar.

No fim, comprar em segunda mão pode ser uma decisão sensata – se vier acompanhada de respostas certas a perguntas relevantes. A cadeira auto não é “um móvel do enxoval”. É equipamento de segurança. E equipamento de segurança não combina com “acho que está impecável”.

Um último pormenor: muitos fabricantes e técnicos aconselham que uma cadeira não passe por “demasiadas” crianças (duas, por vezes três, dependendo do modelo e do uso), desde que o histórico seja conhecido. O motivo é simples: o interior vai-se desgastando com a continuidade de utilização, tal como a sola de um par de sapatos.

Na dúvida, não arrisque. Se a poupança é o motivo, vale mais optar por artigos em segunda mão de menor impacto na segurança – e, para a cadeira auto, procurar pontos de venda que permitam soluções de pagamento faseado.

Joana Freitas é formadora e consultora em segurança rodoviária infantil e fundadora do D’Barriga, projeto com mais de 18 anos a apoiar famílias.

1. Quem passará à segunda volta nas eleições do próximo domingo? É uma pergunta para que ninguém tem resposta. Sequer uma resposta em termos de uma indiscutível “forte probabilidade” de acertar. Escrevo segunda-feira, 12, antes de conhecida uma sondagem de uma entidade credível, a Universidade Católica, com um universo mais largo, e por isso mais representativo, do que o das tracking polls diárias realizadas pela Pitagórica para a CNN/TVI, Jornal de Notícias e CNN. Mas, qualquer que seja o resultado “indiciado” por essa sondagem, creio que um alto grau de imprevisibilidade se manterá quanto aos dois candidatos que disputarão a segunda volta entre os cinco com possibilidade de a ela acederem: António José Seguro, André Ventura, Cotrim de Figueiredo, Gouveia e Melo, Marques Mendes.

Esta é uma originalidade absoluta relativamente a todas as anteriores presidenciais. Dupla originalidade absoluta, aliás. Porque: a) é única a certeza de segunda volta nas presidenciais, só houve uma, nas de há 40 anos, mas não antecipadamente certa, dado que, b) nessa eleição de 1986 Freitas do Amaral teve 46,31% na primeira volta, e havia a certeza de que iria à segunda – enquanto agora não há e julgo mesmo que nenhum candidato chegará sequer aos 25%…

2. Conjugada esta realidade com a óbvia possibilidade de André Ventura ir à segunda volta e a quase certeza de nela perder com qualquer outro candidato, daqui resulta a questão do chamado “voto útil” colocar-se já na primeira volta. Podendo, pelo menos se as próximas sondagens mantiverem idênticos resultados e tendências, ter influência nos resultados de Ventura e dos candidatos à esquerda de Seguro.

Em relação ao “chefe” do Chega, sendo certo que os seus incondicionais devotos lhe darão os seus votos, a dúvida é se há uma franja menos extremista, menos dominada pela em Ventura, mais pragmática, dos quase 23% de eleitores do partido nas legislativas, que poderá pôr a cruzinha noutro candidato, em particular em Cotrim de Figueiredo ou Gouveia e Melo.

E se este efeito do “voto útil” não é completamente improvável em relação a Ventura, é muito provável em relação a parte dos potenciais eleitores de Catarina Martins e Jorge Pinto. A primeira tem mostrado as qualidades que, mesmo não estando de acordo com as suas ideias, se impõe reconhecer-lhe, mormente ser a melhor e mais empática “debatedora”; e o segundo, até agora quase desconhecido, é sem dúvida a “revelação” política desta campanha, inclusive pela preparação demonstrada.

Mas tal não impede aquele “efeito”, e por isso suponho que Pinto ficará claramente abaixo e Catarina não ficará claramente acima (como se justificaria) dos resultados nas últimas legislativas dos partidos que os apoiam, o Livre e o BE respetivamente. Pelas mesmas razões António Filipe, o melhor candidato que o PCP podia arranjar, com um longo e respeitado percurso como deputado, o máximo a que pode aspirar é chegar aos cerca de 3% do partido nas eleições de 2025.

3.  Na campanha, até ao momento em que escrevo, o mais notório, se não erro, é a progressiva subida/ascensão de António José Seguro e Cotrim Figueiredo. Que creio ficar a dever-se muito não à sua própria ação mas à “luta” entre Gouveia e Melo (GM) e Marques Mendes (MM); ou de GM contra MM, aquele com quem disputa mais o espaço político, como se vê das muitas figuras destacadas do PSD que apoiam o almirante.

Quando GM, no debate a dois com MM, o acusou de ser um “facilitador de negócios”, explicando o que em seu entender isso significa, acusação que repetiu no debate a 11 na RTP, abriu uma nova frente de combate muito difícil para o candidato apoiado pelo PSD, o com mais longa e variada experiência política, da qual aliás se reclama como grande “trunfo”. Se a acusação fosse feita por outro candidato ela seria talvez irrelevante, levada à linha de conta das habituais querelas e dos constantes ataques interpartidários. Mas feita pelo ex-líder da campanha contra a Covid-19 bateu forte, dada a imagem de “seriedade” que preserva, apesar dos danos noutros aspetos a essa imagem causados pela campanha.  

Não tenho dúvida de que este “episódio”, com continuação a outros níveis, foi um golpe, até psicológico, para Marques Mendes. Agravado pelos reflexos que terá tido nos resultados das referidas tracking polls, em que passou para quinto lugar, e a certa distância dos outros quatro, quando tinha estado em primeiro. Já em relação a Gouveia e Melo não sei se lhe foi favorável ou desfavorável: ele foi, inevitavelmente, o que mais desceu, mas em relação a sondagens feitas há muito e em abstrato, pois ainda nem existiam candidatos concretos.

A minha impressão é de que MM também perdeu com a (excessiva) colagem ao Governo, negada mas bem notória, por exemplo ao não se pronunciar, com um pretexto absurdo, sobre a sua proposta de lei laboral. GM, pelo contrário, embora com óbvias debilidades e, sobretudo no início, acusando a falta de traquejo nos debates, soube dar uma ideia de colaboração, mas crítica, independente, com o Executivo.

Seja como for, julgo impossível fazer uma previsão fundamentada dos resultados de ambos: Marques Mendes continua a ser um candidato muito forte, embora longe da “supremacia” que a certa altura parecia ter; quanto a Gouveia e Melo a minha principal dúvida é se haverá ainda uma larga faixa da chamada “maioria silenciosa” que o prefere, hipótese que não excluo e a verificar-se também pode levá-lo à segunda volta.

4. No que respeita aos outros três candidatos, já falei de Ventura. Resta acrescentar que se nos debates e no início da campanha manteve o extremismo, em geral sorridente, e a agressividade que o caracterizam, nos últimos dias tentou passar uma imagem mais moderada e civilizada. O que suponho não influirá no seu resultado, mas teve o inesperado condão de levar Cotrim de Figueiredo a declarar que numa segunda volta pode apoiá-lo. Declaração para mim surpreendente de um candidato com boa presença e um bom discurso, na perspetiva das ideias que defende, e que como líder da IL sempre soube demarcar-se com nitidez do Chega. Creio que esta posição, na sequência de uma carta enviada ao primeiro-ministro a prometer ser seu “aliado” se…,  em nada o beneficia. Veremos.

Enfim, quanto a António José Seguro parece-me que começou bastante mal. Foi a entrevista em que não se dizia de esquerda ou centro-esquerda, foi uma certa passividade, ou falta de vigor e de veemência, passíveis até de serem interpretadas como falta da exigível indignação perante posições e comportamentos como os de Ventura. Progressivamente, porém, foi acertando o rumo, tornando-se mais natural/ele próprio, mais claro, direto, afirmativo – nomeadamente das suas convicções. Sem prejuízo de manter e sublinhar a tónica da “moderação”, o que acho muito bem, pois a considero uma virtude também na política, desde que sem abdicações ou transigências nos valores e princípios essenciais, em cuja defesa se impõe ser radical.

Assim, ganhando também com os ataques entre outros candidatos, recusando praticar certo estilo agressivo ou “politiqueiro” de campanha, Seguro tem avançado de forma consistente e parece hoje muito bem situado para chegar à segunda volta. Nesta, porém, para vencer qualquer candidato que não seja o chefe do Chega, tem de ter muitos votos do centro/direita e da direita, hoje dominantes no País. Isto significa, por um lado, que se percebe bem a abertura desde já a esses setores; e, por outro lado, a eventual imprescindibilidade de nessa segunda volta haver um ajustamento ou uma reorientação da campanha, em sentido inverso à de Mário Soares em 1980…

As eleições presidenciais em Portugal deixaram há muito de ser um mero ritual de confirmação institucional. No atual contexto europeu e global, passaram a representar um momento de prova para a resiliência democrática, a solidez das instituições e a maturidade do espaço público.

Num tempo marcado pela erosão da confiança, pela fragmentação social e pela radicalização do discurso político, o ato eleitoral ganha um peso que ultrapassa largamente a escolha de um nome. Transforma-se num teste ao próprio modelo de governação democrática.

É neste enquadramento que o crescimento da extrema-direita em Portugal deve ser analisado. Não como um fenómeno episódico ou resultado exclusivo de circunstâncias nacionais, mas como expressão de uma vaga internacional que atravessa democracias consolidadas e explora fragilidades reais do sistema para oferecer soluções ilusórias. Durante anos encarado como uma exceção, o caso português deixou de o ser. Essa mudança exige atenção.

O reforço eleitoral do Chega e a centralidade crescente de André Ventura no debate público não surgem do nada. Alimentam-se de uma insatisfação difusa, transversal a diferentes estratos sociais, que combina frustração económica, desconfiança em relação às elites políticas, sensação de impunidade e descrédito das instituições. Esse mal-estar é real. O problema começa quando é instrumentalizado por uma narrativa que simplifica excessivamente a realidade e oferece culpados fáceis em vez de respostas sustentáveis.

O discurso de Ventura assenta numa lógica de antagonismo permanente. A política é apresentada como um confronto moral entre “o povo” e um sistema corrupto e indiferenciado, onde tudo se confunde: partidos, tribunais, jornalistas, professores, funcionários públicos, minorias. Esta amálgama deliberada não é um acidente retórico; é uma estratégia. Ao diluir responsabilidades e eliminar nuances, o populismo cria um terreno fértil para a indignação, dispensando provas, propostas concretas ou coerência programática.

As falácias são recorrentes e previsíveis, começando pela ideia de que a corrupção se concentra apenas em determinados setores, ignorando o seu caráter estrutural e a necessidade de reformas institucionais profundas. Segue-se a associação sistemática entre imigração e criminalidade, contrariada de forma consistente por dados empíricos, mas eficaz enquanto instrumento emocional. Soma-se ainda a promessa de respostas imediatas para problemas complexos, sem qualquer explicação sobre custos, impactos legais ou efeitos colaterais. Tudo isto compõe um discurso que não pretende governar a realidade, mas dominá-la no plano simbólico.

O risco maior não reside apenas no conteúdo dessas afirmações, frequentemente desmentidas pelos factos, mas na lógica política que as sustenta. Ao apresentar-se como o único intérprete legítimo da vontade popular, o líder da extrema-direita coloca-se acima das regras do jogo democrático. O pluralismo passa a ser visto como obstáculo, o contraditório como traição e os contrapoderes como entraves à “vontade do povo”. É neste ponto que a democracia começa a ser corroída por dentro, não por ruptura súbita, mas por desgaste contínuo.

A experiência internacional oferece exemplos claros e inquietantes. Na Hungria, o populismo chegou ao poder por via eleitoral e traduziu-se numa captura progressiva das instituições, no controlo da comunicação social e no enfraquecimento do Estado de direito.

Na Polónia, reformas judiciais promovidas em nome da soberania nacional colocaram o país em confronto directo com os princípios fundamentais da União Europeia. Nos Estados Unidos, a normalização do discurso de deslegitimação eleitoral culminou num ataque sem precedentes às instituições democráticas.

Em todos estes casos, o ponto de partida foi semelhante: a banalização de uma retórica que tratava a democracia liberal como um entrave, e não como uma conquista histórica.

Em Portugal, este fenómeno assume contornos próprios. A Presidência da República é um órgão de equilíbrio, concebido para arbitrar, moderar e garantir o funcionamento regular das instituições. Não governa, mas influencia. Não legisla, mas condiciona. A transposição de uma lógica de confronto permanente para este cargo introduziria uma tensão estrutural no sistema político.

A mera possibilidade de um confronto decisivo marcado por um discurso de rutura permanente constitui, por si só, um sinal de alarme. Não porque o desfecho esteja determinado, mas porque expõe a profundidade das fissuras no sistema político e a capacidade da extrema-direita para capitalizar o descontentamento.

Os cenários desse eventual embate final evidenciam bem essa complexidade. André Ventura dispõe de um eleitorado altamente mobilizado, fiel e pouco sensível a contradições factuais. Move-se com eficácia num ambiente mediático em que o ruído, a provocação e a indignação são frequentemente recompensados com visibilidade. Soma-se a isto a fragmentação do campo democrático e os elevados níveis de abstenção, fatores que amplificam o peso relativo do voto de protesto. Mesmo sem maioria social, o impacto político seria real e duradouro.

Importa sublinhar que o risco não se limita a um eventual resultado eleitoral. A normalização deste discurso produz efeitos cumulativos. Desloca o centro do debate público, alarga os limites do aceitável e transforma ideias antes marginais em posições legitimadas. Direitos fundamentais passam a ser relativizados, a linguagem política degrada-se e a confiança nas instituições enfraquece.

O eleitorado que alimenta este crescimento não deve ser tratado com paternalismo nem reduzido a caricaturas fáceis. Trata-se, em grande medida, de cidadãos que se sentem ignorados, desprotegidos ou defraudados por sucessivos ciclos políticos. Reconhecer essa insatisfação é indispensável. Validar soluções autoritárias ou discursos simplistas não o é. Pelo contrário: exige-se uma resposta política mais exigente, capaz de enfrentar problemas reais sem sacrificar os fundamentos do regime democrático.

Portugal não está imune às consequências observadas noutros países. A polarização extrema, o enfraquecimento da confiança institucional, o isolamento internacional e a degradação do debate público são processos graduais, mas difíceis de reverter. Quando a política passa a ser dominada pela lógica do inimigo interno e da confrontação permanente, perde-se a capacidade de compromisso, de mediação e de construção colectiva.

Este momento exige lucidez. Não se trata de alarmismo nem de dramatização excessiva. Trata-se de compreender que a democracia não se esgota no ato de votar, mas no conjunto de valores, práticas e equilíbrios que lhe dão sentido. Quando um projeto político demonstra, de forma reiterada, desprezo por esses fundamentos, o alerta deixa de ser ideológico para se tornar institucional.

As eleições presidenciais que se aproximam serão, assim, mais do que uma escolha individual. Representam um teste silencioso ao tipo de democracia que Portugal pretende preservar: uma democracia plural, imperfeita e exigente, ou um modelo progressivamente capturado por soluções autoritárias disfarçadas de vontade popular. A história recente demonstra que a normalização desta deriva fragiliza de forma duradoura a capacidade de recomposição do equilíbrio democrático.

O crescimento da extrema-direita, personificado na centralidade de André Ventura, não pode ser ignorado nem tratado como excentricidade política. O risco não está apenas no homem, mas no que ele simboliza e no que o seu discurso pode desencadear. Fechar os olhos a este fenómeno seria um equívoco político; aceitá-lo como normalidade seria uma falha histórica.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

A luta desesperada entre cinco candidatos, pela possibilidade de passagem à segunda volta das eleições, obrigou-os, numa única campanha, a ter de adaptar o discurso e, com diferença de dias, por vezes, de horas, a enveredar por narrativas diferentes e, às vezes, opostas àquelas com que, originalmente, se tinham apresentado. À partida, havia três candidatos com evidentes possibilidades de disputar o pódio – que, neste caso, tem apenas dois lugares, ouro e prata: Henrique Gouveia e Melo, Luís Marques Mendes e André Ventura.

O primeiro apresentou-se com a imagem do independente que paira acima dos partidos. Era a personalidade de estadista que abominava a pequena política. Forçado, porém, a subir à arena do contraditório, e verificando que a falta de adrenalina não o levaria a lado nenhum, escolheu o momento do debate com um dos adversários diretos – Marques Mendes – para sujar a camisola. Desde então, os ataques têm sido equivalentes, no tom e no conteúdo, aos que se costumam ensaiar nos terrenos que o almirante identificava com a tal pequena política. A mudança de tom feriu Marques Mendes, mas não favoreceu o almirante: afinal, ele era humano, o que não condizia com a construção da sua “persona”. Mais tarde, teve de olhar para um candidato outsider – Cotrim de Figueiredo. A uma semana das eleições, disparava contra o liberal: “Eu não sou um tio de Cascais!” E, também, contra António José Seguro: “Parece estar a concorrer para Miss Mundo.” Nada mal, para quem se considerava acima da pequena política…

O segundo favorito ao pódio, Marques Mendes, planeou uma campanha de estadista e de apoios sólidos junto de camadas diversas da sociedade civil e estribado numa notoriedade sólida e num discurso politicamente correto. A sua alegada “independência”, de que, alegadamente, dera provas “quando era comentador” e que até justificava o “afastamento de algumas figuras importantes da área do PSD”, era calculada para pescar votos também ao centro e, até, ao centro-esquerda. Acossado pelas acusações de Gouveia e Melo de ser um “facilitador de negócios”, teve aí o seu “antes” e o seu “depois”. Nunca mais recuperou e acabou por se defrontar com a dura realidade: a “independência”, mesmo que fosse genuína, não atraía um único voto à esquerda que tivesse outra escolha. E só servia para dispersar um eleitorado social-democrata que, unido à sua candidatura, seria suficiente para o levar à segunda volta. Quando percebeu isto, Marques Mendes travou às quatro rodas e colou-se ao Governo, para segurar os eleitores da AD – e, na segunda volta, logo se vê. Dificilmente vai a tempo.

O terceiro, André Ventura, apostou tudo na fixação do eleitorado do Chega, a 18 de maio. Com tal dispersão de votos à direita, os quase 23% seriam suficientes para chegar à segunda volta. Mas até mesmo o líder do Chega, o mais constante no discurso, operou alguns ajustamentos. Percebendo que a luta pode ser contra António José Seguro, começava a adotar um discurso mais moderado e desafiava Montenegro a esclarecer se, na segunda volta, caso Mendes seja afastado, o apoia a ele, que é da direita, ou prefere ter em Belém um socialista. (De forma calculista, Cotrim antecipou o argumento e desmontou-o, dizendo que não rejeita apoiar Ventura, e fazendo lembrar Mark Twain, que dizia ter os seus princípios, mas que podia ter outros…) Claro que Montenegro não vai responder, mas tem vontade… O primeiro-ministro prefere ter em Belém alguém que lhe cause os mínimos problemas possíveis. Esse “alguém” será qualquer um menos André Ventura, o candidato que não quer ser um jarrão nem um corta-fitas, que pede a demissão de ministras e que promete intervir em tudo…

Atendendo à elevada taxa de rejeição de André Ventura, o líder do Chega é o adversário que António José Seguro mais desejaria defrontar na segunda volta, por ser o candidato da direita que lhe dá mais hipóteses de sair vencedor

Depois, em termos de sondagens, veio a afirmação de um quarto candidato, António José Seguro, que tinha começado por recusar “rótulos” ideológicos, também ele apostado, em espelho a Marques Mendes, em pescar ao centro e ao centro-direita. Mais cedo do que o social-democrata, Seguro percebeu que só tinha de tentar segurar o seu eleitorado natural (o do PS) e apelar ao voto útil à esquerda. Nisto, encontrou uma vantagem: Mendes pode tentar assegurar o eleitorado da AD, mas, com Gouveia e Melo e Cotrim no terreno, não tem argumentos para pedir o voto útil: ao contrário de Seguro, qualquer dos adversários na sua área política poderá igualmente fazê-lo…

António José Seguro, de início, recusou mesmo esclarecer se, hoje, se situa à direita, ao centro ou à esquerda. Mas, no questionário aos candidatos, publicado nesta edição da VISÃO, já diz, sem hesitar, que é da “esquerda moderna e progressista”.

Se chegar à segunda volta, porém, Seguro terá um problema que Soares não teve: embora o seu adversário tenha de vir da sua direita, ele não pode virar o discurso ainda mais a uma “maioria sociológica de esquerda” que já não existe. Atendendo à elevada taxa de rejeição de Ventura, o líder do Chega é o adversário que deseja defrontar e aquele que lhe dá mais hipóteses de sair vencedor. Provavelmente, perderá com qualquer outro. Por isso, e fazendo figas para que seja mesmo Ventura, Seguro já começou a falar contra o “extremismo populista”. Na verdade, nos primeiros dias da última semana de campanha, já havia um pingue-pongue entre Seguro e Ventura.

Os dois principais favoritos iniciais para uma passagem à segunda volta, Gouveia e Melo e Marques Mendes, estavam, no momento do arranque para a última semana de campanha, em dificuldades. O fenómeno Cotrim de Figueiredo desafiava os eleitores a uma atitude quase salomónica: na guerra aberta entre Mendes e o almirante, nem um nem outro. Cotrim apresentava-se como o reformista que pode ajudar o Governo. E com uma boa dose de risco – e de cara de pau… –, escreveu mesmo ao primeiro-ministro a prometer-lhe colaboração. Era uma carta, não destinada a Montenegro, mas aos eleitores da AD.

Cotrim e Seguro, dois patinhos feios à partida, tornaram-se, então, dois cisnes resplandecentes. O candidato apoiado pelo PS já obrigou os inimigos internos do costismo a virem comer-lhe à mão. Na última semana de campanha, o seu objetivo era cumprir um desígnio que outros tinham pretendido: ser o candidato único da esquerda (mesmo que António Filipe, Catarina Martins e Jorge Pinto mantenham as candidaturas). Se conseguir, esta seleção que apurou o “candidato único” não foi feita por decreto da esquerda ou entendimentos formais, mas pelo “mercado”. Pelo mercado eleitoral. Ou, metáfora talvez mais elucidativa, pela teoria da evolução das espécies, de Charles Darwin: sobrevive o mais forte.

PS – Francisco Sá Carneiro foi invocado, sem pudor, por André Ventura, por Gouveia e Melo, por Cotrim de Figueiredo e por Marques Mendes (via artigo publicado pelo apoiante Cavaco Silva). Ao líder do Chega não bastou, aliás, Sá Carneiro: para ele, também Ramalho Eanes é um modelo. Tão sofregamente empenhado em colar-se a figuras míticas e popularmente consagradas, nem se lembrou de que, nas presidenciais de 1981, Sá Carneiro apoiou um candidato próprio da AD – o general Soares Carneiro – contra Eanes, então apoiado pelo PS, pelo PRD e pelo… PCP.

Palavras-chave:

As presidenciais trarão uma boa e uma má notícia: a boa é que dos cinco possíveis vencedores quatro perderão; a má é que um vencerá.

António José Seguro

O candidato que Pedro Nuno Santos foi ressuscitar do cemitério político está igual ao que sempre foi: um vazio total de ideias, um amor desenfreado pelo lugar-comum, um indivíduo que consegue dizer as horas como se estivesse a revelar o terceiro segredo de Fátima.

É o verdadeiro candidato de Luís Montenegro. Com Seguro em Belém, o primeiro-ministro teria assegurada toda e qualquer aprovação de dossiers polémicos, todas as alterações que muito bem decida promover. Nesses momentos surgiria o Presidente Seguro, com um ar muito sério, a dizer que o importante era o País e que lhe custava muito e tal, mas era inevitável. Qualquer semelhança com o que fez quando assinou com empenho as políticas que iam para lá da Troika não será coincidência.

No caso de as coisas, por alguma razão, correrem mal para o Governo, estará uma pessoa em Belém que o primeiro-ministro se encarregará de lembrar que até é do PS. Aí ninguém se recordará dos favores de Seguro.

Depois, e sobretudo, Seguro é a garantia de que a direita permanecerá por mesmo muito tempo no poder.

A esquerda e o centro-esquerda estão completamente perdidos e precisam de se reorganizar. É necessário redefinir caminhos e encontrar protagonistas.

Seguro é a imagem da indefinição e se existe alguma réstia de pensamento de esquerda nele, é o daquela envergonhada, a que há meia dúzia de anos era considerada direita moderada. Os consensos que ele diz querer são os consensos definidos pela direita que nunca esteve tanto à direita (não confundir com extrema-direita).

Imagine-se a esquerda a ter de se reorganizar tendo como principal figura António José Seguro. Mil blocos de esquerda e similares surgiriam, o PS partir-se-ia definitivamente e a direita, repito, perpetuar-se-ia no poder. Não é em vão que os principais apoiantes de Passos Coelho estão desde a primeira hora ativamente e em força na campanha de Seguro.

A política tem coisas muito irracionais e agora tem uma nova verdadeiramente extraordinária: as pessoas que votam à esquerda acharem que Seguro vai defender os ideais deles em Belém.

Marques Mendes

Não consigo perceber se será por ingenuidade ou soberba que Marques Mendes pode não ir à segunda volta.

Mendes tem elevados índices de notoriedade, o apoio do partido maioritário e nenhum tipo de anticorpo violento na opinião pública e deve ter pensado que isso lhe bastaria para ir a uma segunda volta.

Mas notoriedade não é popularidade, Mendes era um comentador, Marcelo Rebelo de Sousa um personagem. Se um comentador de direita ou esquerda é quase sempre um indiferenciado, um personagem tem uma dimensão que ultrapassa essa dicotomia primária.

Houve e há quem não perceba a diferença.

Mendes tem mesmo muita gente no seu partido que não o suporta (vide a quantidade de antigos dirigentes do PSD que apoiam declaradamente outros candidatos) e isso conta sobretudo em campanha.

Por outro lado, o povo português tem mostrado que não gosta de ter um presidente da mesma cor do Governo.

Entende-se que o antigo comentador se tenha colado às políticas do PSD: bastava ter 70% ou 80% dos eleitores dos antigos sociais-democratas para chegar com facilidade à segunda volta, mas tem sido demais. Não há rigorosamente nada que Mendes ache que o Governo faz mal, diria que nem Montenegro tem tão boa opinião do seu Executivo. O próprio eleitor PSD não quer uma espécie de colador de cartazes do partido em Belém. 

Há mais. Mendes achou que ninguém lhe perguntaria sobre a sua vida profissional. Das duas, uma: ou ele não percebeu o clima de escrutínio e demasiadas vezes de devassa que hoje se vive, apesar do comentário televisivo semanal, ou é de uma ingenuidade cândida.

O ex-líder do PSD tem uma atividade que não é ilegal, que é praticada por muita gente que tem bons contactos na área privada e no Estado, uma espécie de mediação, mas que não é bem-vista pela maioria da população. Seja como for, justa ou injustamente, o rótulo de facilitador colou-se-lhe.

Cometeu todos os erros. Não se preparou para a inevitabilidade desse ataque, fez-se de ofendido, confundiu mediação com advocacia e para fim de festa fez o disparate final: admitiu ser facilitador, mesmo dizendo que seria de consensos. Esqueceu-se de que estas palavras valem por si mesmas.

Mendes só tinha de não cometer erros e de ter uma narrativa preparada para o seu passado recente. Fez tudo mal. A culpa será exclusivamente sua se não chegar à segunda volta.

João Cotrim Figueiredo

Contra todas as expectativas, João Cotrim Figueiredo parece ser uma hipótese para a segunda volta.

O candidato libertário é a prova viva de que as redes sociais são o meio mais importante para fazer uma campanha publicitária. E tem de ser dito que ele e a sua equipa são verdadeiros especialistas. 

Como Ventura, percebeu que o importante é criar muito conteúdo. Ideias importam pouco. Isso associado a uma boa imagem foi essencial.

É um candidato de classe que conseguiu através da imagem chegar a outros mercados eleitorais.

É o maior beneficiário da debacle de Marques Mendes. Aliás, foi ele que começou a conversa do facilitador, o que em si mesmo reproduz bem o radicalismo que se instalou na direita. Imagine-se um eleitor de Cotrim que acha que vota num partido social-democrata: o candidato libertário está, como é evidente, nos antípodas dessa ideologia – entre outras coisas, não gosta do Estado social, quer privatizar tudo e mais alguma coisa, acha que o direito do trabalho serve para melhorar a economia e não para defender o trabalhador, e escolheria Milei em vez do Papa Francisco. Enfim, das duas, uma: ou quem se diz social-democrata não faz a mais pequena ideia do que é a social-democracia ou Cotrim conseguiu esconder isto tudo. Inclino-me para a primeira. O PSD deixou de ser social-democrata, e não é de agora.

Apesar do radicalismo de Cotrim, é de estarrecer que tenha admitido votar em André Ventura na segunda volta. Tinha-o como democrata e as suas propostas, apesar de radicais, não põem em causa o nosso sistema. Com esta posição admite que está mais próximo da direita não democrática do que da social-democracia.

Diga-se que assim não engana mais ninguém.

Pode haver, no entanto, um sinal aterrador: se Cotrim tiver uma votação muito elevada, sabemos que afinal a segunda volta não será um passeio para quem concorrer contra Ventura, caso o líder populista lá chegue.

Gouveia e Melo

Há uns meses, a dúvida era sobre se Gouveia e Melo ganharia à primeira ou à segunda volta. Agora há sérias dúvidas de que passe à segunda.

Os debates mostraram que não estava minimamente preparado para aquela tarefa e que a maioria das suas ideias estava colada a cuspo. Por outro lado, o ataque que fez a Marques Mendes pode ter tirado o ex-líder do PSD da corrida, mas também lhe fez mossa.

Em vez de fazer o que fez antes da campanha, ou seja, tentar mostrar que estava acima das quezílias políticas e da espuma dos dias, resolveu tentar jogar um jogo que não sabe jogar. Claro, deu-se mal.

A sua possível eleição tem muitos riscos: o de se acentuar o discurso antissistema, o de termos uma nova versão do PRD, a sua impreparação política e uma vertigem autoritária que não pode deixar ninguém descansado.

O que o vai mantendo à tona é a fragilidade dos outros candidatos. Ou seja, por muito que me custe, percebo que as pessoas pensem que se aqueles homens são o que o sistema tem para dar, mais vale trazer alguém de fora.

André Ventura

André Ventura quer destruir a nossa democracia liberal. Como tudo o que faz é com esse objetivo, resta apenas dizer que qualquer candidato deve ter como primeira função combater esse seu desejo.

Não duvido, porém, de que a grande tarefa de todos, sobretudo dos políticos nos mais importantes cargos, será a defesa da democracia dos Venturas nacionais e internacionais.

Importa dizer que os seus eleitores, convictos ou potenciais (como Cotrim de Figueiredo), toleram a vontade de destruir a democracia.

Palavras-chave:

Morrer enquanto se espera o socorro do INEM – na semana passada, em dois dias, três idosos faleceram assim – é uma situação que alarma os portugueses, deixando a população sem confiança num Serviço Nacional de Saúde que tanto nos custou a construir. Quem nos vale quando for a nossa vez? Mas piores para a nossa ansiedade do que a falha do INEM são os discursos dos responsáveis políticos. Ora vejamos.

O diretor executivo do Serviço Nacional de Saúde, Álvaro Santos Almeida, diz que os “problemas que possam ter surgido são meramente pontuais” e que o SNS “está a responder melhor do que no passado”. Além disso, garante, “não há falta de macas nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde”. As urgências não andam a desviar as macas das ambulâncias dos bombeiros e do INEM, sublinha. “O que acontece é que os doentes chegam, têm de ser triados e só depois da triagem é que são transferidos das macas dos bombeiros para as macas dos hospitais.”

Nesse tempo da triagem, com as ambulâncias retidas à porta dos hospitais à espera de deixar os doentes ou que lhes seja devolvida a maca, outras pessoas lutam pela vida sem ter quem lhes acuda. Segundo a Comissão de Trabalhadores do INEM, o idoso que morreu no Seixal depois de ter estado três horas à espera, sem que houvesse ambulâncias disponíveis, foi uma vítima desta situação, em que as urgências dos hospitais “aprisionam macas, ambulâncias e equipas”.

Mas está tudo bem (só falta o arco-íris do tempo da Covid-19), porque além de a morte ser esta coisa tão certa como os impostos e, acontece, por vezes, chatear de forma “meramente pontual”, também está muito relacionada com as perceções. E o primeiro-ministro espanta-se com aquilo a que chama “perceção do caos”, que “não é a realidade”, já que os tempos de espera no SNS “são os melhores dos últimos cinco anos”. “Eu não quero, com isto, diminuir os casos na base dos quais esta perceção é criada”, acrescentou o primeiro-ministro, segunda-feira, no Porto.

Acontece que não se trata aqui de diminuir as mortes, mas esta imagem que os responsáveis políticos tentam transmitir de que estamos melhor do que nunca esbarra com a realidade de que o SNS entra em roda-viva com o pico da gripe. São erros atrás de erros. E isso não descansa ninguém, pelo contrário, desassossega o facto de os responsáveis pela saúde pública não saberem assumir responsabilidades, enredando-se em eternas sacudidelas da água do capote. É que tem chovido muito.

“Apareça a explicar porque algumas coisas más estão a acontecer”, apelou Luís Marques Mendes, candidato presidencial. Era uma indireta muito direta à ministra da Saúde, Ana Paula Martins, que gasta boa parte da sua energia a repetir: “Não pedi nem pedirei para sair do Governo.” É o que mais tem feito desde que tomou posse.

Mais do que um estratega de relações públicas, este Governo precisa de um bom psicólogo que ensine técnicas relacionais para uma conversa saudável com o povo. Mesmo aquelas mais básicas que se aprendem nos livros de autoajuda. Amadurecer é: 1 – assumir responsabilidades; 2 – não tomar tudo como ataque pessoal; 3 – conseguir ter um diálogo sem necessidade permanente de estar sempre à defesa e, por consequência, ao ataque. Ficaríamos todos tão mais descansados…

Palavras-chave:

Realizados 30 debates, 28 dos quais em formato de frente a frente, os 11 candidatos às eleições presidenciais do próximo domingo, 18 de janeiro, e, em especial, os oito considerados mais importantes – por terem o apoio dos partidos com representação parlamentar ou, no caso de Henrique Gouveia e Melo, por ter arrancado à frente nas sondagens e reunir apoios de várias figuras de primeiro plano na política portuguesa – tiveram já oportunidades suficientes para exprimir os seus pontos de vista sobre diversos temas. Também lhes coube definir como exerceriam o seu mandato presidencial, uns revelando um pendor mais interventivo (André Ventura), outros, mais exigente (Gouveia e Melo), mais cooperante do ponto de vista institucional (Marques Mendes), mais cooperante, mas vigilante (Cotrim de Figueiredo), mais congregador (António José Seguro) ou mais disruptivo, casos de António Filipe, Catarina Martins e Jorge Pinto. Apesar de todo este palco, os candidatos ainda não tinham respondido a nenhum inquérito com as características que o questionário da VISÃO procurou abarcar, pelo que muitas das respostas são novas e várias são surpreendentes. Sobretudo, têm a virtude de revelar as diferenças de estilo e de abordagem para desafios comuns. Uma leitura fascinante.

Nota: André Ventura optou por não responder.

1

Concorda com o sistema semipresidencialista vigente?
Em caso negativo, que propostas concretas apresentaria para que fosse alterado?


António Filipe: Considero que o nosso sistema constitucional de repartição de poderes entre os diversos órgãos de soberania é adequado, incluindo no que diz respeito aos poderes do Presidente da República. As atuais competências permitem ao Presidente da República, com a legitimidade democrática própria que detém, uma ampla intervenção na vida pública, sem necessidade de ter mais poderes constitucionais ou de exorbitar os que estão consagrados. Pela minha parte, usarei esses poderes para defender o regime democrático e incentivar o cumprimento da Constituição também nos direitos sociais, laborais ou nas normas referentes à organização económica.

Catarina Martins: Concordo com o atual sistema. É equilibrado, valoriza a Assembleia da República e a representação política plural e proporcional dos portugueses e dá ao Presidente da República os poderes adequados. Confesso que acho um estranho espetáculo os candidatos que discutem alterações em vantagem própria dos seus poderes, se fossem eleitos, quando a questão só depende da iniciativa de um outro órgão de soberania, a Assembleia da República.

João Cotrim de Figueiredo: Sim, concordo. Enquanto candidato a um cargo cuja primeira responsabilidade é zelar pelo cumprimento da atual Constituição, não devo fazer quaisquer propostas de alteração concretas. Mas consideraria normal que os partidos representados na Assembleia da República refletissem, oportunamente, sobre as formas de escrutínio do próprio Presidente da República e sobre a inexistência de mecanismos eficazes em situações de manifesta incapacidade física ou psicológica do titular do cargo.

António José Seguro: Sim, concordo com o sistema semipresidencialista.

Henrique Gouveia e Melo: Concordo com o sistema existente.

Luís Marques Mendes: Sim, concordo. Acho que o sistema atual é equilibrado. Não proporia alterações. Não há hoje em Portugal, felizmente, uma querela constitucional.

Jorge Pinto: Concordo plenamente com a distribuição de poderes que a CRP atribui atualmente a cada um dos órgãos. O nosso sistema – semipresidencialista, praticamente semiparlamentar – oferece um justo equilíbrio entre os diferentes órgãos de soberania. E não tendo o PR capacidade legislativa, a sua possibilidade de dissolução da AR faz com que o nosso semipresidencialismo dê, ainda assim, um enorme poder de influência ao PR.

2

Em que circunstâncias o Presidente pode e deve sugerir, pedir ou exigir ao primeiro-ministro a demissão de um ministro? E deve tornar pública essa posição?


António Filipe: É o primeiro-ministro que escolhe os ministros e não o Presidente da República. Eventuais observações sobre a conduta dos ministros, em casos graves, terão de ser feitas nas conversas semanais com o primeiro-ministro.

Catarina Martins: É preciso olhar para a Constituição com responsabilidade, mas também com exigência. O Presidente da República não é o chefe do Governo, e respeitar essa separação é essencial. Contudo, o Presidente é o garante da credibilidade e da estabilidade das instituições. Por isso, quando me perguntam em que circunstâncias deve o Presidente intervir, a resposta tem de ser clara: sempre que a manutenção de um ministro em funções coloque em causa a confiança dos cidadãos na República ou na boa gestão da coisa pública. Não se trata de o Presidente gerir pastas ministeriais. Trata-se de sinalizar ao primeiro-ministro que a autoridade política daquele membro do Governo se esgotou, seja por incompetência grave, seja por conduta reprovável. Quanto a tornar essa posição pública: a democracia requer transparência. Embora deva sempre haver espaço para reuniões entre Belém e São Bento, baseadas numa relação de confiança institucional, se a situação for grave o suficiente para exigir uma demissão, o País tem o direito de saber que o Presidente não é indiferente, como fizeram vários presidentes anteriores. O silêncio, muitas vezes, apenas prolonga a agonia das instituições e a credibilidade de um ministério ou do Governo no seu todo.

João Cotrim de Figueiredo: Por princípio, as conversas entre o Presidente da República e o primeiro-ministro sobre a composição dos Governos e a condução política do País devem permanecer reservadas. Por isso, não tenciono fazer sugestões ou pressões sem ser no espaço institucional próprio, isto é, nas conversas regulares que terei com o primeiro-ministro. 

António José Seguro: As matérias que possam estar relacionadas com demissões de ministros devem ser tratadas entre Presidente da República e primeiro-ministro, no local próprio. Em função da gravidade da situação, decidirei sobre a publicitação da minha posição, avaliando o interesse que daí resulte para o País.

Henrique Gouveia e Melo: Não compete ao PR pedir a demissão de ministros. O primeiro-ministro é o responsável pela constituição do Governo e deve ser este, em primeiro lugar, a fazer a avaliação do trabalho do Executivo. Em privado, nas reuniões semanais ou sempre que se justifique, o PR deve transmitir ao PM as suas posições.

Luís Marques Mendes: O Presidente da República não existe para fazer, em público, avaliações de ministros. Muito menos para exigir demissões. Em privado, todas as conversas são legítimas.

Jorge Pinto: São demasiadas as situações concretas para serem listadas, mas essa situação pode dar-se quando um ministro desprestigie o País e o seu cargo por ações ou omissões. O que me parece essencial é que um PR pode e deve tratar estas situações com discrição, diretamente com o governo, podendo, caso a situação assim o justifique, tornar pública a sua posição e pressão junto do primeiro-ministro.

3

O que o levaria a levantar-se e a abandonar um debate político?

António Filipe: Não tenho medo do debate e do combate político, por mais duro que seja. Só o faria numa situação de tal forma insultuosa e impeditiva de expressar as minhas opiniões, que tornasse a minha continuação no debate insustentável. De resto, ao contrário de outros candidatos, não sou adepto de encenações artificiais. Prefiro defender claramente as minhas ideias.

Catarina Martins: A violência extrema que impossibilitasse as condições mínimas para a expressão das minhas opiniões e a incapacidade/impossibilidade por parte do moderador de impor níveis fundamentais de respeito. Felizmente, nunca me aconteceu. Não tenho problemas em debater ou em enfrentar perguntas difíceis. Houve um candidato que fugiu de um estúdio perante uma pergunta simples, e isso é prova de fraqueza.

João Cotrim de Figueiredo: Eu não imagino nenhuma situação que não pudesse ser mais adequadamente resolvida ficando e argumentando do que abandonando o debate.

António José Seguro: Na política o combate faz-se com o diálogo, não fugindo seja ao que for, nomeadamente debates.

Henrique Gouveia e Melo: Dificilmente abandonaria um debate que seja feito com elevação e urbanidade.

Luís Marques Mendes: Não me vejo a ter esse tipo de atitudes.

Jorge Pinto: Não imagino muitos cenários onde isso pudesse acontecer. Acredito que é importante estar nos debates políticos afirmando a minha posição e a minha visão para o País, independentemente de quem estiver à minha frente. Não o faria certamente perante uma pergunta de um jornalista que achasse inconveniente.

4

A qual ou quais dos seus adversários jamais compraria um carro em segunda mão?

António Filipe: Não correria o risco de comprar um carro a qualquer dos candidatos que se inserem naquilo que tenho chamado de consenso neoliberal. São demasiados anos a enganar o povo com a promessa de que é preciso que uns sejam muito ricos para os pobres viverem melhor. E como não gosto de ser enganado…

Catarina Martins: André Ventura. Nem em primeira.

João Cotrim de Figueiredo: Só compraria um carro em segunda mão a alguém com quem tivesse uma relação pessoal próxima, o que não é o caso de nenhum dos candidatos.

António José Seguro: André Ventura.

Henrique Gouveia e Melo: Prefiro não comentar.

Luís Marques Mendes: Essa pergunta remete para uma questão de confiança. E isso devem ser os eleitores a avaliar.

Jorge Pinto: A alguns nem em primeira mão, quanto mais em segunda.

5

É de esquerda/direita/não sabe/não responde?

António Filipe: Sou de esquerda, sem hesitações nem adjetivos. Ao contrário de outros candidatos, não é uma pergunta que me seja colocada com frequência, certamente porque não há dúvidas quanto à resposta.

Catarina Martins: Obviamente, de esquerda. Quero uma sociedade de liberdade e de democracia, quero respeito para o salário e a pensão, quero que se possa viver nas nossas cidades, quero cultura aberta e ciência empenhada, quero um país criativo e talentoso. Como é que não teria de ser de esquerda?

João Cotrim de Figueiredo: Sou defensor das liberdades individuais na sociedade, na política e na economia. Deixo as etiquetas do século XVIII para os outros.

António José Seguro: Sou da esquerda moderna e progressista.

Henrique Gouveia e Melo: Diria que sou do centro pragmático. Sou acima de tudo um democrata e, como muitos portugueses, dependendo do tema, posso defender posições mais à direita, por exemplo na economia, ou mais à esquerda, como nos assuntos sociais.

Luís Marques Mendes: Como sempre tenho dito, sou uma pessoa da área do centro-direita. Da direita social. Da doutrina social da Igreja. Não renego a minha identidade política. Assumo-a até com orgulho. Da mesma forma que, em Belém, agirei com isenção e independência. Como outros Presidentes fizeram no passado. E o atual tem vindo a fazer.

Jorge Pinto: Orgulhosamente de esquerda. De uma esquerda do século XXI que se soube reforçar com a visão ecologista e europeísta que o momento presente exige.

6

Casaria um(a) filho(a) seu/sua com um(a) imigrante do Bangladesh? E se fosse com um(a) imigrante brasileiro(a)?

António Filipe: A própria pergunta é absurda. O amor não escolhe nacionalidades, etnias, origens sociais ou orientações sexuais. O amor escolhe pessoas e todas têm o mesmo direito à dignidade e a procurar a sua felicidade da forma que entenderem.

Catarina Martins: Eu não casarei as minhas filhas. Elas é que se casarão, se quiserem, com quem quiserem.

João Cotrim de Figueiredo: Não sou eu que casei/casarei os meus filhos, são eles que decidem livremente com quem querem viver ou casar.

António José Seguro: Quero que os meus filhos sejam felizes, são eles que fazem as suas escolhas.

Henrique Gouveia e Melo: Já fui imigrante noutro país (no Brasil). Sei o que são as dificuldades de quem vive noutro país. Não tenho preconceitos desse género.

Luís Marques Mendes: Na minha família, essas decisões são tomadas com total liberdade.

Jorge Pinto: Nunca tentaria influenciar de qualquer modo a pessoa com quem o meu filho desejasse casar, muito menos tendo em conta o seu país de origem.

7

Se pudesse mexer na Constituição, qual a primeira norma que mudaria (responda apenas uma).

António Filipe: A Constituição não precisa de ser revista, mas sim de ser cumprida e defendida em toda a sua dimensão. Aliás, o PR não tem, nem deve ter, esse poder. E, da minha parte, o que posso assegurar é um compromisso sem qualquer reserva sobre o texto constitucional. É claro que após sete revisões constitucionais foram introduzidos aspetos que criam dificuldades ao País. Por exemplo, a obrigação de referendo prévio para a concretização da regionalização, introduzida na revisão de 1997, aliás, com a participação direta e convergente dos candidatos Marques Mendes e António José Seguro. É mais uma proximidade entre os dois, que se verifica em tantas matérias. Trata-se de uma norma que foi introduzida para dificultar ainda mais a criação das regiões administrativas que tanta falta fazem para uma verdadeira descentralização e para aproximar o poder democrático das pessoas e do território.

Catarina Martins: Mais do que mudar um artigo, é preciso que se cumpra um dos principais: o direito à habitação, consagrado no artigo 65º.

João Cotrim de Figueiredo: Enquanto candidato a um cargo cuja primeira responsabilidade é zelar pelo cumprimento da atual Constituição, não devo fazer quaisquer propostas de alteração concretas. São, no entanto, conhecidas as alterações que defendi durante o mais recente processo de revisão constitucional que teve lugar em 2023.

António José Seguro: Não é necessário rever a Constituição.

Henrique Gouveia e Melo: Não vejo que haja necessidade de mudar a Constituição.

Luís Marques Mendes: Essa é matéria dos partidos. Não dos Presidentes. Não me vou imiscuir no círculo de responsabilidade dos outros. Acresce que não considero que uma revisão da Constituição deva ser uma prioridade.

Jorge Pinto: Criação do círculo nacional de compensação.

8

Voto a partir dos 16 anos: sim ou não?

António Filipe: Não me parece que seja essa a solução para aumentar a participação cívica e eleitoral. O que é indispensável é que a sociedade em geral e o ensino em particular se orientem para formar cidadãos lúcidos, interventivos e com espírito crítico. Precisamos, e muito, é de valorizar e garantir os direitos da juventude. Essa é a grande receita para uma maior participação política e eleitoral.

Catarina Martins: Sim.

João Cotrim de Figueiredo: Tendencialmente, sim, acompanhado com a harmonização da idade charneira para o exercício de um conjunto de direitos cívicos.

António José Seguro: Sempre defendi igualdade de direitos e deveres entre a idade para a imputação criminal e o direito de voto.

Henrique Gouveia e Melo: Não. A idade legal está bem como está.

Luís Marques Mendes: Considero que não é necessário alterar a idade mínima para votar.

Jorge Pinto: Desde que asseguradas as condições de acesso à informação que permitisse um voto informado, sim.

9

Se fizéssemos um jantar na Rua do Benformoso (Martim Moniz, Lisboa) aparecia?

António Filipe: Sem dúvida que sim.

Catarina Martins: Já jantei, e bem, na Rua do Benformoso. Tem vários bons restaurantes.

João Cotrim de Figueiredo: Compareceria em qualquer rua deste país que é o nosso.

António José Seguro: Claro.

Henrique Gouveia e Melo: Claro.

Luís Marques Mendes: Se fosse convidado, naturalmente que comparecia.

Jorge Pinto: Já lá jantei algumas vezes e comi sempre bem. Um Presidente da República pode e deve jantar em qualquer rua do País.

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Deve haver mais flexibilidade nas regras ambientais, para facilitar a construção, em mais terrenos e territórios, de habitação a custos acessíveis?

António Filipe: Não é necessário nem correto. A resolução do problema da habitação não deve ser feita à custa da não preservação de regras ambientais, como a proteção da REN e da RAN. De resto, essa é uma falsa questão, porque há, na esmagadora maioria dos concelhos, muito solo urbano disponível que não está a ser usado para construir habitação; salvo alguma situação excecional, não é preciso ir buscar mais terrenos ao solo rural ou protegido. Para combater a especulação nos preços dos solos são outras as medidas necessárias, designadamente mais oferta pública na habitação e regulação das rendas.

Catarina Martins: É uma falsa escolha. As regras ambientais existem para nos proteger. Portugal tem um problema de usos para a habitação, não tem só um problema de pouca construção a custos acessíveis. A relação entre o número de casas para a habitação tem-se mantido estável. O que tem aumentado é o número de casas em alojamento local, em regime de vistos gold, ou degradadas ou simplesmente desocupadas. A construção e a reabilitação têm sido para o segmento do luxo, com o apoio dos vistos gold e regimes de benefícios fiscais, e é preciso pôr as prioridades certas: rendas acessíveis e parque público para garantir casas para os jovens.

João Cotrim de Figueiredo: Deve haver mais flexibilidade em todas as regras, desde que salvaguardem a transparência, não promovam a corrupção, aliviem os contribuintes – cidadãos e empresas – de impostos e taxas e, no final, sirvam um propósito que todos consideramos fundamental: aumentar a oferta de habitação, baixar preços das casas e resolver o enorme problema que durante anos e anos ignorámos.

António José Seguro: Ambiente e habitação têm de responder ao mesmo objetivo: a qualidade de vida das pessoas.

Henrique Gouveia e Melo: As regras ambientais têm de ser cumpridas. O que é preciso é agilizar e desburocratizar as regras e os procedimentos de licenciamento para assegurar construção mais rápida.

Luís Marques Mendes: Essa é uma matéria dos governos. Não de um Presidente da República. Mas, em tese, não me parece que seja preciso flexibilizar as regras ambientais para combater a crise da habitação.

Jorge Pinto: Proteger o que faz o nosso território único é proteger o nosso país. Enfraquecer as leis de proteção ambiental – que foram criadas com um propósito – é um mau serviço que prestamos ao País. Precisamos de habitação a preço acessível e de qualidade, mas isso não pode passar pelo enfraquecimento das regras ambientais.

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Costuma encomendar refeições para entrega em casa?

António Filipe: Não tenho esse hábito.

Catarina Martins: Raramente. Gosto de cozinhar. Lá em casa, gostamos todos.

João Cotrim de Figueiredo: Sim.

António José Seguro: Sim, quando é necessário, mas gosto de cozinhar.

Henrique Gouveia e Melo: Às vezes, quando a preguiça bate à porta, encomendo jantar.

Luís Marques Mendes: Sim. Acontece a cada passo.

Jorge Pinto: Fi-lo apenas uma vez na vida, em 2015. Prefiro a proximidade, o contacto e o diálogo e não um modelo de consumo assente na distância e na impessoalidade.

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Perante o aumento dos combustíveis, o ISP e outros impostos deviam acabar definitivamente?

António Filipe: É importante baixar o peso dos impostos nos combustíveis, desde logo acabando com a dupla tributação do IVA sobre o ISP. Mas o custo dos combustíveis é também a consequência da política de maximização do lucro das grandes empresas do setor. Assistimos a anos sucessivos de lucros de mais de mil milhões de euros da GALP, em parte à custa da população e das empresas. Fosse a GALP ainda pública e o Estado teria outros instrumentos para regular este mercado, ajudar as famílias e a economia.

Catarina Martins: Não, mas o dinheiro dos nossos impostos devia ser direcionado para investir nas redes de transportes coletivos e na ferrovia. Seria um fator de qualidade de vida nas cidades, de diminuição da poluição e de apoio aos rendimentos das famílias. Basta ver o impacto altamente positivo que teve a política do passe de transportes que tive o orgulho de ajudar a aprovar e implementar.

João Cotrim de Figueiredo: Sim. Não pelo aumento em si, mas porque o ISP é um imposto excessivo, que penaliza indiscriminadamente os ricos e os pobres, que não atende a quem precisa do carro para trabalhar e que duplica a taxação já existente através do ISV, do IUC e das portagens.

António José Seguro: É matéria da competência do Governo.

Henrique Gouveia e Melo: São matérias da exclusiva competência da AR e/ou do Governo.

Luís Marques Mendes: Isso parece-me impossível. Mais do domínio da ficção científica. Ninguém gosta de pagar impostos, mas eles são uma inevitabilidade. Devem é ser equilibrados e não exagerados.

Jorge Pinto: O que devemos assegurar é que a urgente transição energética é feita com e para todos, protegendo os mais frágeis. Porque só faz sentido falar de justiça ambiental se falarmos também de justiça social.

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Pode dar um exemplo, que conheça, de um grande imóvel do Estado que pudesse ser convertido em habitação acessível ou residência estudantil?

António Filipe: São bem conhecidos os casos do antigo edifício do Ministério da Educação, do Quartel da Graça, da antiga sede do Conselho de Ministros, em Lisboa, ou de vários imóveis colocados à venda na cidade do Porto. Com um parque habitacional público exíguo (2%), alienar edifícios públicos capazes de albergar habitação ou alojamento universitário é negar este direito a muitas pessoas e fomentar a especulação imobiliária.

Catarina Martins: Os dez prédios na cidade de Lisboa e os seis no distrito do Porto que o Governo pôs à venda em outubro devem ser reconvertidos para arrendamento a preços acessíveis.

João Cotrim de Figueiredo: O antigo edifício da Presidência do Conselho de Ministros.

António José Seguro: O Estado deve gerir o seu património em função do interesse do País e dos portugueses. Face ao flagelo que é o acesso à habitação, sem dúvida que todas as possibilidades devem ser avaliadas.

Henrique Gouveia e Melo: Há vários exemplos de imóveis do Estado que podiam ter esse fim.

Luís Marques Mendes: Não conheço. Mas deve haver vários.

Jorge Pinto: Quartel da Graça, em Lisboa.

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Vai seguir o modelo (mesmo que com outro nome) de Presidências Abertas? E aceitará tirar selfies com os seus concidadãos?

António Filipe: A proximidade aos cidadãos é um elemento importante da função de Presidente da República. Promoverei certamente iniciativas descentralizadas em todo o território nacional, junto das comunidades portuguesas, ou sobre temáticas relevantes. As “selfies” estão na moda, já tirei muitas nesta campanha. Mas esta proximidade tem de ser mais do que simpatia. Quero ser um Presidente da República que os portugueses vejam como alguém que está do seu lado, alertando para os problemas da população e do País e intervindo, no quadro das suas competências, para que eles se resolvam. Essa é a melhor proximidade que um Presidente da República pode ter.

Catarina Martins: Já tive oportunidade de elogiar o modelo das Presidências Abertas e defendi a ideia de presidentes com causas, como foram Mário Soares (com a habitação) ou Jorge Sampaio (com as políticas sociais).

João Cotrim de Figueiredo: Posso garantir que não estarei fechado em Lisboa e que percorrerei todo o País em contacto direto com todos os portugueses. O formato e a designação desses contactos serão os que me parecerem mais adequados. Quanto às selfies, com certeza que aceitarei, embora note uma crescente importância dos vídeos.

António José Seguro: Farei Presidências Abertas de acordo com o modelo que definirei. Gosto de ser fotografado com os portugueses.

Henrique Gouveia e Melo: Acho importante conhecer o território e ouvir de perto os problemas dos portugueses. Não recuso uma fotografia.

Luís Marques Mendes: Sim. Vou fazer Presidências Abertas no País. Como outros já fizeram. Mas a novidade é que vou também, pela primeira vez, fazer Presidências Abertas no estrangeiro, junto das comunidades portuguesas. Portugal não é um mero território. É uma Nação espalhada pelo Mundo.

Jorge Pinto: Estar fora de Belém é uma obrigação do PR. Mas estar de verdade, com tempo, com pausa, com a capacidade de ouvir realmente os anseios das pessoas. Tirarei selfies com todo o gosto, mas quero sobretudo ouvi-los.

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O PR deve aceitar todos os convites para visitar Estados estrangeiros ou, atendendo aos custos, deve permanecer no Palácio de Belém?

António Filipe: O Presidente da República deve fazer as visitas a países estrangeiros que garantam o reforço das ligações às comunidades portuguesas emigradas e o fortalecimento e a diversificação das relações de amizade e cooperação com outros países, em coordenação com a política externa do Governo.

Catarina Martins: As visitas de Estado devem ser avaliadas em função da sua importância diplomática. Não há nada que obrigue a Presidente da República a aceitar todos os convites. O critério deve ser político e de interesse nacional.

João Cotrim de Figueiredo: O Presidente da República deve definir a sua agenda internacional de acordo com diversos critérios, como a relação histórica, política, diplomática, económica e cultural com os países em causa, a presença de comunidades portuguesas nesses países, os nossos interesses geoestratégicos (e/ou das organizações em que nos inserimos). O Presidente da República tem de ter como prioridade total defender os interesses do Estado português e do povo português. Não viajar, cedendo a discursos demagógicos e sacrificando os nossos interesses, custar-nos-ia seguramente muito mais. Quem não viajava para poupar era o Dr. Salazar.

António José Seguro: O Presidente da República deve estar onde é necessário para defender o interesse nacional e os portugueses, respeitando o orçamento da Presidência. “Orgulhosamente sós” comigo não voltará.

Henrique Gouveia e Melo: A Presidência da República deve avaliar todos os convites e aceitar aqueles em função dos interesses estratégicos, económicos ou diplomáticos de Portugal.

Luís Marques Mendes: Só caso a caso é que se pode avaliar e decidir.

Jorge Pinto: Sempre que possível, deve aceitar esses convites, de modo também a concretizar uma das obrigações do PR, a da diplomacia e de reforço de laços entre países.

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Admite habitar, permanente ou esporadicamente, no Palácio de Belém?

António Filipe: Só quando razões específicas do exercício do cargo a isso obriguem

Catarina Martins: Esporadicamente, quando e se for útil para o exercício das funções.

João Cotrim de Figueiredo: Não tenciono residir permanentemente no Palácio de Belém.

António José Seguro: Viverei na minha casa de família e pernoitarei no Palácio de Belém sempre que necessário em função do trabalho que tiver.

Henrique Gouveia e Melo: Sim, pretendo morar no Palácio de Belém.

Luís Marques Mendes: Não pondero essa hipótese. Quero viver onde sempre vivi. Na minha casa.

Jorge Pinto: Excetuando situações extremas difíceis de antecipar e que poderiam levar-me a estar durante um período de tempo no Palácio para facilitar o trabalho expectável por parte do PR, não habitaria em Belém.

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A imigração é necessária para a economia e a natalidade ou os portugueses devem aceitar todo o tipo de trabalhos e fazer mais filhos?

António Filipe: A questão de fundo é a de garantir a todos os trabalhadores, independentemente da sua nacionalidade, salários dignos e o respeito pelos seus direitos. E não deixo também de questionar a tentativa de imposição de um modelo económico assente em setores de baixo valor acrescentado e mão de obra intensiva e barata, que leva muitos portugueses a sair do País, ao mesmo tempo que assistimos à pressão de vários setores para importar força de trabalho. Quero ainda sublinhar que a população imigrante dá hoje um contributo fundamental para a nossa economia, para a sustentabilidade da Segurança Social e é também um fator de reequilíbrio demográfico. Também por isso é importante assegurar mecanismos viáveis de reagrupamento familiar. Contudo, há necessidade de se promover o aumento da natalidade entre a população nacional, sobretudo assegurando melhores salários, acesso à habitação, à saúde e à educação, além de garantir os direitos das mães e dos pais.

Catarina Martins: Nem os portugueses, nem os imigrantes devem ter de aceitar trabalhar em condições indignas. É, sim, responsabilidade dos governos desenvolver um modelo económico que possa gerar bom trabalho. A Presidente da República deve contribuir para apoiar essas políticas. Se se tem trazido imigrantes desesperados para trabalhar em condições miseráveis, é porque a política económica já falhou. Quanto à política de natalidade, a decisão de ter filhos é de responsabilidade dos pais e não é pelos apelos de um Governo e de uma Presidente que as pessoas a irão tomar. É preciso, sim, atacar a crise da habitação, criar bom emprego, criar uma rede pública e universal de creches e um serviço nacional de cuidados. Se resolvermos estes problemas, não teremos nenhum problema de natalidade.

João Cotrim de Figueiredo: Portugal deve ter uma política humanista, mas também criteriosa de imigração. Não podemos cair novamente no facilitismo das políticas do PS, que tiveram na manifestação de interesse e na extinção do SEF dois exemplos de descontrolo, mas não podemos deixar de encarar com realismo o facto de que temos um problema demográfico e de que a natalidade tem de ser uma prioridade de todos os líderes políticos, com o Presidente da República à cabeça.

António José Seguro: Imigração legal (controlada, bem acolhida e integrada) é necessária para o funcionamento da nossa economia. O rejuvenescimento será a causa do segundo ano do meu mandato.

Henrique Gouveia e Melo: A imigração tem um papel relevante, mas deve ser devidamente regulada, até para garantir a devida integração dos imigrantes.

Luís Marques Mendes: A imigração é necessária face ao novo declínio demográfico; é uma oportunidade essencial para a nossa economia; deve ser regulada com equilíbrio; o apoio à integração deve ser reforçado (sobretudo na área da educação); e o discurso sobre a matéria deve ser um discurso humanista. Os imigrantes são pessoas, não são números nem objetos.

Jorge Pinto: A imigração e o digno acolhimento e a integração de quem escolhe o nosso país para fazer vida é importante e também uma missão de quem quer ser Presidente da República Portuguesa.

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O direito à greve deve ser restringido, atendendo aos transtornos que certas greves (por exemplo, transporte de matérias perigosas, transportes públicos, exames escolares, cirurgias e consultas adiadas…) provocam à população?

António Filipe: Não. A Constituição e a Lei já determinam a existência de serviços mínimos para garantir necessidades sociais impreteríveis e a segurança de equipamentos e instalações. O direito à greve é um elemento estruturante do nosso regime democrático, dado que a Constituição consagra os direitos dos trabalhadores como direitos fundamentais. O direito à greve é um último recurso dos trabalhadores e nunca é usado sem forte justificação. As greves têm impactos, é essa a sua natureza. Querer alargar substancialmente e à revelia da Constituição os serviços mínimos é na realidade pretender esvaziar o direito à greve. Quem se afirma preocupado com os efeitos da greve, como aconteceu na recente greve geral com os vários candidatos presidenciais incluídos naquilo a que tenho chamado “consenso neoliberal”, devia antes preocupar-se em eliminar os fatores que a causam. Foi o que fiz: estive ao lado dos trabalhadores exigindo a retirada imediata pelo Governo do pacote laboral.

Catarina Martins: Qualquer greve tem impactos porque o trabalho é o que faz mexer o nosso país. As greves existem também para nos lembrar que sem o trabalho nada funciona. Em vez de acrescentar ainda mais restrições a um direito que está na origem de todos os outros direitos do trabalho, é preciso obrigar à retirada do pacote laboral que quer alinhar o nosso país com os piores regimes laborais do planeta.

João Cotrim de Figueiredo: O direito à greve está consagrado constitucionalmente. No entanto, toda e qualquer greve deve acautelar que outros direitos relevantes – como o direito a trabalhar ou a assistência a crianças e idosos – não sejam atropelados. Como está previsto no anteprojeto da proposta de alteração ao Código do Trabalho, concordo com o estabelecimento de serviços mínimos em hospitais, creches, lares de idosos, entre outros serviços fundamentais.

António José Seguro: Não.

Henrique Gouveia e Melo: O Direito à greve é um direito consagrado na Constituição e deve ser preservado.

Luís Marques Mendes: Não. O direito à greve não deve ser restringido. Mas o abuso do direito à greve deve ser combatido. São realidades distintas.

Jorge Pinto: Não. O direito à greve é um dos principais direitos dos trabalhadores portugueses e o quadro legal português é já equilibrado no sentido de assegurar o funcionamento dos serviços essenciais.

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Os polícias e os militares devem poder fazer greve?

António Filipe: Os militares não. A sua função específica não comporta essa opção, sem prejuízo da existência de formas de associativismo militar de carácter não sindical, com um relevante papel no diálogo com o Governo e as chefias das Forças Armadas. Os polícias devem ter direito à greve, o que de resto acontece com forças policiais em vários países da Europa, e em Portugal com outras forças de segurança, como é o caso dos guardas prisionais. Terão de ser salvaguardadas naturalmente as especificidades em matéria de serviços mínimos que as forças de segurança sempre terão de assegurar. Neste momento, sendo a GNR uma força militarizada, o seu estatuto é equiparado ao das Forças Armadas. Considero que a GNR deve ter um estatuto civil, fundindo-se ou não com a PSP numa força única, o que já permitiria o acesso a direitos laborais mais amplos.

Catarina Martins: Portugal tem um quadro legal que enquadra os direitos sindicais e socioprofissionais das forças de segurança e dos militares que está estabilizado e não me parece carecer de alterações profundas. A verdadeira prioridade política deve ser a valorização concreta destes profissionais e o respeito pelas suas estruturas representativas. Digo isto com a responsabilidade de quem visitou esquadras da PSP, postos da GNR, estabelecimentos prisionais e instalações das Forças Armadas onde as condições de trabalho estão muito longe de cumprir os mínimos legais exigidos. Não é aceitável que o Estado continue a pedir o cumprimento da missão apenas com base no amor à farda que estes homens e mulheres demonstram todos os dias. É imperioso garantir que esse compromisso é acompanhado por carreiras atrativas, condições de trabalho e reformas justas e a devida valorização remuneratória.

João Cotrim de Figueiredo: Não. Podem associar-se livremente e manifestar-se, ao abrigo da legislação aplicável, mas os militares e os profissionais das forças de segurança não devem poder fazer greve.

António José Seguro: A Constituição é clara.

Henrique Gouveia e Melo: O direito à greve é constitucionalmente inalienável, mas no caso das forças de segurança e das Forças Armadas devemos ter em conta a especificidade das funções destes profissionais e as circunstâncias sociais em que o País se encontre em cada caso.

Luís Marques Mendes: Acho que não. O regime em vigor parece-me correto.

Jorge Pinto: Embora concorde que não devem poder fazer parte de partidos políticos, acredito que devem ter formas de protesto regulamentadas, que podem (ou não) passar por uma forma necessariamente restritiva de greve.

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Compete ao PR declarar a guerra e fazer a paz. Se a NATO entrar em conflito com algum opositor que agrida um dos seus membros, admite declarar guerra?

António Filipe: A guerra, como bem sabe o Povo português com a traumática experiência de 13 anos de Guerra Colonial, é algo que deve ser evitado a todo o custo. Preocupa-me, aliás, a ligeireza com que hoje se fala desse assunto, ou como essa hipótese é levantada. Penso que Portugal deverá ter uma voz própria nas instituições em que participa norteada por relações de cooperação e desenvolvimento mútuo e em particular de paz e desanuviamento dos conflitos. Quero sublinhar que a declaração de guerra não pode ser determinada por um qualquer órgão de uma organização supranacional, nem por um Estado estrangeiro; é uma decisão soberana que, segundo a Constituição, só deve acontecer “em caso de agressão efetiva ou iminente” ao nosso país.

Catarina Martins: A entrada em guerra exige unanimidade na NATO. Para já, as ameaças que estão em cima da mesa são as de Trump, que anunciou que poderia invadir o Canadá e a Gronelândia, região autónoma da Dinamarca, que são países da NATO, e dificilmente dariam a sua anuência. Por isso, em vez de especular sobre cenários, tratemos do que é real: é preciso acabar a guerra da Ucrânia, com a retirada dos invasores e a criação de condições para uma paz estável; é preciso acabar com o genocídio em Gaza, para o qual a Casa Branca e muitos governos europeus têm contribuído. Para isso, bater-me-ei para que os Estados-membros da União Europeia reforcem a sua colaboração no âmbito de políticas de defesa soberanas, autónomas em relação a potências terceiras, incluindo um compromisso de socorro mútuo. E para que valorizem uma diplomacia para a paz em detrimento de uma corrida ao armamento que, como sabemos da história, desemboca invariavelmente em mais guerras.

João Cotrim de Figueiredo: Se pretendemos que os nossos aliados cumpram os seus compromissos e nos apoiem em caso de ataque a Portugal, devemos estar disponíveis para cumprir os nossos próprios compromissos no caso de esses aliados serem agredidos por Estados terceiros.

António José Seguro: Desejo seriamente nunca ser confrontado com essa situação. Se a situação o exigir, ouvirei o Governo, o Parlamento, os partidos políticos e as chefias militares para tomar a decisão e assumirei todas as minhas responsabilidades.

Henrique Gouveia e Melo: Portugal é membro da NATO e por isso deverá cumprir sempre as suas obrigações enquanto membro da Aliança Atlântica.

Luís Marques Mendes: Não me pronuncio em público sobre cenários. Um Presidente da República não deve ser, em público, analista ou comentador. Isso só geraria ruído desnecessário. Quanto ao mais, importa reafirmar os princípios: somos membros da NATO, com tudo o que isso representa de direitos e deveres, oportunidades e responsabilidades.

Jorge Pinto: O ato de declarar guerra nos tratados de defesa, seja com a NATO, seja a nível europeu, prevê cláusulas que podem ser ativadas e que obrigariam Portugal a defender um seu aliado em caso de agressão. Outra questão, muito diferente, seria um PR autorizar o envio de tropas portuguesas para uma agressão militar contrária ao direito internacional; nesse caso, enquanto PR, não autorizaria o envio de militares portugueses.

O combate estava agendado, durou duas horas e nenhum dos lados admite ter levado uma sova das antigas. A vantagem estava do lado dos Estados Unidos: o ringue era a Casa Branca e o chefe das apostas já tinha avisado que não aceitava nada menos do que a anexação da Gronelândia.

Os adversários, dinamarquês e gronelandês, também eram fortes, mas encontravam-se em clara desvantagem. Desde logo pela localização, acrescida da intimidação protocolar. Uma coisa seria falar apenas com Marco Rubio e a sua equipa; outra, bem diferente, era lidar com JD Vance e a sua histeria política. Parecendo que não, foi enviado para morder. Como mordeu Zelensky, na Sala Oval.

Os pormenores do confronto conhecer-se-ão, mais dia menos dia, mas o pior ainda estará para vir, como disse a primeira-ministra da Dinamarca na conferência da Impresa, em Copenhaga, ao lado do seu homólogo da Gronelândia — que Trump não sabe quem é nem ao que vem. «Quem era aquele miúdo mal vestido?», terá perguntado a Susan Wiles.

A ameaça de Trump é para “levar a sério”, avisou o senhor Macron. Tarde e a más horas. O combate já tinha começado. A confusão é tamanha na cabeça do presidente americano que já convém elencá-la, para não se perder de vista: agora é a Gronelândia e o Irão, mais o governo de transição de Gaza; sem esquecer a Venezuela em terra de ninguém; e depois vêm Cuba, a Colômbia e o México. E ainda estamos a meio de Janeiro de 2026 e já quer meter-se com 31 Estados membros da NATO.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Eleger um Presidente da República é um pouco como escolher um vinho. Há quem jogue pelo seguro, quem se deixe seduzir (ou repelir) por rótulos e quem vá sobretudo pelos nomes que reconhece. Depois, já se sabe, alguns candidatos envelhecem melhor do que outros. Também é assim com os vinhos. Neste exercício queremos ajudá-lo a escolher melhor através da enofilia. Para isso associámos cada candidato a uma marca de vinhos fácil de encontrar nos supermercados portugueses. Avaliámos o seu aspeto, o seu aroma e as qualidades que os distinguem dos outros. O resultado pode não ser muito científico, mas, sejamos francos, a enologia também não é.

Marques Mendes
Mateus Rosé

Nos anos 50 do século passado, Mateus Rosé conquistou a Grã-Bretanha e, a partir dela, o mundo. Foi o vinho da rainha Isabel II, de Jimi Hendrix e de Ace Frehley, o guitarrista dos Kiss. Inebriou Saddam Hussein e um cortejo de ditadores africanos. Inspirou Steve Jobs e Danny Blanchflower, o capitão do Tottenham. O próprio Frank Borman, o primeiro astronauta a orbitar a Lua, lamentou não ter com ele uma garrafa de Mateus Rosé para o ajudar a enfrentar a solidão do cosmos.

Não é esse fulgor cosmopolita que o recomenda para um brinde a Luís Marques Mendes. O advogado de Azurém teve uma carreira mais chã, subindo com esforço os degraus da hierarquia partidária até alcançar, não as alturas de um satélite, mas a dignidade de dois ministérios. E apesar das aparências, ele e o famoso rosé português têm várias coisas em comum. Desde logo, toda a gente os conhece, embora nem todos os apreciem. Depois há a estatura: o vinho da Casa Ferreirinha vem numa garrafa mais baixa, um pouco bojuda, que se distingue no linear. Finalmente, ninguém nega que é um vinho bem feito, que chega aonde quer e fica tão bem num jantar de negócios como numa cerimónia oficial.

Henrique Gouveia e Melo
Conde d’Ervideira Vinho da Água, Tinto

O produtor assegura que este tinto alentejano, de taninos firmes e aroma vincado, é capaz de “impressionar e apaixonar”. Não seremos nós a desmenti-lo. Tais atributos já fariam um belo pairing com o almirante Gouveia e Melo. Mas a razão que nos levou a elegê-lo é outra: após um estágio em barricas de carvalho francês, o Vinho da Água foi submergido na barragem do Alqueva, onde amadureceu a 30 metros de profundidade, cerca de 18 meses, talvez para meditar no destino glorioso que o aguarda à mesa dos portugueses. Quem admira o vinho diz que tem complexidade e persistência. Quem admira o candidato apressa-se a concordar. Mas, atenção: com 14,5º de álcool, é possível que deixe alguns portugueses mareados.

António José Seguro
Papa-Figos, tinto

Na boca tem uma entrada suave, com taninos redondos, bem domesticados. No nariz há fruta madura, madeira discreta. O corpo é médio. Evolui sem grandes surpresas até ao final, que nos parece curto, mas não desagradável. É um vinho que não compromete, sem arestas, equilibrado e consensual, pensado para agradar a um público vasto que gosta pouco de surpresas. Sim, falamos do Papa-Figos. Uma espécie de lugar-comum dos vivos durienses. Quanto ao candidato, digamos que não desmerece.

António Filipe
Adega Cooperativa de Borba, Grande Reserva, tinto

Para António Filipe escolhemos o vinho de uma adega cooperativa alentejana. A garrafa que provámos já tinha alguma evolução. No nariz, o Borba Grande Reserva apresenta aromas clássicos a fruta preta, madura, notas de terra, algum couro. Na boca, é sólido, com taninos já arredondados pelo tempo. A acidez está bem integrada e o conjunto privilegia a robustez. Evolui sem incoerências e desemboca num final seco, persistente. Muito persistente. É um vinho de mesa clássico, que pede comida, conversa e tempo. Fruto do trabalho coletivo, foi feito para resistir a refeições longas e às modas. Não sabemos se terá muitos adeptos hoje em dia, mas o povo, diz quem o conhece, é quem mais ordena.

João Cotrim de Figueiredo 
M de Minuty, Rosé

O mais poliglota dos candidatos merece naturalmente um vinho estrangeiro, tão importado como a sua ideologia. Este rosé provençal exibe todas as qualidades instagramáveis de cor (salmão), aroma (frutado) e joie de vivre em geral que seriam de esperar num sunset cheio de gente bonita ou num rooftop estival depois de uma partida de padel. Muitos enófilos dizem que é fresco, e bem parece. Os mais sofisticados chamam-lhe uma “cuvée simples, mas sedutora”. Acompanha aperitivos ou refeições ligeiras, peixe ou marisco, e é visto frequentemente com ostras. No fundo, vai bem com qualquer coisa desde que haja dinheiro para a pagar. 

Catarina Martins
Menina d’Uva, Branco

Há quem jure que o habitat natural de Catarina Martins é a pequena área da freguesia de Arroios, em Lisboa, frequentada pela esquerda caviar e pelos militantes do Bloco. Mas nós gostamos mais de a imaginar nos confins do Planalto Mirandês a percorrer os campos com Aline Domingues, a “menina” que dá o nome a este vinho. A jovem, filha de imigrantes, veio de Paris para se instalar na terra ancestral, e foi nela que se dedicou a defrontar o neoliberalismo em vinhos de baixa intervenção, muito artesanais. O perfil do seu branco é delicado, mas cheio de energia. Um pouco como a candidata. Feito com um blend de Malvasia, Bastardo-Branco e outras castas que por lá andavam, é pisado a pé e fermentado em cubas de cimento, escapando às tentações burguesas do carvalho francês que abundam ali ao lado, no Douro. Com um aroma contido, é ácido, complexo, e muito bebível, como se quer na sua terra natal e na altermundialista freguesia de Arroios.

Jorge Pinto
“Espumante” Champomy

Para o candidato do Livre ponderámos várias alternativas. Um Beaujolais Nouveau? Foi rejeitado por ser produto tipicamente industrial, que não honra a nobre região de onde provém. Um Crianza? Muito clássico e amadeirado. Por fim, a nossa escolha recaiu no Champomy, o espumante para os mais jovens que não tem álcool, mas que os faz sentirem-se adultos e integrados na festa. Ora, sendo Jorge Pinto maior de idade, ou não seria candidato (honi soit…), trata-se, acima de tudo, de mais um jovem na política: alguém que nos promete celebração, inclusão, leveza sem ressacas. Um pouco efervescente, tem inegavelmente algum sumo (de maçã), muita doçura e agrada principalmente à pequenada, já que para o mais lhe falta ainda a fermentação.

André Ventura
Que se Foda, Branco, 2020

Os portugueses que apreciam este vinho de nome evocativo asseguram que é “do crl”. Supomos que os admiradores de André Ventura o elogiem com igual prosaísmo e afabilidade. Mas este é apenas um dos elementos comuns entre o líder do Chega e o néctar que escolhemos para o representar. Tal como o partido que Ventura fundou, o Que se Foda tem pouco mais de meia década. Tal como ele, deu que falar nas redes sociais. E não, acreditamos que não foi a delicadeza do seu aroma nem a complexidade que o tornaram famoso. Numa plataforma de enófilos, há quem diga que possui uma “acidez estranha”, mas está por fazer o veredicto popular. Optamos pelo branco, porque é a cor preferida do candidato. Ao contrário dele, no entanto, sugerimos que se combine com pratos de cozinha étnica, como comida nepalesa ou de outras regiões do Indostão. Mas cautela: ao preço que custa, é um vinho que se paga caro.