Se “AI slop” foi a palavra do ano em 2025 (condensando em quatro letras a submersão da internet pelo monte de tralha gerada por motores de busca como o ChatGPT), 2026, em menos de 30 dias, já tem um forte candidato ao prémio: “stablecoins”.
A palavra tornou-se familiar em 2025, quando Trump publicou o GENIUS Act. Posicionando-se como inovadora, a nova legislação regula um tipo de criptomoedas, cujo valor é contragarantido por dólares e títulos de dívida pública. Ou seja, o emitente deve assegurar que o valor entregue aquando da emissão da stablecoin é investido em depósitos bancários em dólares ou dívida pública emitida pelos EUA – os famosos T-Bills (Treasury Bills). Para a Administração Trump é uma forma simples de assegurar compradores para a dívida pública (sempre a crescer). Para o consumidor, dizem, uma forma simples e barata de efetuar pagamentos.
Por mencionar fica o risco para a estabilidade dos preços, nos EUA e no resto do mundo, incluindo aqui na Europa. Embora o GENIUS Act proíba os emitentes de pagarem uma remuneração direta aos titulares das stablecoins, não impede as plataformas, onde as stablecoins são transacionadas, de pagarem aos titulares uma “comissão”, algo como o cashback do cartão Continente. Na prática, o que emitentes e plataformas (que entre si negoceiam) têm vindo a oferecer é uma partilha do ganho que realizam com o juro pago pelas T-Bills.
Parece inócuo e justo, certo?
Tal remuneração torna a aquisição de stablecoins muito atrativa. Mais, aliás, do que um depósito bancário. Se são aceites como meio de pagamento e pagam uma remuneração (inclusive superior à de um depósito bancário), por que não comprar stablecoins ao invés de manter uma conta de depósito junto de um banco tradicional? Será como ter uma conta em dólares, independentemente do país em que se resida.
E, no entanto, tal possibilidade põe em causa a capacidade do Estado de controlar a inflação e de os bancos continuarem a emprestar à economia – não apenas às empresas, mas também ao cidadão comum que contrai empréstimos para comprar casa, carro, renovar a cozinha…
Os bancos intermedeiam a conversão dos depósitos em empréstimos. Tal implica uma estrutura para servir clientes, analisar risco, decidir a quem emprestar. Pessoas e sistemas para processar pedidos de crédito, cobrar dívida, prevenir a utilização do sistema financeiro por criminosos, etc. Menos depósitos, menos valor para emprestar a pessoas e empresas.
A par deste impacto direto, outro tão ou mais significativo: minar a capacidade dos bancos centrais de controlar a inflação. Se a massa monetária não está depositada junto dos bancos (que, por sua vez, recorrem ao banco central para depositar excesso de liquidez e contrair dívida para emprestar à economia), o Estado perde o seu principal instrumento de controlo da “moeda” em circulação. Numa situação de subida de preços, como recentemente aconteceu em 2022 e 2023 (e ainda não totalmente controlada), motivada pela disrupção das cadeias de fornecimento pós-pandemia e agravada pela guerra na Ucrânia (com um aumento do preço de matérias-primas e bem alimentares), sem um instrumento capaz de atingir a economia no seu todo, o risco é o de uma inflação descontrolada.
Europa e Canadá anunciam projetos de moedas digitais controladas pelos respetivos bancos centrais. Teme-se a perda de soberania económica – o Estado refém de big cryptos.
Também na economia, a Administração Trump adotou a filosofia das tecnológicas – move fast and break things – com a inovação e a experimentação a prevalecerem sobre a estabilidade e a cautela. Mais uma mina capaz de estilhaçar o sistema financeiro que sustenta as democracias ocidentais. Em Davos, o primeiro-ministro canadiano Mark Carney, Ursula von der Leyen e Macron reconheceram o fim da ordem mundial pós-II Guerra, importa agora que tenham a capacidade política de, nestes e outros temas, agir com rapidez e resolução. Para tal é necessária uma opinião pública esclarecida e disposta aos sacrifícios que a nova ordem mundial impõe.
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