Nos últimos anos, Portugal tem sido repetidamente atingido por fenómenos climáticos extremos que deixaram cicatrizes profundas no território e nas pessoas. Incêndios devastadores, tempestades violentas, cheias repentinas e deslizamentos de terra transformaram paisagens, destruíram casas, danificaram infraestruturas e fragilizaram comunidades inteiras, sobretudo no Centro e no Interior do País . Há aldeias onde o silêncio substituiu a vida, campos onde o verde deu lugar à cinza, estradas interrompidas pela força da água ou por deslizamentos de terra e habitações destruídas. O País não enfrenta apenas uma emergência ambiental — enfrenta um desafio humano e estrutural. E a pergunta torna- se inevitável: quem vai reconstruir Portugal?
Apesar desta realidade, o discurso político sobre imigração tem insistido na prioridade de atrair trabalhadores altamente qualificados e investimento externo associado aos chamados “vistos gold”. Claro que a qualificação é importante, mas não responde à urgência da reconstrução física do País. Depois das chamas e das tempestades, o que falta são braços: trabalhadores da construção civil, pedreiros, carpinteiros, eletricistas, operadores de máquinas e técnicos capazes de recuperar casas, reparar estradas e devolver vida a territórios feridos. Sem mão de obra, não há reconstrução — há apenas promessas.
O Centro de Portugal continua a viver sob o peso das consequências dos fenómenos climáticos recentes. Muitas obras permanecem por concluir após as últimas épocas de incêndios, outras tornaram-se agora urgentes face às tempestades, os atrasos acumulam-se e o envelhecimento demográfico agrava a escassez de trabalhadores. Num país onde cada vez menos jovens permanecem no interior, a imigração laboral deixou de ser uma opção ideológica — tornou-se uma necessidade concreta.
Ainda assim, tem emergido, sobretudo nas redes sociais e no espaço político, um discurso que sugere que “o País não quer imigrantes”. Parte dessa narrativa, repetida por alguns responsáveis do PSD, aproxima-se de argumentos da extrema-direita, incluindo a divulgação de ideias imprecisas sobre alegados privilégios atribuídos a imigrantes. Estas mensagens alimentam perceções erradas e desviam o debate da realidade. Faltar à verdade ignorar que, paradoxalmente, também surgem vozes no espaço do PS que, em certos momentos, reproduzem leituras semelhantes, tratando a imigração como problema político e não como fenómeno social complexo.
Portugal conhece bem o que significa partir. Durante décadas, milhões de portugueses emigraram para reconstruir países que precisavam de trabalho e de gente. Trabalharam na construção, nas fábricas e nos campos — muitas vezes invisíveis, muitas vezes sem reconhecimento. Hoje, quando o próprio território nacional precisa de ser reconstruído, recusar quem chega disposto a trabalhar não é apenas incoerente — é esquecer a nossa própria história.
É neste contexto que a figura de Manuela Aguiar assume particular relevância. Conhecida pelo seu percurso discreto, coerente e profundamente humanista, dedicou grande parte da sua vida à defesa dos emigrantes portugueses e à integração de comunidades imigrantes, com especial atenção às mulheres em situação de vulnerabilidade. Foi Secretária de Estado da Emigração, deputada à Assembleia da República durante várias legislaturas e presidiu ao Conselho Permanente das Comunidades Portuguesas, cargos a partir dos quais promoveu políticas de proximidade, defesa de direitos e ligação entre Portugal e as suas comunidades.
Tive, em várias ocasiões, a oportunidade de colaborar com ela em iniciativas ligadas à imigração e à integração, e pude testemunhar de perto a sua forma de agir: discreta, firme e orientada para soluções concretas, sobretudo na defesa das mulheres migrantes, ainda muito invisíveis nas políticas públicas e no debate político.
Militante histórica do PSD desde os tempos de Sá Carneiro, sempre privilegiou a coerência sobre a conveniência.
A decisão de entregar o cartão do partido, por discordância com orientações recentes na área da imigração, foi um gesto silencioso, mas fiel aos princípios que sempre defendeu: dignidade, integração e humanidade.
Hoje, perante a destruição provocada pelos fenómenos climáticos, pela desertificação do interior e pelo envelhecimento da população, o debate sobre imigração precisa de regressar à realidade que temos. Sem orientações ideológicas que, muitas vezes, contrariam os princípios dos próprios partidos, como concluiu Manuela Aguiar.
Portugal precisa de reconstruir — casas, estradas, florestas e comunidades — e reconstruir exige pessoas. Transformar a imigração num tema de medo ou rejeição não protege o País, apenas o enfraquece.
Entre o discurso e a realidade, a escolha é clara: ou Portugal reconhece que o seu futuro continuará a ser construído também por quem chega, ou arrisca prolongar o abandono e a reconstrução inacabada de um território que já sofreu demasiado.
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