Há momentos na vida democrática de um país em que a escolha não é apenas política. É moral.
A segunda volta das eleições presidenciais aproxima-se e, com ela, um debate que voltou a ocupar o centro do espaço público: a imigração. Não porque seja um fenómeno novo ou inesperado, mas porque o medo, quando bem explorado, continua a ser uma das ferramentas mais eficazes para mobilizar ressentimentos e silenciar consciências.
O que hoje se discute em Portugal já não é apenas como gerir fluxos migratórios ou como tornar o Estado mais eficiente. Discute-se que tipo de país queremos ser. Um país fiel à sua história, à sua memória e aos seus valores, ou um país que cede ao ruído do ódio e à tentação do ostracismo.
A decisão do Estado português de pagar cerca de 8 milhões de euros para não receber refugiados é um símbolo poderoso dessa encruzilhada. Não é um mero detalhe orçamental. É uma escolha política carregada de significado. Num tempo em que o mundo enfrenta crises humanitárias profundas, Portugal escolheu afastar-se — enquanto continua a proclamar, nos discursos e nos textos legais, um humanismo que já não encontra correspondência nos atos.
Essa contradição não é inocente. Ela revela uma aproximação perigosa à agenda do Chega, que transformou a imigração numa narrativa de ameaça permanente. Ao invés de combater esse discurso com políticas responsáveis e humanas, o Governo tem vindo a ceder-lhe, normalizando ideias que há poucos anos seriam impensáveis no espaço democrático português.
Mas as consequências mais graves dessa cedência não se veem apenas nos debates televisivos. Veem-se no quotidiano silencioso da administração pública, em particular na AIMA. Criada para dar resposta a um fenómeno estrutural e duradouro, a AIMA nasceu sem o cuidado, a preparação e o investimento que uma missão desta dimensão exigia. Nasceu torta — e assim continua.
Em vez de uma reestruturação séria, optou-se por uma lógica de remendo: mais cargos de chefia, mais organigramas, mais camadas de decisão — e menos pessoas a tratar processos, menos capacidade de resposta, menos humanidade no contacto com quem espera. Os trabalhadores mais antigos, aqueles que carregavam experiência, memória institucional e sentido de missão, estão a sair. Saem cansados. Saem desiludidos. Saem porque sentem que já não fazem parte de um projeto em que acreditaram.
Ficam os mais novos. Funcionários jovens, muitas vezes cheios de boa vontade, mas lançados para funções complexas sem a formação necessária.
É aqui que o problema deixa de ser apenas administrativo e passa a ser ético. Quando existe uma Academia própria da AIMA que não cumpre a sua função formativa, o Estado está a falhar não apenas aos trabalhadores, mas a todos os que dependem das suas decisões. Funcionários mal formados são mais frágeis, mais expostos à pressão, mais vulneráveis à instrumentalização política. E, inevitavelmente, menos capazes de garantir decisões justas e humanas.
Os números — frios, impessoais — ajudam a perceber a dimensão do colapso, mas não contam a dor que lhes está associada. Mais de 13 mil pedidos de asilo aguardam resposta. Cerca de 53 mil processos de Vistos Gold, maioritariamente simples renovações, continuam parados. E somam-se aproximadamente 350 mil processos herdados da Estrutura de Missão que procedeu ao atendimento numa das mais bem sucedidas operações da Administração Pública e que cessou funções no final do ano, ainda sem decisão.
Cada processo é uma vida suspensa. Cada atraso é um projeto adiado. Cada silêncio administrativo é uma angústia prolongada.
Apesar disso, continua a repetir-se o mesmo argumento: não há dinheiro. Não há verba para um suplemento de carreira especial. Não há recursos para reconhecer a especificidade das funções destes trabalhadores. Mas aqui o paradoxo transforma-se em injustiça. A AIMA é um dos organismos que mais contribui para os cofres do Estado português. Cobra taxas, gera receita, sustenta o sistema — e, ainda assim, não vê esse esforço refletido em investimento, dignidade profissional ou melhores condições de trabalho.
Tudo isto acontece enquanto a imigração é reduzida a slogan eleitoral. Alimenta-se a desconfiança, legitima-se o discurso do medo e empurra-se para a margem quem já vive na margem. Esquece-se, com uma facilidade desconcertante, que Portugal foi durante décadas um país de emigrantes. Milhões de portugueses partiram com malas de cartão, sem contratos, sem garantias, a maioria clandestinamente. Trabalharam nas obras, nas limpezas, nas fábricas. Sofreram discriminação, humilhações, exploração. E, ainda assim, encontraram em muitos países a oportunidade de construir uma vida melhor.
Esquece-se também que a nossa identidade coletiva tem momentos de profunda coragem moral. Em plena Segunda Guerra Mundial, quando obedecer era mais fácil do que resistir, Aristides de Sousa Mendes escolheu salvar vidas. Fê-lo contra ordens, contra o regime, contra o seu próprio interesse. Pagou caro, foi ostracizado, morreu na pobreza — mas deixou-nos um legado que ainda hoje nos honra. Que sentido faz invocar Sousa Mendes como símbolo nacional e, ao mesmo tempo, fechar portas a quem foge da guerra, da fome ou da perseguição?
É neste contexto que a escolha presidencial ganha um peso particular. Não se trata apenas de estilos políticos ou estratégias eleitorais. Trata-se de valores.
António José Seguro representa uma visão humanista da política: serena, responsável, consciente da complexidade dos problemas, da necessidade imperiosa de regular as entradas em Portugal, mas firmemente ancorada na dignidade humana.
Uma visão que recusa o ódio como método e o medo como programa.
Apelar ao voto humanista não é apelar à ingenuidade nem tão pouco ao laxismo. É apelar à memória. É lembrar que já estivemos do outro lado. Que já fomos os que batiam à porta. Que já dependemos da compaixão alheia.
Num tempo em que o discurso do ódio tenta tornar-se normal, escolher o humanismo é um ato de resistência democrática.
Entre o ostracismo e a empatia, entre o medo e a memória, Portugal volta a ser chamado a escolher. Que essa escolha seja feita com o coração, mas também com consciência. Porque um país que abdica da sua humanidade abdica, no fundo, de si próprio.
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