Portugal continua a viver dias de absurdo absoluto em que, nas televisões, os comentadores de política, de futebol, de economia e de sociedade se desdobram, e até se atropelam, na dilucidação dos meandros do confronto galáctico entre o jogador veterano mais bem pago do mundo, e já igualmente um empresário de sucesso, e o treinador da seleção nacional, que com ele partilhou as emoções do campeonato de propaganda do futebol saudita disputado entre equipas pagas pelo Petro-Estado autocrático e misógino.
Entretanto, reina a indiferença sobre o facto de, quase um mês após o inicio do ano escolar, 300 crianças de uma das maiores freguesias de Lisboa (Marvila) terem sido mandadas para casa por falta de professores do 1º ciclo.
Fernando Alexandre, o ministro sapador do processo de desconstrução do Estado lançado por Gonçalo Matias em julho de 2025, vai ter de prestar contas em Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o caos das avaliações do secundário, mas continua a surfar a onda da apatia geral sobre o aumento dos alunos sem professor no ensino básico e secundário, sobre a falta de colocação de professores e sobre a inadaptação das escolas à realidade multicultural gerada pelo afluxo de estudantes que não falam português em casa.
Ao fim de dois anos de medidas de emergência, Ana Paula Martins vai já a caminho do quarto responsável máximo pelo SNS, ameaçando agora com novas fusões e mutações orgânicas, incluindo a fusão da Direção-Geral de Saúde com o Instituto Ricardo Jorge, que irão garantir longos meses de adaptação dos serviços de um setor que não garante médicos de família nem assegura a resposta hospitalar atempada.
Depois de dois anos de atentado aos valores da família, com as novas regras sobre reagrupamento familiar, e de criação de uma pressão adicional sobre o mercado de trabalho causada pelas dificuldades em recrutar trabalhadores, chegamos à nova fase da AIMA anunciada por Leitão Amaro, com a nomeação de um dirigente do PSD de Guimarães como terceiro presidente em dois anos e meio.
Após a celebração em véspera das eleições autárquicas da “conclusão” dos túneis de drenagem de águas pluviais em Lisboa, o presidente Moedas, que ignora as preocupações ambientais, acumula lixo nas ruas, e acha que é um xerife sem limites, fazendo, à vez, de policia e de juiz, e que tudo faz para esconder os mais pobres da vista de todos, anunciou agora que, afinal, o Metro vai fechar em Santa Apolónia até 2028 para conclusão dos trabalhos já celebrados há um ano.
Na apresentação da proposta de Orçamento do Estado para 2027, o discreto Miranda Sarmento, em vez de salientar a gratidão ao PS pela garantia da aprovação, conseguiu dizer que a responsabilidade pela garantia do equilíbrio orçamental não é de um Governo que vai reduzir em 300 milhões de euros as receitas de IRC, que tem um défice crescente da Administração Central só compensado pelos saldos positivos da Segurança Social e das autarquias locais, mas sim da oposição socialista.
O desplante superou tudo ao anunciar a manutenção das medidas de incentivo ao aumento dos preços da habitação, quando se confirma que o crescimento dos valores das transações das casas é em Portugal o quádruplo da média da Zona Euro.
Em simultâneo com o anúncio de que a atualização dos escalões do IRS será de 3,8%, superando em pouco os atuais níveis de inflação registada, foi confirmada a opção pela degradação do poder de compra dos trabalhadores do setor público que terão uma atualização salarial de 2,3 por cento. O pretendido equilíbrio orçamental será obtido à conta de um abrandamento dos salários, em contramão com a espiral inflacionista, e de uma queda brutal do investimento com o final do PRR. No mais será preciso acreditar que a conjuntura externa possa ficar mais suave caso os ventos de mudança afastem Netanyahu do poder e limitem a capacidade de intervenção de Trump, confrontado com um Congresso mais hostil ao seu aventureirismo predador.
O impacto dos elevados níveis de emprego e do consumo interno, propulsores da receita de IVA e de IRS, permitirão um debate orçamental morno, até pela garantia da viabilização pelo PS, adiando assim para 2027 o impacto do esgotamento do modelo que tem animado a fábrica de sonhos do montenegrismo.
Por ser o rosto orçamental da gestão política de um ciclo de ilusões, baseadas em fundos europeus, trabalhadores imigrantes e aumento da carga fiscal, o prémio Laranja sem Sumo do bocejo orçamental vai para Miranda Sarmento.
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