O Governo de Luís Montenegro chegou ao poder por um bambúrrio de acasos judiciais e de precipitações presidenciais, com uma precária minoria para governar e uma impreparação compensada pela sorte que protege aqueles que estão na liderança de turno do PSD na hora inesperada, como já sucedera antes com Durão Barroso e com Santana Lopes.
Se há legado desperdiçado ingloriamente pelo último Governo de António Costa, situação acentuada pela obstinação de Fernando Medina em não resolver conflitos que se arrastavam com vários setores da função pública, é o da evolução positiva da economia no período pós-Covid, os dois excedentes orçamentais sucessivos e a enorme redução da dívida pública.
O novo Governo tentou inicialmente desvalorizar os resultados com que contou à partida, e inventar fragilidades orçamentais desmentidas por Bruxelas e pelo BCE, enquanto distribuía o quinhão recebido pelas mais de duas dezenas de acordos que adoçaram as corporações do Estado e prometia uma explosão de crescimento para níveis superiores a 3%.
Ao fim de dois anos de Governo, os números da economia são globalmente positivos, ainda que em virtude de uma receita errada e de um desbaratar da margem de manobra necessária para enfrentar os desafios nacionais e externos até 2029.
As exportações estão engasgadas pela ameaça das tarifas americanas, o investimento caiu, mas o estímulo da procura interna e o apogeu do turismo têm permitido, em 2024 e 2025, um crescimento da economia em abrandamento para cerca de 2%, mas ainda acima da média europeia.
Mas o Governo vive mal com os resultados e não tem estratégia para o esgotamento do seu modelo económico, preparando-se já para responsabilizar as tempestades deste inverno por todas as maleitas futuras.
O mais positivo dado da economia portuguesa é o da criação de emprego, que aumentou em cerca de 800 mil trabalhadores desde 2015 até ao nível jamais alcançado de 5,3 milhões no final de 2025, com a taxa de desemprego em 5,6%, a mais baixa desde 2002.
Só em 2025, o emprego aumentou em cerca de 190 mil trabalhadores relativamente ao final de 2024, o que deveria ser celebrado pelo Governo. O problema para um Governo que coloca a ideologia e a tática política à frente da economia e da defesa da democracia, é que este crescimento do emprego se deve fundamentalmente ao recurso a trabalhadores estrangeiros, desmentindo a lengalenga das “portas escancaradas” e a convergência parlamentar com o Chega.
As medidas de política migratória do Governo permitiram a regularização de cerca de 400 mil imigrantes, mas só o setor da construção civil diz necessitar de mais 80 a 90 mil trabalhadores. O esforço de recuperação das áreas afetadas pelas tempestades só vai agravar esta necessidade de trabalhadores, mostrar a ineficácia da Via Verde de Leitão Amaro e o erro do bloqueio dos vistos para procura de trabalho.
Num contexto de quase pleno emprego, os salários reais subiram nos dois últimos anos, 3,2% em 2025 e 3,9% em 2024, enquanto a inflação baixava para valores pouco acima dos 2 por cento. Os aumentos do salário mínimo acima dos 5% contribuíram igualmente para uma valorização do trabalho que deveria ter sido aproveitada para reforçar a atração e fixação nas empresas de trabalhadores qualificados, reforçando a estabilidade para os jovens, reduzindo a precariedade e favorecendo a conjugação entre a vida familiar e a vida profissional.
O Governo também poderia reivindicar para si o sucesso no aumento dos salários, com destaque para os setores da agricultura e da administração pública a crescerem acima da média, mas novamente a ideologia falou mais alto e a teimosia na manutenção da proposta de revisão das leis laborais é um contrassenso sem apoio entre os parceiros sociais, exceto na CIP, sem viabilidade parlamentar e sob a desconfiança anunciada do Presidente eleito.
O PRR foi desperdiçado na habitação, na saúde, nas respostas sociais para idosos e crianças e no ordenamento florestal, mas o Governo prepara-se para reforçar o “mealheiro” entregue ao Banco de Fomento, enquanto finge ter recursos disponíveis em mais uma reprogramação para acudir à destruição causada pelas tempestades.
Em 2025, o turismo voltou a bater recordes de hospedes (+3%), de dormidas (+2,2%) e de proveitos (+7%), mas os resultados de Lisboa e do Algarve indicam um esgotamento do modelo devido ao estrangulamento do aeroporto de Lisboa e à perda de competitividade pelo aumento comparativo dos preços relativamente a outros mercados. Também aqui não antecipou o Governo as consequências da provável travagem brusca deste acelerador económico e desvalorizou os efeitos, sobretudo em Lisboa e no Algarve, da explosão descontrolada do alojamento local que expulsa os residentes e torna a habitação proibitiva.
No meio deste esgotamento do modelo centrado no curto prazo, o Governo prepara-se para celebrar uma redução da dívida pública abaixo dos 90% do PIB, com base em operações financeiras de final de ano, e um saldo orçamental superior ao previsto alicerçado no crescimento das receitas do trabalho e das contribuições para a segurança social (os tais imigrantes que financiam os subsídios do Estado Social…) e na contração do investimento público.
O esgotamento do modelo de crescimento baseado no consumo interno e no turismo e as despesas com a reconstrução da destruição causada pelas tempestades serão a hora da verdade para o “dinheiro nos bolsos” que tem alimentado a tolerância para com um Governo muito incompetente em vários setores.
Pela falta de visão estratégica para o futuro da economia e por continuar a ser o grande distribuidor de subsídios e apoios, muitas vezes não concretizados, o prémio Laranja Amarga de hoje vai para o ministro das ilusões Castro Almeida.
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