Termina hoje o período de situação de calamidade em 68 municípios atingidos pelos ventos da Kristin e pelas cheias da Leonardo, que o Governo teimosamente decidiu não prolongar nem alargar a outras áreas duramente atingidas pelas intempéries.
Passaram já 20 dias sobre o início desta saga em que o Governo não fez a declaração antecipada de situação de alerta que as previsões do IPMA recomendavam, em que a resposta tardou e a declaração de calamidade demorou, e em que a Proteção Civil, que ficou às escuras sobre a dimensão dos estragos e sem comando político, tardou a mobilizar as Forças Armadas.
Ao fim de duas semanas, Luís Montenegro percebeu que o único ministro apresentável para o acompanhar junto dos autarcas que lideraram no terreno a resposta à crise era Graça Carvalho. Tendo sido abandonado pela deserção a meio da guerra pela MAI, que deveria ter liderado a resposta à tragédia, passou a acompanhante nos locais da liderança operacional das corajosas autarcas, como fez nas idas a Coimbra e a Alcácer do Sal.
É bizarra a decisão do Governo de, pelo silêncio, abandonar a situação de calamidade, voltar a cobrar portagens nas autoestradas das zonas atingidas e retomar a política dos anúncios de planos salvadores ainda por “desenhar”, quando cerca de 30 mil habitações continuam sem energia elétrica, as comunicações estão por repor em muitas áreas sem nenhuma informação das operadoras (que foram rápidas a reagir às criticas de Marcelo Rebelo de Sousa), a principal autoestrada do País está cortada ao meio em Coimbra por tempo indefinido e centenas de pessoas continuam deslocadas das suas casas, em muitos casos inabitáveis.
Apesar de ter sido derrotado por culpa própria nas duas voltas das eleições presidenciais, ter falhado na resposta a situações de crise nos incêndios do verão passado e nas tempestades deste inverno e liderar um Governo minoritário, Luís Montenegro parece impenitente na obstinação em desprezar as ofertas de cooperação de José Luís Carneiro na resposta à calamidade e faz orelhas moucas às sugestões do Presidente da República sobre o âmbito territorial dos apoios e ao remoque à indignidade de fazer depender o acesso a apoios de emergência da situação fiscal e contributiva das vítimas.
Os apoios anunciados há duas semanas estão em larga medida por concretizar, mas já provaram ser claramente insuficientes, como se demonstra pela linha de crédito para apoio à tesouraria das empresas que foi esgotada em duas semanas, pelo modelo de lay-off que leva a perdas de salário, pelos 40 milhões de euros que são uma gota de água na torrente de prejuízos dos agricultores e, finalmente, por ser evidente que com 10 mil euros não é possível reconstruir uma casa destruída.
No meio desta devastação a prioridade de Montenegro continua a ser a gestão dos danos políticos ao mais baixo custo. São os casos surpreendentes da tentativa de capitalizar como uma assunção de liderança o facto de ter sido forçado a assumir a pasta da Administração Interna, um modelo que pode no futuro estender a outras áreas como a da Saúde, do aproveitamento das deslocações ao terreno para fazer anúncios de mais um Plano, chamado PTRR, sem dar detalhes sobre o conteúdo, as fontes de financiamento ou o âmbito territorial, e da preocupação em adiar o escrutínio político na Assembleia da República.
A eleição de António José Seguro inicia um novo ciclo político, que tanto pode conduzir a uma demonstração da incapacidade de agregar consensos que acentue o enquistamento de um Governo acossado, como pode ser a oportunidade de redenção para três anos sem eleições, assente na parceria com um Presidente defensor da estabilidade institucional e um diálogo democrático com o PS que tem identificado várias áreas de convergência.
A equidistância de Montenegro entre o PS e o Chega, mas preferindo os acordos com extrema-direita, e a cobarde abstenção de opção na segunda volta das eleições presidenciais estão em clara contradição com a opção por António José Seguro, e a clara rejeição de André Ventura, manifestadas por 76% dos eleitores da AD ou por 85% dos que votaram Marques Mendes na primeira volta.
A dimensão da crise gerada pelas intempéries deste inverno recomenda vivamente que o novo PTRR seja muito mais do que exercícios de publicidade enganosa como foram o Plano de Emergência para a Saúde de Ana Paula Martins, o Plano Construir Portugal de Pinto Luz ou a Via Verde para a Imigração de Leitão Amaro.
Mas, sobretudo, importa que Luís Montenegro compreenda que a única forma de não se arrastar penosamente, acumulando descontentamento até o PSD ser substituído pelo Chega, como anunciou Diogo Pacheco Amorim, evitando o caminho da irrelevância seguido pelo CDS, é apostar no diálogo democrático e reformista com os setores progressistas, liberais e europeístas da sociedade portuguesa, aproveitando a oportunidade de um novo recomeço que lhe é oferecida por interlocutores como António José Seguro e José Luís Carneiro.
Pela obstinação em não prolongar nem alargar territorialmente a situação de calamidade, pela imediata recaída na tentação dos anúncios de Planos sem conteúdo e pela incapacidade em optar pela democracia negando o populismo, o prémio Laranja Amarga é já um estado habitual de Luís Montenegro em 2026.
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