Por estes dias, metade de Portugal tirou uma pós-graduação em epidemiologia ou infecciologia. Acompanhamos a par e passo a evolução da Covid-19, discutimos taxas de de novos contágios, dos mortos e dos recuperados.
Mas, em matéria de saúde pública, há um número fundamental para se perceber a evolução da doença que todos nós devíamos conhecer. É dele que depende, na verdade, a nossa liberdade nos próximos tempos. Trata-se do R, um indicador que mede o “número básico de reprodução”, conhecido na gíria da saúde como o R0. Trata-se do número médio de pessoas contaminadas por cada pessoa infectada. É este indicador que se avalia como um determinado vírus ou infeção se está a disseminar numa comunidade, nomeadamente se está a crescer ou a abrandar.
Evolução do R até 18 de abril

Para muitos peritos, só quando o R se mantiver nos 0,7 pontos, ou seja, quando em média cada 10 pessoas infetadas apenas contaminam 7 outras, é que a curva está a descer com segurança
É na evolução deste número, em relação ao qual infelizmente não existe informação disponível publicada regularmente pela DGS, que muitos países se baseiam para decidir a abertura da economia ou, pelo contrário, o confinamento obrigatório. Das primeiras vezes que Angela Merkel falou ao país sobre a necessidade de confinar, explicou-o com uma clareza cristalina e com base em números e indicadores, frios e implacáveis – à boa maneira alemã (veja aqui o video legendado em inglês). E o número central das suas contas era precisamente este R0. Na Noruega, a reabertura da economia só começou quando este indicador se manteve nos 0,7 pontos, ou seja, quando em média cada 10 pessoas infetadas apenas contaminam 7 outras. Ou seja, só aí se estará, consideram muitos peritos, consistentemente na trajetória da descida do planalto da malfadada curva.
Por cá, nunca chegámos a esta marca considerada desejável e segura. O número do R andou acima dos 2 naquele que foi considerado o pico do surto, algures entre dias 23 e 25 de março, quando chegou aos 2,08 pontos. Em Abril, o número de reprodução variou entre 0,9 e 1,04 pontos. O valor em Lisboa rondou os 1,18 pontos e na região Norte estava acima de 1,01.
Mas os dados mais recentes divulgados pela ministra da Saúde há três dias, mostram que entre 16 e 20 de abril este número andou perto dos 1,04 pontos, oscilando entre 0,99 no Norte e 1,2 na grande Lisboa, onde a situação dos muitos contaminados no hostel da Rua Morais Soares fez disparar este número. António Costa deu ontem um número mais otimista: 0,92 pontos no País, com oscilações regionais.
Se o R subir consideravelmente acima de 1, temos de estar muito atentos: estaremos outra vez numa curva ascendente e provavelmente teremos de dar o tal “passo atrás” e confinar outra vez. Se o R se contiver próximo de 0,9, é sinal de que as coisas estão a correr bem. Infelizmente não temos os números clarinhos e bem detalhados como na Alemanha, onde Angela Merkel explicou claramente que nos 1,2 pontos a curva estaria num valor perigoso e nos 1,3 a Alemanha estaria no limite da capacidade do seu sistema de saúde. Por cá, por muito que insistamos, ainda não sabemos qual é a capacidade limite do nosso SNS. Mas uma coisa é certa: não queremos lá chegar para a testar… Mais uma razão para mantermos, todos os cuidados nesta reabertura. Pior do que um confinamento que foi praticamente voluntário, é ter um segundo à força logo de seguida que iria custar muito mais.