“A abstenção é um ato de cobardia política. “
Francisco Sá Carneiro
(Faço um não raro mas desta feita longo disclaimer: não tenho especial simpatia por António José Seguro porque sempre me pareceu, em especial enquanto líder do Partido Socialista, demasiado low profile e pouco exigente no que eu entendia deverem ser as bandeiras de um qualquer partido que se diga de esquerda. Faço também o exercício oposto: nunca consegui deixar de ter André Ventura como um oportunista. Foi capaz de escrever um conto erótico de péssimo calibre e defender uma noção de família incompatível com aquelas linhas erráticas. Elaborou uma dissertação de doutoramento num sentido e, passando uma esponja sobre o assunto como se tal nunca tivesse sucedido, inviabilizando até a consulta da mesma, defender exactamente o oposto. Fala que pretende erradicar os designados “tachos” mas o que se tem visto nos últimos tempos, sob a sua batuta e sem qualquer demonstração de oposição da sua parte, com a capital tristemente à cabeça, é a distribuição de lugares entre familiares e apoiantes, em qualquer dos casos sem qualquer competência para o seu exercício.
Deixo um último e derradeiro comentário: nem sempre concordei com o meu Professor preferido, Marcelo Rebelo de Sousa, mas foi sempre o meu Presidente. Para os particularmente críticos, tenho apenas a dizer que, independentemente do resultado da segunda volta, creio que iremos ter saudades. Foi o Presidente dos afetos, foi por vezes excessivo nos comentários mas, nunca por nunca, perdeu de vista o Estado de Direito Democrático em que vivemos, nunca deixou para trás os valores mais básicos da Humanidade, nunca se fechou numa bolha, sem pelo menos ouvir as pessoas. De novo, Meu Professor: obrigada.)
Ao contrário do que se tem procurado fazer crer, o que se discute no dia 8 de fevereiro de 2025 é muito mais do que uma mera escolha entre dois perfis de candidatos.
No dia 8 de fevereiro de 2025, para além das visões políticas diferentes, está em causa o Estado de Direito Democrático tal como o conhecemos. Princípios que damos como adquiridos, como os da igualdade de oportunidades, em especial entre homens e mulheres, da presunção de inocência ou da separação de poderes, entre outros, podem passar a letra morta e é isso que devemos reter no momento do voto.
É absolutamente inegável que estas décadas de democracia não tiveram apenas virtudes e que o principal mal que se tem deixado proliferar é a corrupção, habilmente usada pelo Chega como se, no seu seio, a situação não seja igual ou pior.
Por outro lado, obviamente, André Ventura não pretende ganhar a eleição mas usar o seu resultado para tentar canibalizar o PSD, aliás à semelhança do que já fez ao CDS. Uma vez mais, trata de usar com total indiferença os meios errados para atingir os fins, igualmente errados, a que se propôs. Deste modo, um voto em André Ventura não se destina a escolher o Presidente da República mas é um meio para se procurar impor um caminho ainda mais xenófobo, racista, discriminatório e indiferente ao sofrimento, seja ele humano ou animal. De qualquer forma, se um dia Ventura se convencer, como parece já estar a suceder, que capitaliza votos junto dos trabalhadores, rapidamente tratará de alterar o discurso e procurar fazer até sindicatos, pese embora toda a gente minimamente informada saiba que ele é apoiado em especial pelos patrões.
Ventura dirá, desta forma, tudo o que tiver que dizer para granjear simpatias e não hesitará em mentir, ainda que contra si mesmo, como aliás tem feito desde que se iniciou na vida política lá para os lados do PSD.
Seguro nunca o conseguiria fazer, preso que está à sua circunstância de ser um homem honesto e educado e, pelo menos aparentemente, com princípios.
Dito de outra forma, nesta eleição, como provavelmente em nenhuma outra até agora, há de facto, dois lados da barricada e não há como ficar em cima do muro, a hesitar para que lado pender.
No limite, e para aqueles que, sabe-se lá como, ainda estão indecisos, há sempre uma derradeira pergunta: a qual dos dois compraria um carro usado? Tem aí a sua resposta.
(Numas derradeiras linhas, a outra interrogação que trago é a de saber quanto vale o jornalismo independente, para lá do crivo e dos interesses dos acionistas dos grandes grupos. Se considera que estar informado pode ser relevante, a sugestão é a que tenho feito: ajude o grupo de pessoas que, acreditando na valia do projeto, continuam a fazer milagres e a fazer sair a VISÃO a cada semana. Se não puder contribuir com dinheiro, pelo menos partilhe. Há boas ações que também se refletem em quem as pratica.)
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