“A arte, felizmente, ainda não soube encobrir a verdade”
Oscar Wilde
Começo por fazer um disclaimer: apesar de uma mulher tipicamente citadina, desde que me vi envolvida, em pro bono, num mediático processo judicial, visando maus tratos com galgos, a minha forma de ver os animais e a atenção que passei a dar ao que se vai passando mudou radicalmente. Uma quase indiferença transmutou-se assim, num momento inicial, para uma certa compaixão e, nos tempos que correm, para algumas intervenções mais pontuais do que gostaria em alguns casos de que vou tomando conhecimento.
Costuma dizer-se que não vale a pena lutar na lama contra um porco porque o mesmo nos ganha em experiência. Não foi exatamente assim na primeira volta das presidenciais, mas esta frase encerra em si mesmo um preconceito sobre os animais que me fez relacioná-la com o ato eleitoral.
Para além dos temas já batidos, sobre os quais quase todos os candidatos prometem coisas que não querem (ou não podem, até por via de estar fora das suas competências…) cumprir, uma das múltiplas – e raramente faladas – formas de se poder tomar uma decisão tem a ver com a relação com os animais.
Importa assinalar que vivemos numa sociedade distópica que adora emojis com animais mas que os abandona, virando costas sem uma lágrima ou um olhar de despedida, nas ruas, à porta de associações ou até mesmo a quilómetros de distância, na esperança de que não consigam regressar. E os ditos permanecem à espera, fiéis como os humanos raramente sabem ser, que os venham buscar, muitas vezes acabando por morrer sozinhos, ao frio ou ao calor, em boxes anónimas.
Como tal, não basta ter um ou dois gatos, principalmente quando um deles foi castrado de forma ilegal e sem os cuidados veterinários devidos, para se poder dizer que se gosta de animais. Não basta justificar como correspondendo a arte o sacrifício de animais numa arena, para mais numa luta completamente desigual, para que a barbárie possa ter-se como aceite. Ainda que seja uma arte, como se diz e eu discordo, a verdade é que se trata de maus-tratos, aliás em moldes similares ao que já se fez a humanos há milhares de anos. Pior que tudo, a animais que não têm a mesma capacidade de se defender do que um humano.
De uma vez por todas, os animais têm sentimentos e sofrem como nós. Aceitar que os maus tratos possam fazer parte de uma sociedade civilizada, fazendo tábua rasa de toda e qualquer medida que pudesse mudar o estado das coisas, enquanto se fazem vídeos numa conhecida rede social a dizer que se gosta muito de “bichos”, no momento atual, corresponde a uma enorme mentira e a um retrocesso social.
E esta é, também, uma perspetiva que, se não para a vida, pelo menos para o próximo ato eleitoral. Olhar não apenas para nós próprios mas para todos aqueles que os sabem acompanhar e os tratam com dignidade pode ser, também, um voto consciente e uma forma de destrinçar a verdade da mentira. Ainda que esta última possa vir disfarçada de arte. Principalmente quando assim sucede.
(Em aditamento: podendo, continuar a apoiar um projeto de jornalistas independentes e sem estarem movidos por poderes instalados é um ato de aparente generosidade mas também de egoísmo, na medida em que o direito à informação é algo porque todos nos devemos bater e de que beneficiamos. Deixo aqui de novo o repto. Estar vivo é também fazer escolhas conscientes.)
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