“Na falta de um candidato democrata do espaço do PSD, um outro democrata do Partido Socialista no qual nos revemos muito pouco, António José Seguro, representa um mal menor na Presidência da República Portuguesa em comparação ao candidato extremista que já demonstrou ser inimigo dos valores de um Estado de direito democrático. Desse modo, sinalizo o voto no primeiro.”
Era fácil, obrigatório e não demonstraria a fragilidade que Montenegro revelou ao País com a neutralidade que adotou. Mais: sinalizaria estratégia política, liderança, em vez da célebre tática nacional de vistas e tempo curtos. Marques Mendes poderia pessoalizar a coisa e dizer o mesmo, mas preferiu, tal como em toda a campanha, confirmar de vez que deixou de ter voz para lá do Governo e do primeiro-ministro. Cotrim, idem, aspas, mas achou por bem certificar que afinal nunca se enganou na patetice de ‘não sabia onde tinha a cabeça’ num voto entre Ventura ou Seguro. Da cassete do xuxalismo em modos anos 70, faltava apenas esta prova última para perceberemos o quão estúpidos este ex-líder da IL julga que são muitos dos seus eleitores.
Mas o mais relevante disto tudo é que tivemos um primeiro-ministro a colocar as coisas nos exatos termos que mais interessam a André Ventura, fazendo a equivalência para o PSD entre um candidato que não poderia ser mais de centro-esquerda-centro e um líder da extrema-direita que por omissão e neutralidade ocupa agora a cabeça de todo o espaço desta direita nacional.
O dr. André Ventura, alguém que ataca liberdades todas as semanas, evoca Salazar e se vê no direito de se autoproclamar um novo ditador luso, legislando e condenando a seu bel-prazer. Já não é só a tática política de muitas asneiras inconstitucionais na área da imigração, julgando que a cedência à agenda do Chega esvazia e protege o PSD. É o medo político de Ventura que passou a estar à vista de todos em cada ação e sobretudo em cada omissão de Montenegro.
Sá Carneiro, líder histórico, um dos fundadores da nossa democracia, humanista e combatente contra o Estado Novo, tão invocado com pouca propriedade ao longo de toda esta campanha presidencial, avisava em 1976:
“Temos de saber merecer o respeito e a credibilidade do povo, sem o que este passará a acreditar em pessoas apenas e a esperar salvadores. E daí à direita, o passo é único e pequeno.”
Ora, o primeiro-ministro que teve em tempos a sua principal bandeira de afirmação política no célebre “não é não” ao Chega colocou como nunca em causa essa credibilidade. Ao contrário do que julga, também não existe pior variável nem pior cenário para o seu Executivo do que um André Ventura dia 8 de fevereiro à noite com 35% ou 40% dos votos.
É que a Ventura pouco ou nada lhe interessa se um país com eleições legislativas cada ano e meio é eternamente adiado e pouco viável. Será exatamente isso que provocará mal puder, com essa eventual margem na segunda volta das presidenciais. E para a qual terá sido decisiva esta ajuda de Montenegro.
As vistas curtas, o tal eterno mal português, cegam mesmo.
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