
Os típicos ‘bitterballen’, versão redonda dos ‘krokets’
DR
Se calhar começo por revelar que não sou daquelas pessoas que pensa muito em comida. Mal sei cozinhar, não vejo programas de culinária e não consigo distinguir a diferença entre uma refeição gourmet de uma feita pela Dona Alice de uma qualquer tasca, com o seu avental gordurento. Por isso esta crónica vai ser um tudo ou nada esquizofrénica. Um pouco como um virgem a falar de sexo: não vou dominar o tema, vou inventar imenso, e se o leitor não se sentir satisfeito no fim, é normal. Foi a primeira vez.
E volto a fazer a ressalva, para o caso de virem reclamar. Não percebo nada de comida! Gosto dos bifes com batata frita da Portugália – mal passados, sem ovo – e podia comer todos os dias pão de Monchique caseiro com manteiga e presunto, que vivia feliz. Ocasionalmente trocava o presunto por um bom queijo, só para não cansar. Ao contrário da minha namorada, escolho o primeiro prato que me soa familiar quando me aparece um menu pela frente. E depois espero um tempo que não consegue ser quantificado que sua excelência acabe a leitura completa do menu. Três telefonemas a pedir a opinião às amigas, algumas fórmulas de matemática avançada, equações de escolha múltipla e um “o que é que vais pedir” para inspiração e estamos prontos para jantar. Por isso, se avançar na leitura…boa sorte. Está por sua conta e risco.
Aqui em Amsterdão a comida é…não sei. E não estou a brincar. Não sei mesmo. Sei que há muitos sítios onde se podem comer panquecas e lojas de queijo por todo o lado. E entrecosto. Não há restaurante que não tenha entrecosto no menu. Provavelmente algum rei conquistou estas terras por uns tempos e ficou esse marco na gastronomia. Mas tirando esses nacos de conhecimento, não há muito mais que possa dizer. Os croquetes redondos de carne, conhecidos por “bitterballen” são habituais em tardes de sol e entradas de refeição, geralmente servidos com mostarda. Não chegam aos calcanhares dos nossos, já agora e com todo o respeito. Também nos fritos temos os “kroket”, uma versão dos primeiros, mais comprida e cilíndrica, geralmente servidos em cima de uma fatia de pão. São bons, mas não saio de casa de propósito para os comer. Para sobremesa há os “stroopwafel”, uns waffles recheados com “stroop”, uma espécie de calda de açúcar e especiarias. São bons. E não podia deixar de parte o “patat”, que são essencialmente batatas fritas, com maionese. Não me perguntem de onde vêm porque não faço ideia. Sei que encontro imensas pessoas a comê-los na rua, que acabam por sujar as calças, a camisa, ou ambas. Se pensarmos bem, pequenos pedaços de batatas fritas cobertos com quilos de maionese em cima… é receita para desastre. E cá está, a imensidão dos meus conhecimentos sobre a gastronomia de Holanda. Um beijo e um queijo.
Acabei de fazer uma contagem de caracteres e isto ainda está curto. Por isso posso falar do almoço. Em Amesterdão não existe a cultura do almoço propriamente dito. Aquele momento que usamos para separar a manhã da tarde, geralmente num restaurante ao pé do escritório. Aqui não há disso. Aqui temos sandes! Os escritórios são equipados com pequenas cozinhas e mesas, onde todos almoçam. 12h30 em ponto. Pão com queijo, pão com fiambre, pão com carne, pão com…ficam com a ideia. As escolhas vão variando e a pessoa responsável por encher o frigorífico vai tentando introduzir coisas novas, mas no fim não consegue. Depois de uns meses, tudo parece o mesmo. Afinal de contas é pão com x. E é um momento que dura vinte minutos. Tempo de confecção da sandes, comer e voltar para o computador ou reuniões. Não que seja mau, porque o resultado é um aumento enorme de produtividade e todos estão fora do escritório às cinco da tarde. Em ponto. E digo isto com alguma certeza porque já quase fui expulso pelos seguranças por tentar ficar mais tempo.
E este factor de tempo é muito importante porque é seguido à risca. Ninguém chega atrasado de manhã e ninguém fica mais tempo do que é suposto. Cinco da tarde e o escritório está vazio. Sextas à tarde – quatro em ponto – é momento de cerveja ou vinho branco, acompanhado com queijo e assim se fecha a semana. Um “job well done” por mais uma semana de trabalho e um olá para os dois dias de férias que se seguem. E resulta, porque há um desapego ao stress da semana que geralmente acontece na segunda cerveja.
Até ao próximo mês.
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