A simplicidade é, por vezes, enganadora. E também manipuladora. Ao contrário do que muitos quiseram apressadamente decretar, mal foram conhecidos os resultados de 18 de janeiro, a segunda volta entre António José Seguro e André Ventura não será um duelo, simplista, entre esquerda e direita. O que estará em jogo, a 8 de fevereiro, é muito mais do que isso. Vai muito para lá da normal e até salutar alternância, entre campos opostos, em que se baseiam os regimes democráticos. A escolha é bastante mais radical, mas também, ao mesmo tempo, muito mais esclarecedora: trata-se de optar entre um democrata e um antidemocrata. E é nesse ponto que a discussão deve ser feita e conduzida.
Já todos percebemos, desde o início, que não é isso que André Ventura pretende. O seu foco, declarado mal lhe puseram os primeiros microfones à frente, foi o de se afirmar, a partir de agora, como o “líder da direita”. Um posto para o qual se autonomeou e que contou, de imediato, através do silêncio, com a anuência daqueles que deveriam ser, de facto, os representantes desse espaço político: os líderes dos partidos tradicionais de direita democrática. Estes, ao decidirem não escolher quem apoiam na segunda volta, acabaram por dar, de forma irremediável, a principal prova de normalização do Chega, aceitando a sua integração no sistema – mesmo sabendo que este pretende derrubar o regime, e implantar uma série de tropelias que põem em causa a democracia, o Estado de direito e o respeito pelos direitos humanos, ao estilo do que já vimos noutras partes do mundo.
Numa noite eleitoral de múltiplas derrotas e de mudança de vários ciclos, os líderes da AD e da IL aceitaram, através da omissão, que o líder do Chega pertence à mesma “direita” que eles. E, dessa forma, entregaram o comando a André Ventura para que ele, nas próximas semanas, o use a seu bel-prazer, como se pudesse falar em nome de todos – já que Luís Montenegro, Cotrim de Figueiredo, mas também Marques Mendes, decidiram não se intrometer numa corrida que já não lhes pertence, quase dando a ideia de que qualquer resultado lhes será indiferente.
Não será. E a grande incógnita é a de saber como é que André Ventura vai aproveitar o posto de líder da direita, que Luís Montenegro vai deixá-lo usar e exibir, sem discussão, até à noite de 8 de fevereiro.
Ventura tem duas estratégias possíveis: vincar o discurso radical, ao estilo de Donald Trump, insistindo na tecla dos “três Salazares”, como fez no início desta corrida, ou optar pela chamada “desdiabolização”, usada por Marine Le Pen, voltando a usar uma linguagem mais moderada, quase sensata, como a que utilizou nas últimas semanas – e que levou até Cotrim a considerar que ele parecia “diferente” e, com isso, a hipotecar as suas possibilidades de passar à fase final. A primeira permite a Ventura reforçar o seu núcleo forte de apoiantes e, ao mesmo tempo, obrigar o PSD a colar-se mais aos temas e ideias da direita radical. A segunda pode alargar-lhe a base de apoio, transformar o embate entre a direita e o “socialismo” – em que o moderado Seguro passa a ser “o radical”… – e tentar lutar pela vitória ou por uma derrota honrosa, por muito pouca diferença de votos.
Em qualquer dos casos, o mais importante é que o escrutínio da campanha não fique preso à análise das técnicas de comunicação dos dois candidatos – como tem sucedido – e, muito menos, dependente da flutuação de supostas sondagens que, como se viu, servem mais para condicionar os debates do que para procurar adivinhar o resultado final.
O mundo vive um momento particularmente difícil e turbulento que exige muito mais das funções de um Presidente da República, especialmente num país de um espaço, a União Europeia, quase em crise existencial, à beira de perder o seu maior aliado e garante de segurança, nas últimas décadas. É importante saber que visão do mundo têm os dois homens que correm para o Palácio de Belém, o que pensam sobre a Europa, sobre a relação com os EUA, sobre os desafios inerentes a uma nova ordem mundial em construção acelerada. É também aí – e sobretudo aí, se calhar – que melhor podemos perceber as diferenças entre os princípios de cada um e o que está em causa numa escolha entre um democrata e um antidemocrata. Sem simplismos.