Chamam-lhes péptidos e prometem quase tudo: recuperar lesões em poucas semanas, rejuvenescer a pele, estimular a hormona do crescimento, ganhar músculo, travar o envelhecimento. São pequenas cadeias de aminoácidos que funcionam como mensageiros no organismo, tal como os novos medicamentos para a diabetes e a obesidade, mas com uma diferença decisiva: esses foram testados em ensaios clínicos e aprovados, e muitos dos que circulam nas redes não. Vendem-se em frascos e canetas injetáveis, com linguagem de laboratório e códigos de desconto, e circulam sobretudo pela mão de influenciadores. Luque Turnock, investigador da Universidade de Lincoln que estuda o fenómeno, disse à revista TIME que “deixaram de ser coisa de culturistas e estão a tornar-se correntes”.
Mas a popularidade tem avançado muito mais depressa do que a ciência. A evidência sobre muitos destes produtos resume-se a estudos em animais, e alguns estão proibidos no desporto de competição por constarem das listas antidopagem internacionais. Muitos chegam do mercado paralelo, sem controlo de qualidade. E mesmo quando o rótulo promete um determinado composto ou dose, não há garantias de que seja isso que está realmente “dentro do frasco”.
Os reguladores começam a reagir, nem sempre no mesmo sentido. Em julho, a agência francesa do medicamento pediu à população que não os comprasse nem os injetasse, depois de receber notificações de efeitos adversos graves, como lesões no fígado e reações alérgicas severas. Nos Estados Unidos, pelo contrário, discute-se abrir caminho a alguns destes produtos, contra a opinião dos próprios cientistas da agência do medicamento. No nosso país, o tema ainda não chegou ao debate público com a mesma força. Mas a internet não tem fronteiras, e o que se vende num feed vende-se em todos.
Os péptidos são apenas o caso mais visível de uma mudança maior. A desinformação em saúde tornou-se também um mercado, com produtos, comissões e audiências fiéis. E as pessoas agem com base no que veem. O relatório anual da consultora norte-americana Trilliant Health, divulgado na semana passada, indica que 49% dos doentes já fizeram um autoteste a uma doença ou sintoma, e que 17% pediram uma análise por causa de algo que viram nas redes sociais. O caminho até ao diagnóstico começa, cada vez mais, num vídeo de 30 segundos.
Portugal não está à margem. Segundo o estudo “Os Portugueses e as Redes Sociais 2026”, da Marktest, o Instagram é, pelo terceiro ano consecutivo, a rede social mais usada pelos portugueses. Curiosamente, quando se pergunta qual é a mais credível, a resposta é outra: o LinkedIn. Os portugueses sabem, portanto, que nem tudo o que lhes aparece no ecrã merece confiança. Mas é no feed que passam mais tempo, e é aí que a mensagem mais repetida tende a ganhar.
Perante isto, a tentação é responder com proibições e desmentidos. São necessários, mas chegam tarde e a menos gente: um desmentido raramente tem o alcance do vídeo que desmente. Quem vende o milagre fala de forma simples, próxima e constante. Quem tem a evidência fala, muitas vezes, em linguagem técnica e em canais que poucos frequentam. Enquanto for assim, a desvantagem é da ciência.
Esta é uma responsabilidade partilhada entre instituições de saúde, médicos, indústria e meios de comunicação. Outubro, Mês da Literacia em Saúde, é um bom momento para recordar que os profissionais de saúde precisam de estar presentes nos espaços digitais onde as pessoas procuram informação, preparados para comunicar, com formação adequada e reconhecimento por esse trabalho. É igualmente necessário definir regras claras para a publicidade de produtos de saúde feita por influenciadores, garantindo transparência nos conteúdos patrocinados e escrutínio das mensagens divulgadas. E importa levar a literacia digital em saúde às escolas, para que os mais novos aprendam cedo a perguntar quem está a falar, com que interesse e com que provas.
O algoritmo não tem diploma nem responde pelos erros que propaga. Mas fala todos os dias com milhões de pessoas. Se a ciência quer ser ouvida, tem de estar onde as pessoas estão. E, sobretudo, tem de ser capaz de competir pela atenção sem abdicar do rigor.
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