Se não me engano, estávamos em junho de 2002. O Jorge Palma ia dar alguns concertos no Villaret, em Lisboa, e era a oportunidade perfeita para eu tirar os pensamentos do sítio escuro em que me encontrava.
Fui. Meio orgulhoso por ir sozinho, meio envergonhado por ir sozinho. Já o tinha visto, mas não sabia bem o que esperar. Já o tinha visto ao vivo, mas o estado embriagado em que se apresentara escondera a magia das canções que eu queria ouvir. A embriaguez servia para agradar aos imbecis que glorificavam a bebedeira e olhavam para o espetáculo como quem olha para um acidente.
Ouvi muitas canções pela primeira vez. Ainda o Spotify não era imaginado, por isso só conhecia as que estavam nos poucos discos que eu tinha conseguido comprar. Ouvi algumas das canções que eu queria mesmo ouvir e, quando o resultado dos concertos saiu em disco um tempo depois, convenci-me de que era meu aquele grito que se ouve assim que ele solta o “Tira a mão do queixo…”. Enfim, convenci-me e, de certeza, muitos outros comigo.
Não posso ter a certeza, mas era capaz de jurar que, naquele dia, ele não estava embriagado. A hesitação numa ou noutra letra fazia parte do charme e recuso-me a acreditar que a forma inquietantemente determinada e sombria com que tocava piano na “Balada de um estranho” podia ser alcançada por um mortal, quanto mais por um mortal alcoolizado.
Naquela noite, certamente devido ao lugar negro, isolado e sem esperança em que vivia na altura, houve uma canção que ficou comigo para sempre. Ouvi-a pela primeira vez e perguntei-me porque raio é que, num teatro atafulhado de gente, o Jorge Palma cantava uma canção só para mim. Enfim, esquisitice de artista.
“Buscando sem saber bem o quê / Perdido como quem não vê / Calado como quem não tem resposta para quem o chama”. Como assim, pá? “Desencontrado como quem por ter medo da foz o rio condena”, dizia ele. Como assim? Quem mais se lembraria da peregrina ideia de cantar uma canção de propósito para o miúdo que se sentava desgraçado naquele lugar da sexta ou sétima fila?
Há muita gente que se pergunta pela utilidade da arte. Há quem a veja como oportunidade de negócio, há quem a veja como forma de passar o tempo. Para mim, ela não é nada disso. A arte, a boa, dá-nos novas linguagens para entendermos e interpretarmos a realidade. Podemos já ter passado cinco mil vezes pelo mesmo edifício e estarmos tão familiarizados com ele que já nada nos surpreende, mas a arte é um par de óculos de raios-x que nos deixa olhar lá para dentro e vê-lo como se fosse a primeira vez.
Nós temos esta coisa incómoda, chata e limitadora de precisarmos de palavras para descrever o mundo. Precisamos de nomear as coisas, encaixá-las em categorias. Sabemos as características que separam uma porta de uma janela, mas precisamos de artistas bons para termos acesso à linguagem que nos permite perceber como raio é que uma janela se pode fechar e transformar num ovo.
A boa música, como a do Jorge Palma, dá-nos isso. As palavras podem já ser todas nossas conhecidas, mas colocá-las assim, daquela forma, abre uma nova amplitude nas nossas cabeças que alarga os horizontes dos possíveis mais e mais para lá.
As notas e os acordes já nos podem ter passado pelos ouvidos vezes sem conta pelas mãos de outros músicos, mas há qualquer coisa na passagem para o refrão da Canção de Lisboa que nos leva a outro sítio e que depois nos traz de novo. Como se fosse razoável passar de “As vielas de neon / E as guitarras já sem som / Vão mantendo viva a tradição da fome / Que a memória deturpa e o orgulho consome / Entre o orgasmo na gruta ainda fria / E o abandono da carne vazia” a toda a gente bater palminhas e cantarolar o refrão como se, aliás, este fosse particularmente animado.
Não é razoável. Não é expectável e abre em nós, mesmo que não nos apercebamos, a possibilidade de cantarmos e batermos palminhas por todos os refrões miseráveis das nossas vidas. E assim sobrevivermos a mais um dia, e eventualmente sairmos dos lugares escuros em que às vezes nos encontramos.
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