Olá querida Chéu,
Obrigada pelo envio da revista Elle França desta semana com Giséle Pélicot na capa e o título “Decidi ser feliz”. É curioso como a vergonha e a felicidade podem estar relacionadas de forma absolutamente tóxica e doente, guiando as nossas vidas por vezes até buracos profundos de onde é difícil sair. A vergonha pode funcionar simultaneamente como chicote e como travão em momentos decisivos da nossa vida. E a felicidade pode ser uma ideia construída a partir de modelos e aspirações assentes em princípios distorcidos e gestos imorais.
Podemos passear-nos alegremente num carro que não podemos pagar, ter um estilo de vida impraticável para a nossa conta bancária, exibir roupa que, sabemos, nos custou tão pouco porque recorre a trabalho escravo, saber que o nosso vizinho bate na mulher e cumprimenta-lo com carinho quando o encontramos na rua, namorar um homem casado e afirmar que não somos nós quem está a trair a mulher, e tudo isto sem receber um comentário crítico de alguém ou dormir mal durante a noite. Por outro lado, uma pessoa pode nunca divorciar-se por vergonha do que isso possa significar para o seu círculo social, ou por vergonha de falhar um casamento. Pode morrer de vexame antes de largar uma vida de restrições e abraçar um sonho, se este não for aceite pelos que a rodeiam, ou nunca dizer que sim a um amor da sua vida, se tal implicar quebrar tabus ou morais rígidas. A vergonha pode impedir uma pessoa de dizer que não em situações limite ou de humilhação evidentes por medo da desaprovação dos demais, e se imaginarmos que a vergonha serve hoje, com maior facilidade, para calar vítimas de ações de extrema violência (moral, física ou social) enquanto parece permanecer ausente da vida daqueles que cometem e apoiam crimes, poderemos concluir que a felicidade tem de criar uma certa imunidade à vergonha para poder singrar num mundo que premeia a crueldade, a ilegalidade e o abuso exibidos como atributos aceitáveis de muitos biltres considerados bem sucedidos e poderosos.
Por isso me comove esta frase: “Decidi ser feliz” de uma mulher que, há dois anos decidiu não ter vergonha e com isso mudou as regras do jogo do decoro.
Ter decoro se calhar é não viver escondida da sua própria realidade. Quantas de nós podem dizer que praticam essa forma de coragem?
Virginia Woolf dizia: é muito fácil seres feministas, basta escreveres a verdade sobre a tua vida.
Será que nós seremos capazes de o fazer? E será que com esse gesto poderemos contribuir para que a vergonha mude de lado?
Esta rubrica é uma troca de correspondência entre Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela