O que aos supremacistas brancos portugueses falta em branquitude eles compensam com uma larga imaginação e, verdade seja dita, exacerbada confiança de quem acredita mesmo que vai salvar a pátria. “Somos o escudo e a espada da Nação”, dizem eles. O problema? Ninguém acredita neles tanto assim para nos conduzirem ao éden da autoimportância, sobretudo porque as apregoadas ideias da raça superior se fundamentam tanto nos atributos físicos quanto nos intelectuais. Ora, escasseando uns e outros, fica difícil criar um movimento de massas que ponha fim ao regime.
O que sobra então para convencer o povo? Segundo a Polícia Judiciária, que através da Operação Irmandade pretendeu desmantelar o Grupo 1143, comandado por Mário Machado a partir da prisão, estes neonazis preparavam uma “guerra racial”. O agente da PSP que pertence ao grupo e foi detido pela PJ desenhou mesmo um cartaz a chamar pedófilo ao profeta Maomé e a ideia era lançar um vídeo do mesmo teor, agora em fevereiro. Achavam eles que isso iria provocar os imigrantes muçulmanos e, quem sabe, atiçar até violência, estando já os elementos do 1143 a ter treino militar para se prepararem para a guerra.
O problema desta manobra, agora revelada, é que vem dar razão às pessoas que rejeitam ver a imigração indostânica (nem todos muçulmanos, aliás, sendo uma grande parte de religião hindu e também os haverá sem qualquer fé) como uma ameaça. Se, de facto, estes imigrantes fossem tão violentos quanto os pintam, qual a necessidade de engendrar uma provocação? Bastaria combater na guerra que já estaria espalhada pelas ruas. Por outro lado, se os imigrantes muçulmanos quisessem mesmo impor a sua religião, metendo uma burca a cada mulher portuguesa, quais as ideias que iriam combater isso? As que defendem a liberdade e a igualdade das mulheres ou as que querem voltar a confiná-las à cozinha? Agora complicou.
Mas não deixemos a ironia minimizar os perigos destes grupos. Ainda segundo a PJ – que deteve 37 indivíduos, entre os quais três militantes do Chega, um militar da Força Aérea e o já referido agente principal da PSP –, o número de elementos do Grupo 1143 aumentou exponencialmente desde 2020, trata-se de um movimento em clara expansão, recrutando sobretudo elementos mais jovens.
Os agora detidos estão indiciados por um total de 94 crimes. Cinco dos suspeitos ficaram em prisão preventiva, incluindo um dos cabecilhas, Gil Costa. Ele terá estado presente, junto com outros suspeitos, no espancamento de um imigrante na estação de serviço de Aveiras, em outubro. O imigrante, pertencente à comunidade sikh, com origem na Índia, foi atacado por um grupo de duas dezenas de neonazis, o que mostra bem com que valores morais se faz esta “raça superior”.
Para a Polícia Judiciária, que tem em marcha uma campanha nacional contra o ódio e tem sido exímia em pôr os pontos nos is no que diz respeito à associação desonesta entre criminalidade e imigração, a sua operação foi preventiva. “Não queremos voltar a ter nem gente que fique como inválida, nem gente que veja casas incendiadas, nem gente que seja morta”, disse Luís Neves, o diretor da PJ.
Porque uma certeza há: é mais fácil ir parar à prisão pertencendo a grupos destes do que convivendo em paz com os imigrantes muçulmanos. Um aviso tanto para os pais que ignoram como para os que incentivam a radicalização dos seus filhos através de discursos de ódio. Em nome de uma superioridade que esconde muito mal a sua baixeza.