Se tivéssemos de pensar no itinerário poético de Maria Teresa Horta (MTH), facilmente destacaríamos do conjunto da sua obra esse livro de impacto internacional (e a questão política que se lhe associou no quadro do fascismo), Novas Cartas Portuguesas (1972) escrito com Maria Isabel Barreno (1939-2016) e Maria Velho da Costa (1938-2020).
A questão autoral é, quanto a esse livro, indissociável do projecto híbrido de uma escrita feita a três e do que, revolucionariamente, esse livro contém de disrupção dos códigos literários, pois que tudo nele é pretexto para questionar verdades anquilosadas, as sexuais, as políticas, as sociais e as da policiada linguagem.
Sempre com a questão feminina como alegoria e símbolo da opressão que os poderes exercem sobre os corpos e as ideias, as palavras e os comportamentos, o que essas “novas cartas” inauguram é um fazer verbal absolutamente novo, prolongando o diálogo entre os anos 60 e 70 e as vanguardas de início de novecentos, num processo de fabricação de uma estranha, e por isso criativíssima expressão lírico-romanesca que, como bem viu Eduardo Lourenço, fez da geração que se revela literariamente nos anos de 1960, essa que o ensaísta crismou como “os filhos de Álvaro de Campos”.
Maria Teresa Horta não pedia menos à existência do que o ela ser uma vida com os olhos postos na verdadeira vida num algures iluminado pelo signo poético
De entre os quatro ou cinco autores verdadeiramente revolucionários e inovadores das formas de disrupção do literário – Almeida Faria (1943), Luiza Neto Jorge (1939), Fiama (1938-2007), Gastão Cruz (1941-2022) – MTH foi a que mais radicalmente encarnou, no contexto dos anos de 1960-1970, forma de estar na vida que, como o seu lido e relido Rimbaud, não pedia menos à existência do que o ela ser uma vida com os olhos postos na verdadeira vida num algures iluminado pelo signo poético.
A sua obra reflete, por isso mesmo, as imbricadas relações entre uma escrita e uma biografia.
Será sempre redutor catalogá-la em função de qualquer forma de feminismo, pois MTH, como deixou escrito em inúmeras entrevistas, testemunhos, textos, intervenções, não fez dessa bandeira de afirmação do corpo e da sexualidade, do papel social da mulher numa sociedade cujas formas de dominação foram e são concretizadas por uma ideologia concentracionária de poder masculino, um discurso contra os homens.
O seu percurso de poeta é, como bem viu Maria João Reynaud em prefácio à edição de Poesia Reunida (Dom Quixote, 2009), inseparável de uma ética que é fundada numa estética.
Essa estética não a quis nunca MTH transformar numa afirmação de um sexo contra o outro, buscando antes uma complementaridade, mesmo se é evidente a dimensão intimista do seu discurso.
Poética no epicentro de uma revolução linguística
Mesmo podendo ser confessional, a sua lira não alinha na exasperação sentimental, preferindo antes uma depuração que se vê nessa “imaginística geometrizante” e nessa “valorização prosódica em alto grau” do que, vindo dos anos de 1950, tinha sido a procura de uma expressão a um tempo arquitetural e material da palavra.
A sua poética inscreve-se, desde 1960, quando publica em edição própria, Espelho Inicial, precisamente no epicentro de uma revolução linguística que se não compreende fora do combate moral dos corpos, do amor e do desejo.
Se esse combate é um combate por Eros, é-o porque é a escrita da poesia se faz combate pela vida num tempo de recrudescimento de novos paternalismos. MTH perseguirá sempre a palavra vivificadora, cantabile, cultivando uma brevidade que espelha bem quanto a sua voz não era compatível com grandiloquências e retóricas declarações de princípio.
Perseguirá sempre a palavra vivificadora, cantabile, cultivando uma brevidade que espelha bem quanto a sua voz não era compatível com grandiloquências e retóricas declarações de princípio
Uma poesia musical, sem dúvida, com uma criatividade verbal assente em subtis jogos fonomelódicos tentando, pelo ludus de um corpo a corpo entre palavra dita e palavra escrita, palavra da polis e palavras da intimidade, responder, desafiando-os, a esses paternalismos.
Nessa colectânea de 1960, nas vésperas de um guerra que ceifou as vidas de milhares de jovens e roubou o amor e a liberdade de mulheres e homens jovens, a Poeta erguiar essa palavra contra o um país fechado em si mesmo, adormecido e morte pela longa noite do fascismo: “seguimos / ampliados de vontade / contra o tempo” (PR, 47).
Com os seus companheiros de aventura editorial da Poesia 61 (Fiama, Casimiro de Brito, Gastão Cruz e Luiza Neto Jorge), não hesitará em gravar o erotismo dos beijos na cidade asfixiante como mandamento (leia-se o “Poema para Noite”).
Fazer seu o tema do corpo e do sexo, exclamar a fruição dos sentidos é um gesto que – com consequências práticas na vida da autora, vítima da violência dos esbirros da PIDE, perseguida, cobardemente sovada, numa rua de Lisboa, por homens que detestavam a sua palavra e acção livres; interrogada, sempre olhada de lado já mesmo em tempo de democracia por ter a coragem de apontar o dedo aos “capitalistas das palavras” (expressão de Sophia que poderia ter sido dita por Teresa) – a evolução da sua obra erige-se contra a ordem simbólica da linguagem da opressão.
Nesse sentido, a sua poesia um grito de libertação (a presença o magistério teórico-poético de Ramos Rosa foi, de resto, muito claramente seguido por MTH) também contra a instituição falocrática do sistema literário; poesia-tatuagem de forma a ficar inscrita a sua voz na pele do corpo social, tatuagem impossível de apagar, de remover.
Só cortando, ferindo seria possível anular a presença dessa voz de combate que é poético e político, mas não panfletário, antes consciente fazer da poesia como inscrição, palavra marmórea, experiência estética sentida e pensada até ao osso: “Ossifico a dor/ o dia// Tatuagem/ de tatuar o espaço/ livre” (PR, 123).
Em 1971, depois dos decisivos livros da década anterior onde o eco das albas e das barcarolas é resgatado (e nisto muito lhe deve a poesia medieval, relida com enorme originalidade pelas três poetas maiores de 1960 – Fiama, MTH e Luiza Neto Jorge), aprofunda-se o diálogo com a figura do anjo, ou o tema do angelismo que, de resto, era ainda uma forma de filiação de MTH com certas zonas da nossa poesia da década de 50 (penso em Echevarría e sua espiritualidade).
Espiritualidade do corpo
Obsessiva presença, a de Rilke, mas também de certa tradição mística que passa por Hildegarda de Bingen e vem até Emily Dickinson, o angelismo originalíssimo da autora de Mulheres de Abril (1977) tem, em 1980, com a publicação de Os Anjos (Litexa, 1983) a sua mais plena estesia.
De certo modo, nesse livro se cristaliza uma determinada codificação da poesia, isto é, um código “maria teresa horta” por meio do qual a poesia se associa à espiritualidade e ao corpo.
Um código de livre circulação de imagens fálicas com imagens poético-esotéricas: em MTH a aventura dos sexos que não dispensará nunca a metafísica desses sexos. Entre 1971 e 1983, portanto, consolida-se em definitivo uma forma de linguagem que será inimitável.
MTH faz da escolha de certas palavras do campo da sexualidade feminina (clítoris, vagina, metáforas como “boca do corpo”, “púbis”, “líquido”), uma via de democratização do que seria, mesmo depois de 1974, julgado por demais heterodoxo.
Esse angelismo sexual, essa erótica verbal (que é a poesia, disse-o Octavio Paz), chega até um dos mais importantes livros já neste século, Poesis (Dom Quixote, 2017) onde MTH reafirma a sua profissão de fé no poder criador e vidente das poetisas.
Percurso de enorme coerência estética e ética, depois de volumes tão relevantes como Tatuagem (plaquete de Poesia 61), Cidadelas Submersas (1961), Verão Coincidente (1962), Candelabro (1964), Cronista não é recado (1967), publicados sempre na Guimarães Editores, chancela relevantíssima à época, sublinhe-se.
E atinge com Minha Senhora de Mim o zénite absoluto e, como disse anteriormente, com esse livro se funda um código inteiramente seu.
Há, com efeito, versos desse livro – na sua concisão e desenho vertical, na sobriedade e economia métrica e versificatória, na sábia modulação entre o dizer o erotismo e o sugerir outros veios do lirismo tradicional – que são lapidares e que hoje, em 2025, continuam a surtir enorme efeito (é ler em voz alta poemas de Teresa e ver a reação dos ouvinte, entre o fascínio e o incómodo).
Livro essencial, pois: para dizer o tópico da tristeza, a saudade, o motivo da mãe, o amor como vício e veneno, de camoniana linhagem; para reequacionar os lugares do lírico escrito pelo feminino, os textos desse livro põem em funcionamento um eu introspetivo (“Regresso para mim/ e de mim falo”), em conflito com a cisão (“e desdigo de mim/ em reencontro”) que, necessariamente, tem de se posicionar perante aquele “falar” masculino em poesia que, por ser fala, é o símbolo – o falo da fala – a enfrentar.
Maria Teresa Horta – a voz que, já depois do 25 de Abril escreve o libelo mais impressionante contra a violência doméstica em Portugal […] sempre soube que a luta pela liberdade (valor absoluto para ela) é uma luta pela palavra livre dita por um corpo igualmente livre.
Um poema exemplar deve ser lembrado: “Comigo me desavim/ minha senhora/ de mim // sem ser dor ou ser cansaço/ nem o corpo que disfarço” (reedição, Dom Quixote, 2015). Um lirismo, pois, que é, sobretudo, um lirismo da linguagem porque é a língua para uma outra poesia o que MTH incessantemente procurou e, procurando essa outra língua para a poesia, procurou-se na poesia: “desperta a causa/ e desperta a língua/ a procurar o meu prazer/ na ferida” (idem).
Os inúmeros pontos de intersecção deste livro marcante da sua obra com o temário do mors amor da tradição cancioneiril (a sábia absorção do tópico dos olhos tristes que, dos cantares de amor medievais, pejados de coita, a João Roiz de Castel-Branco e Sá de Miranda, passando pelo motivo da “menina”, vindo de Bernardim, tudo isso é tratado, magistralmente, pela poeta), essa entrega a um ofício quase mágico da palavra de que é a oficiante inspirada por um Daimon (feminino, natureza naturada e natureza naturante), estas e outras chaves de leitura devem ser relacionados com o que de Júlia Kristeva e de Simone de Beauvoir MTH aprendeu.
Há um aspecto essencial a ter em conta para voltar a lê-la, e que, a meu ver, deriva dessa teia de relações ora subtis, ora mais evidentes, entre a construção dos seus livros e textos e a conceção da literatura como um grande corpo de textos a fruir e a conhecer, prazerosamente, com o júbilo de uma aventura amorosa.
Maria Teresa Horta – a voz que, já depois do 25 de Abril escreve o libelo mais impressionante contra a violência doméstica em Portugal, corpo de textos atualíssimo pelo dramatismo das cenas poéticas, pela imaginação dos poemas-relato, pela forte carga do lirismo trágico feito a partir de notícias de jornais – sempre soube que a luta pela liberdade (valor absoluto para ela) é uma luta pela palavra livre dita por um corpo igualmente livre.
Se quisermos reaprender a ler Maria Teresa Horta é essa ideia de texto-trama-tecido que, como ofício realizado por uma Penélope anunciadora, teremos de compreender.
A autora de Feiticeiras (2006) sempre soube que é a cultura ocidental e as suas tramas emaranhadas da História o que está em causa ler e desfiar. Apostando todas as fichas na dedicação à arte da palavra – a poesia – podia igualmente ter feito seu o verso de Jorge de Sena: “Fiel dedicação à honra de estar vivo”.
Uma fidelidade que se sente mesmo nos seus últimos livros – lembro As Palavras do Corpo (2012), A Dama e o Unicórnio (2013), ou Anunciações (2016) – e que, pelo gozo das formas poéticas, pela manipulação verbal que era um corpo a corpo com a poesia e a sua historicidade, só como gesto político, sem entrar em modas e sem ceder ao fácil, pode ler-se.