A Islândia é efetivamente a Boca de deus e este é o melhor titulo que o Valter podia ter encontrado. Tento convencê-lo disso, ele rejeita. Recordo-me de ter ouvido a história de como Jorge Amado considerava que a sua família lhe tinha destruído a Dona Flor e os Seus Dois Maridos por opinarem demasiado. E por isso desisto. Nada é mais dramático do que a escolha de um título. Ele comporta em si todas as possibilidades e limitações. Calculo que seja o mesmo que batizar uma criança. Continuo a não gostar do título do meu novo filme, O Sentido da Vida. E se bem que se trata de um título devidamente roubado aos Monty Python, não deixa de tresandar a livro de autoajuda. The Meaning of Life não é o sentido da vida. Seria mais correto escolher “o significado da vida”… no fundo a questão primordial é essa.
Mais uma vez ao regressar choro compulsivamente no avião. Dias melhores, dias piores, cansaço, felicidade tudo é uma desculpa para temer a morte que considero iminente. Lá em baixo não se vislumbra terra. Apenas se deduz… A forma da nuvem gigantesca tem a forma e o tamanho da ilha. A Daniela (minha produtora) dá-me a mão… Diz que tudo vai correr bem e a verdade é que sempre corre. A Boca de deus, que o Valter inventou, é necessariamente imperscrutável e por isso é um retrato tão fiel da Islândia. A ilha é triste, inóspita, impossível de viver e inacreditavelmente bela. Entrar em nevoeiro cerrado é o máximo de solidão que se poderá atingir. Não existe o outro, nem paisagem, nem coordenadas. Só a consciência da nossa própria solidão. Será talvez a experiência mais próxima da morte. E sair … a de sobreviver.
O meu pânico da morte faz-me agora amar profundamente a vida. E nos últimos tempos qualquer viagem que viva, qualquer relação que tenha, faz-me agradecer a um deus, no qual não acredito, a possibilidade de viver/experienciar aquele momento. São três da manhã. Estou de óculos de sol. A luz branca fere os olhos, sobretudo quando refletida num glaciar… Será que as coisas só existem realmente quando as vivemos. Sete horas de viagem e chegamos aos Fiordes.
Não sou new age… odeio a metafísica mas juro que vivi o dia mais feliz da minha vida, um orgasmo constante, um orgasmo visual durante sete horas em que me foi dada a possibilidade de ver a paisagem mais extraordinária com que alguma vez me deparei, religiosa na sua majestade. Penso no privilégio que é a minha vida e na possibilidade de compartilhar este momento com a Daniela que amo, odiando. Com o Valter, que irei amar e odiar também por toda a vida. E percebo que a Islândia é não ter medo, é estar sentado no topo de um carro a filmar e não ter medo do abismo. É estar deitado num tanque de água quente, perdido na paisagem com temperaturas negativas. É perceber que tudo é maior de que nós e que pouco há que possamos fazer.
Apenas lutar e no final de cada uma das batalhas aceitar serenamente o nosso destino. O Hilmar [Örn Hilmarsson] aceita participar no filme. Ironia do destino, o Valter tinha dedicado o livro ao Hilmar. O Hilmar é um padre viking, mas é também o mentor e causa da origem da nova cena musical islandesa, da Björk ou de uma banda como Sigur Rós. Vista da torre da igreja, Reiquiavique parece uma cidade de bonecas, com os seus telhados multicolores. Uma Lisboa de outros tons. Na mesma escala, na mesma solidão e com a mesma necessidade de fuga.
Um povo feito para sair e para voltar quando percebe que é na paisagem que reside o mais intimo do seu eu. A paisagem é deus. A Islândia a boca de deus. E por isso penso de novo, o quão foleiro é o titulo do meu filme e de como em nada traduz aquilo de que eu quero falar: o Mundo, a beleza e o grotesco do mundo. A Dádiva e o Nojo. E se a paisagem é deus e, a Islândia, a sua boca, então o mundo seria: o cu de deus. A possibilidade de um título.
*Acidentalmente, na edição impresa do JL este texto foi cortado nos dois últimos parágrafos. Ao realizador e aos leitores as nossas desculpas.