Sexta, 13 de maio. É provável que as televisões transmitam em direto de Fátima. Na aldeia de Cabanas de Cima, encostada à foz do Sabor, não há um único café. Em casa de Carmilde Nogueira, que nos convida a entrar, o televisor está desligado. Cheira à barriga de porco grelhada que há de ser servida ao jantar, com batatinhas novas.
Falta pouco para as 5 e meia da tarde. Hora da novena. A igreja, que parece de brincar, fica lá longe, na entrada da povoação. Mas a maioria dos habitantes tem dificuldade em chegar lá. Por isso, a imagem de Nossa Senhora de Fátima foi trazida para a Casa do Povo, mais central, que guarda cadeiras e secretárias do tempo (longínquo) em que era escola primária. Hoje serve para tudo. Às vezes, faz de capela, velam-se os que partem ou, como agora, reza-se a novena com homens de um lado e mulheres do outro. Mas vezes há em que, nesta mesma sala, se fazem festas de batizado ou churrascos para angariar fundos para a padroeira da aldeia. As chaves estão com a pessoa que mora mais perto Áurea Almeida, 87 anos, vive na porta em frente.
Chegámos a Cabanas à procura do senhor que todas as sextas aqui passa a vender um pouco de tudo o que possa abastecer o frigorífico da meia centena de pessoas que cá moram. “Tanto pode vir às 4 e meia como às 7 da tarde”, tinha-nos avisado Áurea. Hoje, não lhe comprará nada. Todos os dias “à meia” (12 e 30), o lar de Lousa uma aldeia perto, com mais habitantes, “há-os lá que não se conhecem uns aos outros” traz-lhe a merenda em troca de cem euros mensais: “Dá para almoçar, jantar e ainda sobra para os cães.” Ao sr. Diamantino, que, de segunda a sábado, com a sua frutaria, talho e peixaria ambulantes, parte de Chaves rumo às aldeias do Nordeste, recorrerá mais perto do “dia primeiro”, quando o filho emigrado no Brasil a vier visitar.
Esperaríamos por Diamantino Rodrigues, 33 anos, até depois das 8 da noite. Antes dele, viria a carrinha de nove lugares com as crianças que regressam da escola primária, em Moncorvo. Em Cabanas, sai apenas uma, Daniel Jacó, 10 anos, neto de Carmilde.
A longa carrinha Isuzu branca de Diamantino entra embalada pela rua que atravessa a aldeia. Apita ininterruptamente para avisar que estacionará, como de costume, no largo central. Traz fruta e hortaliça, carne e peixe congelados, queijo, fiambre, tremoços, gelados. E, sobretudo, o colorido e a magia da cidade.
O Daniel, que tinha chegado da escola, ouve o apito e puxa a mãe até ao Largo. Quer um gelado. É dos primeiros, mas mais de 20 pessoas hão de parar a comprar e a conversar, em frente da loja ambulante. Diamantino desce, colar de ouro escondido pela bata branca, deixa escapar a sua graça. Perguntam-lhe pela barba por fazer. “Estou de luto, morreu-me a amante e assim a minha mulher não nota”, responde. Piadas como esta fazem a alegria de quem compra, fidelizam clientes. A par de perguntas certeiras, como a que dirige à “Tia Cecília”, que chega de bengala. “Então está melhor? Pensei que não a voltava a ver!”, diz à senhora, de 79 anos, que sofreu um AVC e passou semanas internada.
Há sete anos que Diamantino passa por Cabanas. Tinha patrão, mas há três meses estabeleceu-se por conta própria. “Faz-se muito dinheiro”, não esconde (compram-lhe mais de mil euros por dia em produtos). A carrinha foi feita à medida, em Espanha, com pormenores deliciosos, como as duas gavetas de onde saem a tábua de cortar e a máquina registadora.
Hoje, está no final do dia de trabalho. Passou por nove aldeias, tem uma viagem de duas horas pela frente, até chegar a casa, mas fala com as pessoas como se não tivesse relógio. Oitavo ano feito, alma de comerciante, cada gesto dirá mais tarde é… pensado. A barba serve, afinal, “para não dar ar de chavalo”, os gelados são oferecidos “porque sei que mos vão pagar (com compras) outro dia”.
O jeito sai-lhe natural, vê-se que gosta do que faz: “As pessoas precisam de quem lhes dê atenção. Estão cá sozinhas, andam todo o ano a aforrar para os filhos que não as vêm ver.” Sabe que muitos fregueses só lhe compram mercadoria se for comer um chouriço e beber um copo com eles à adega. Isto os homens. As mulheres pedem-lhe para trocar o cheque da pensão em dinheiro vivo e confiam nele para lhes tirar do porta-moedas o valor que indica o recibo.
Com o que ganha, Diamantino já comprou um BMW 530, um jipe de trial, uma moto, uma vivenda com mais de 3 mil metros quadrados de terreno à volta. “Se vendesse na minha aldeia, ninguém me comprava”, ri-se. Mas sai-lhe do corpo. Mais de 2 mil km por semana, às vezes é meia-noite e ainda não está na cama, mesmo sendo raro o dia em que se faz à estrada depois das 9 da manhã.
CHEGOU O CARTEIRO…
Talvez o carteiro Carlos Cascais já se tenha cruzado com Diamantino, nas estradas de Torre de Moncorvo. Só por acaso o seu giro não inclui a aldeia de Cabanas. O concelho é o mesmo. Correio organizado, põe a carrinha Kangoo vermelha a trabalhar, pelas 11 da manhã. Aos 37 anos, tem bem presente a alegria da chegada do carteiro a Sequeiros, aldeia onde nasceu: “Era uma festa, pelo barulho da motorizada já sabíamos que ele vinha. As pessoas estavam à espera de notícias dos filhos emigrados, dos namorados que tinham ido para a guerra.” Apesar dos telemóveis e da internet, que por aqui poucos têm, “o carteiro é ainda muito bem visto”, diz. (Pelos cães é que não, já foi mordido três vezes e, por mais que o conheçam, ladram sempre à sua chegada…) Mudar, Carlos mudava o tempo que tem para fazer o giro pelas seis aldeias que lhe calharam em sorte. Precisava de mais. Como veremos, durante as quase seis horas em que o acompanhámos, a profissão que tem está longe de se resumir à entrega de cartas…
Antes de deixar Moncorvo, há de entrar na tabacaria e pagar do dinheiro dele um jornal para entregar em Maçores “depois devolvem-mo”, explica. E então, sim, guia por estradas que parecem miradouros, com vista para olivais, amendoais e vinhas durienses.
Há quem esteja atento à sua chegada e venha buscar o correio ao carro, há quem espere por um apito para aparecer à porta. Há até quem tenha dificuldade em andar e lhe peça, da janela, para entrar e deixar a correspondência no cimo das escadas.
“Faz o que lhe mandamos, coitado…”, dirá, logo no início uma senhora de óculos de sol, operada há dias às cataratas. Carlos leva-lhe a pensão e abre-lhe o envelope, sem ser preciso que Adelaide Teixeira, 76 anos, lho solicite. Já sabe o que tem a fazer: desconta €1,30 que os CTT cobram pela entrega em dinheiro da pensão e dá-lhe as notas. “É para beberes uma cerveja”, diz Adelaide enquanto lhe passa um euro para a mão. Hoje é pela reforma, outras vezes é porque Carlos lhe preenche os papéis para a Junta de Freguesia.
Muitos pedem-lhe para ler os valores que vêm nas cartas das Finanças, dão-lhe dinheiro para pagar contas e vales de correio para despachar na cidade. Se, num dia, Carlos sabe que alguém está doente, no dia seguinte, bate à porta para se certificar de que quem lá mora está bem.
Números de porta é como se não existissem “A maior parte destas aldeias não os tinha há três anos.” Conhece as caras e os nomes de todos os habitantes. Quando, nas aldeias Açoreira e Maçores, vai a pé distribuir o correio, quem com ele se cruza pede-lhe em mão as novas que traz. Ele é paciente, dedicado. Ter sido eleito tesoureiro da Junta de Freguesia não será fruto do acaso… Os que conhece melhor é por “ti” que trata. Como Lurdes Pando, 80 anos, que aparece com pano branco na cabeça para se proteger do sol. Tem um problema de pele grave, mais de metade da pensão (366 euros) é para pagar médicos e medicamentos. De segunda a sexta, Carlos leva-lhe correio e ânimo: “A ti Lurdes é muito cismática, já lhe disse que não pode ser assim”, insiste.
E põe-lhe o dedo indicador na caixa de tinta para com a impressão digital confirmar a receção da reforma. “Quando não sabem escrever tem de ser assim”, explica. Logo em seguida, ti Adelaide, num gesto carinhoso, há de passar-lhe a mão pela careca, pedir-lhe que use chapéu.
Nos mais de dez anos que Carlos leva como carteiro, dá-lhe pena ver as casas a que já deixou de ir: “Os idosos vão morrendo e as casas ficam desabitadas. Normalmente todas as pessoas mais jovens estudaram e tiveram que sair daqui.”
O PADRE POP
O percurso de Victor Silva destoa. Tem 37 anos e veio do centro para o interior, dar aulas de Religião e Moral e ser pároco, em sete aldeias do concelho de Moncorvo. Em popularidade rivalizará com o carteiro Carlos. Mas a fama do padre Victor não se limita ao concelho. Tem álbuns de música pop gravados e duas das suas canções já deram banda sonora de novelas da TVI. No sábado, 14, o pai de uma aluna pediu-lhe que fosse abençoar o restaurante que a família inaugurava nesse dia, em Torre de Moncorvo. Ele aceitou, de bom grado. Aparece com calças de ganga rasgadas e sapatilhas, de Livro da Celebração das Bênçãos, a estola e a hissope com água-benta na mão. E assim vestido, depois de uns petiscos e uma cerveja, seguiria para Cabanas de Baixo, Vide e Horta da Vilariça a dar as missas. Por ali, ninguém se incomoda com a sua barba por fazer e o cabelo comprido. “O que conta é o que vem de dentro. É cativador, meigo, tem tudo de bom com ele”, diz Hermínia Varela, 73 anos. “Se não fosse ele não nos reuníamos tanto”, agradece. As opiniões masculinas não andam muito longe. Vasco Pinto, 67 anos, que se orgulha de já ter visto o padre na televisão, resume tudo a uma palavra: “Espetacular.” Além de ser um grande padre, diz, fala com as pessoas delicadamente.
“Tem humor e diz piadas, mas não aquelas piadas provocadoras.” É também por esse lado divertido que os mais novos gostam dele. A Secundária de Torre de Moncorvo, onde dá aulas, é a escola do distrito de Bragança com mais alunos em Religião e Moral.
Na Horta da Vilariça, diz-se que há mais crianças a ir à missa desde que ele chegou. Já na vizinha aldeia de Vide não há milagres…
A Igreja, grande, fala da aldeia povoada que foi em tempos. Hoje, Palmeira Cancela, de xaile roxo sobre a roupa escura, diz-nos que não sabe se terá 50 habitantes: “Só cá há velhos.” Crianças nem uma para ajudar o padre Vítor. É António Baptista, 71 anos, quem lhe dá uma mão. Irrequietos na missa só mesmo os cães que, com a porta da igreja aberta, entram sem pedir licença. O padre não acha graça: “Qualquer dia há mais cães na Missa do que gente.”
A aldeia por que Saramago se apaixonou
Se José Saramago voltou uma e duas vezes a Cidadelhe, aldeia preservada como poucas, no concelho de Pinhel, cuja beleza elogia no livro Viagem a Portugal, terá sido também por gente como Hortênsia de Jesus Martins. Para ela e para o marido, António Marques, os dias repetem-se seja sábado seja domingo ou dia de semana. Há pouco tempo para pensar, é preciso cuidar da terra e dos animais (ovelhas, coelhos, porcos, galinhas). A ordenha começa o dia todos os dias às 6 da manhã. Os da cidade?! “Querem mais passar lá fome do que vir para a aldeia a trabalhar.
Porque a aldeia é dura.”