Um rapaz conta que um dia o seu avô carpinteiro subiu a uma montanha, com as mãos cheias de sementes, onde tinham sido cortadas todas as árvores. Depois, convocando os seus antepassados, fez com que todas as cadeiras, mesas, portas, janelas de madeira do mundo voassem para as florestas onde foram cortadas as árvores – que renasceram. Esta é a sinopse de As Sementes do Céu, o oitavo livro infantil do escritor e poeta moçambicano Mia Couto, 70 anos, com ilustrações de Susa Monteiro, apresentado no final de novembro. Em entrevista à VISÃO, feita por email, o romancista, com vasta obra, revela o maior desafio nestes casos: “Ceder à tentação de simplificar o texto no pressuposto de que as crianças não entendem a linguagem metafórica.” Para acrescentar: “As crianças entendem muito mais do que pensamos. Estão muito mais disponíveis para a poesia e para quebrar as fronteiras daquilo a que chamamos ‘a realidade.’” Mas, estendendo o convite que As Sementes do Céu faz, de reflexão sobre a preservação do meio ambiente e das relações intergeracionais, o escritor (e biólogo) pronuncia-se nesta entrevista acerca do crescimento dos discursos de ódio, do meio século das descolonizações e do estado do mundo. “É melhor que sejamos nós a introduzir mudanças, visando uma democracia mais participativa, antes que os fascistas tomem a iniciativa de impor regimes totalitários”, diz.
As Sementes do Céu é já a sua oitava obra para o público infantil. O que o leva a regressar com regularidade à escrita para crianças?
Mantenho as minhas reservas sobre o que é “escrever para crianças”. As mesmas reservas tenho sobre o que é escrever para adultos ou para qualquer tipo de destinatário. Uma história surge na minha cabeça e a primeira pergunta é a seguinte: quem de mim a vai contar? Às vezes, é a criança que subsiste em mim que toma o lugar de autor. Então a história pode ser etiquetada como sendo própria para crianças. Mas a natureza do texto é marcada logo à nascença e nunca definida pelo seu eventual destinatário. Quem manda é a voz de quem me conta a história.
É-lhe mais fácil ou mais difícil escrever para crianças?
Trata-se de desafios diferentes. Primeiro, há que ter em atenção que a autoria de um livro infantil é partilhada entre o escritor e o ilustrador. Sou muito avesso à ideia de que as ilustrações tenham apenas um papel decorativo. O que pretendo é que a palavra e o desenho conversem e a história seja contada a quatro mãos. O desafio maior é ceder à tentação de simplificar o texto no pressuposto de que as crianças não entendem a linguagem metafórica. As crianças entendem muito mais do que pensamos. Estão muito mais disponíveis para a poesia e para quebrar as fronteiras daquilo a que chamamos “a realidade”. Lembro-me da resposta de uma bibliotecária quando lhe pediam sugestões de leitura para crianças entre os 9 e os 12 anos. Respondia com uma pergunta: “O que diria o senhor se lhe perguntassem qual o livro indicado para as idades entre os 40 e os 46 anos?” Claro que isto é uma caricatura. Uma criança não vai ler Proust ou James Joyce. Mas também a maior parte dos adultos não será capaz de ler estes dois autores.
Como autor moçambicano, escreve as histórias infantis, em primeiro lugar, a pensar nas crianças do seu país, apesar de saber, claro, que serão lidas em várias geografias, a começar pela da lusofonia?
O meu país está suficientemente dentro de mim para não ter de pensar para que ele se revele nos textos. Surge naturalmente. A escrita é feita de falsidades, mas é preciso ser autêntico e natural desde o princípio até ao fim. Qualquer esforço se torna visível e denuncia um sentido de missão. Na minha escrita não existe um “para quem”. Como não existe um “para quê”. Contudo, existe talvez uma particularidade nesta história: a maior parte das crianças moçambicanas vive em casas em que convivem diferentes gerações. A relação entre o avô e o neto é algo que pode ser sentido de forma particular pelos pequenos leitores moçambicanos.
No conto d’As Sementes do Céu há a mensagem da defesa da Natureza e do meio ambiente. Como espera que as crianças moçambicanas a apreendam, tendo em conta que, na maioria dos casos, são afetadas, na sua vida real, por todo o tipo de carências e de dificuldades de acesso a necessidades básicas?
A Natureza é pensada de forma diversa nas culturas moçambicanas e na maior parte das culturas africanas. A Natureza está dentro de nós e, não existindo distinção, também não existe uma palavra para a nomear. Uma intenção neste livro é questionar a ideia peregrina de que nos compete “salvar” a Natureza. É evidente que nos cabe a responsabilidade de tomar medidas para corrigir desequilíbrios que nós mesmos provocámos. Mas continua a ser demasiado antropocêntrica a ideia de que seremos nós a salvar a Natureza. O que o livro sugere é que a Natureza se salva a si mesma e não está à espera da nossa intervenção messiânica. Esta história sugere também que não há um “dentro” e um “fora” quando se fala de nós e do nosso ambiente. Num certo momento, o avô diz ao neto: “Não tens de olhar para cima para ver o céu.” E ele tem razão. O céu está sobre os nossos pés, está dentro de nós, como os rios e a chuva transitam por dentro do nosso corpo. A nossa pele é uma fronteira viva. É feita para separar, mas a sua maior função é juntar, é restituir-nos a totalidade do mundo que nos cerca.
O livro sozinho não muda o mundo. É preciso, no caso das crianças, que a história seja lida pelos pais, seja partilhada entre gerações
Os seus livros infantis têm-no levado, com frequência, a encontros com alunos, em escolas. Nota diferenças entre a forma como as crianças moçambicanas e as portuguesas olham para as suas histórias?
Existe uma vitalidade e uma espontaneidade nas escolas moçambicanas que é muito particular. Nunca passei em Moçambique por aquele momento de embaraço de ter de instigar a audiência para que surjam perguntas. É o contrário, o difícil é fazer parar a conversa. Mas tenho de confessar que encontrei em Portugal vários casos em que sucedeu o mesmo entusiasmo. Estive ainda há dias numa escola em Lisboa e foi um espanto ver o fervor com que as crianças participaram. Era uma escola privada. Não sei se isso pode explicar alguma coisa. Talvez a grande diferença esteja nos professores e na direção da escola. De qualquer modo, é imperioso que a escola se torne um sítio em que a oralidade retome o lugar que já teve na História da Humanidade como ferramenta de construção de identidades e memórias coletivas. Aliás, o uso abusivo da Inteligência Artificial só tem, a curto prazo, um antídoto, que é a prova oral, para avaliar a autenticidade da autoria dos textos. Olho com bons olhos para esse regresso à oralidade. Criou-se uma certa hierarquia que sobrevaloriza a escrita, mas, na verdade, a oralidade é a nossa primeira pátria. Depois emigramos para a escrita. Neste aspeto somos todos emigrantes de mundos de saber e sensibilidade – pelo menos, os que tiveram o privilégio de ser alfabetizados. O perigo é quando essa viagem da oralidade para a escrita se torna um exílio. Um exílio da infância.
Também continua a escrever livros infantis para tentar mudar tendências comportamentais de “miúdos e graúdos”?
A minha preocupação é que os livros sejam acessíveis. E penso, claro, no caso de Moçambique. Prevalece no meu país uma enorme vontade de ler. As pessoas querem ler, mas o livro não existe – ou o pouco que existe não é acessível. O livro sozinho não muda o mundo. É preciso, no caso das crianças, que a história seja lida pelos pais, seja partilhada entre gerações. Lamentamo-nos da invasão agressiva dos ecrãs na vida das nossas crianças. Mas essa crescente presença resulta também de um abandono progressivo do tempo de convivialidade dentro de casa. Essa presença física cria vínculos de afeto que são insubstituíveis. O que nos faz humanos não pode vir de uma máquina. O uso de mensagens escritas nos telemóveis e dos emojis não pode nunca substituir a voz humana e a interação que passa pelo tocar, pelo olhar, pelos silêncios que constroem as linguagens do afeto. A minha preocupação maior não é apenas que as crianças não leiam livros. É que elas deixem de contar e de escutar histórias, deixem de ser autoras da sua própria narrativa.
Lamentamo-nos da invasão agressiva dos ecrãs na vida das nossas crianças. Mas essa crescente presença resulta também de um abandono progressivo do tempo de convivialidade dentro de casa
Por falar em comportamentos, que explicações encontra para o crescimento dos discursos de ódio, dos racistas e xenófobos aos misóginos, a nível global?
Não é possível ter a certeza sobre se esse número cresceu ou se simplesmente deixou de haver filtros para que ganhassem o atual peso no domínio público. Os racistas e xenófobos saíram do armário, deixaram de ter pudor, porque há dirigentes políticos que encorajam esse tipo de ódio. Existem leis que punem os que pronunciam ofensas discriminatórias. Em plena sessão da Assembleia da República, imagine-se, um dirigente partidário diz a uma deputada de um outro partido que ela “vá para a sua terra”. Se esse tipo de pronunciamentos fica impune, estamos a dar luz verde para que a intolerância se estabeleça definitivamente.
Considera que há uma ligação entre o crescimento daqueles discursos e a sucessiva chegada ao poder, também a nível global, de políticos e partidos de extrema-direita?
Sim. É um círculo vicioso fundado no medo. Existe uma máquina de amplificar o medo e que faz com que as crises sejam permanentes. O mundo da política passou a ser dominado pelo que é da ordem do espetáculo. Num mundo vazio e cinzento, o quotidiano só existe quando se converte num circo. Os circos pedem palhaços. E pedem leões. O ideal é quando o palhaço se pode converter em leão.
E, no entanto, tais políticos e partidos ascendem ao poder, na maioria dos casos, pelo voto popular. Este facto deixa-o perplexo?
O Partido Nazi ganhou as eleições em 1932, na Alemanha. Existe certamente uma relação entre períodos de crise social e a ideia de um fim do mundo. Aconteceu na véspera da primeira e da segunda guerras mundiais. Esses momentos corresponderam a uma rearrumação dos poderes imperiais sobre o planeta. Estamos a assistir a um desses momentos de redesenho de impérios com o definhamento da Europa como um grande centro e a disputa entre os EUA, a China e a Rússia. Estas crises são vividas de forma apocalíptica e sentidas como o fim do mundo. Na verdade, são o fim de “um” mundo. Essa sensação de abismo é aproveitada por forças políticas que se alimentam do medo, do ódio e da atribuição sumária de culpas. Acreditamos ingenuamente que o discurso político é feito com base na racionalidade. Mas nunca foi assim. O apelo à paixão não é exclusivo da ficção.
Qual diria que é, neste momento, o seu estado de espírito em relação ao futuro do mundo, a breve e médio prazo, tendo aos “comandos” figuras como Trump e Putin?
Sou um pessimista com esperança. Acho que esta onda de extremismo se consumirá a si mesma, porque as promessas dos populistas serão confrontadas pela sua incapacidade de criar um mundo melhor e mais seguro. Por outro lado, para os que defendem a democracia, é necessário pensar que este modelo de representatividade política se encontra esgotado. É melhor que sejamos nós a introduzir mudanças, visando uma democracia mais participativa, antes que os fascistas tomem a iniciativa de impor regimes totalitários.
Em 1975, à data da independência de Moçambique, tinha 20 anos. Com que país sonhava, há 50 anos?
Sonhava com um país em que não houvesse injustiça, discriminação, desigualdade. O sonho estava certo, mas o modo de o pôr em prática não respeitou a complexidade e a diversidade do país. Quem se propõe mudar o mundo deve ter a humildade de reconhecer que não conhece esse mundo. Os erros cometidos durante o processo de construção da nação moçambicana resultaram sobretudo desse desfasamento cultural entre o ideário político e a realidade concreta das pessoas. A isso somaram-se pequenas traições e desvios dos ideais de uma sociedade mais justa. De todo o modo, receio que não seja possível construir esse país sonhado num mundo globalizado em que predominam forças que apenas pensam no seu próprio lucro.
Considera hoje que a herança colonial e a devastação criada pela guerra civil, apesar de ter terminado há mais de três décadas, ainda devem ser equacionadas como parte da explicação para os elevados níveis de pobreza do povo moçambicano e para a falta de perspetivas de futuro no enorme segmento da população jovem do país?
Existem com certeza responsabilidades que cabem às elites que governaram. Mas é preciso tomar em consideração que a relação colonial da Europa com os países africanos não terminou com a proclamação das independências. Há um discurso de extrema-direita que pretende que se esqueça o passado colonial e que propõe um branqueamento da História. E que atribui todas as culpas aos políticos africanos. Escuto esse mesmo discurso dessa extrema-direita em relação a Portugal: “Os políticos são uma cambada de ladrões.” Não quero rebater a verdade que pode estar contida nesse lamento. Mas, em primeiro lugar, é perigoso que se faça essa generalização para todo o campo dos “políticos”. A verdade é que os agentes da grande corrupção não são só as figuras de proa que aparecem nos jornais. São sobretudo entidades cujo rosto desconhecemos. São esses que colocam e tiram os políticos do poder. São grandes poderes económicos, corporações industriais e financeiras, que estão por detrás dos partidos e das campanhas eleitorais. Em muitos países a maior fatia desse jogo não vem da economia formal. Vem do narcotráfico, vem do tráfico ilegal de mercadorias e de pessoas. Certas igrejas evangélicas da América Latina não exportam para África somente crenças religiosas. As crenças são uma capa para outros negócios. Este é apenas um exemplo do que acontece de forma subterrânea, mas que determina muito daquilo que são os assuntos da nossa conversa quotidiana.
Num mundo vazio e cinzento, o quotidiano só existe quando se converte num circo. Os circos pedem palhaços. E pedem leões. O ideal é quando o palhaço se pode converter em leão
Atribui responsabilidades aos governos da Frelimo e/ou às chefias das Forças Armadas pelo facto de a violenta insurreição islamita, que já tantas vítimas civis causou na província de Cabo Delgado, ainda não ter sido dominada, ao fim de oito anos de guerra?
Em princípio, não. A única coisa que lamento – e já o disse publicamente em Moçambique – é que essas forças terroristas estejam ainda envoltas numa neblina. É óbvio que há questões delicadas de segurança, com informações que não podem circular para o grande público. Mas seria absolutamente necessário compreendermos melhor quem são esses terroristas, que forças os comandam, que laços e apoios têm a nível internacional. De qualquer modo, esses movimentos terroristas não podem ser vencidos apenas por via militar. É preciso impedir que essas forças tenham campo de atuação, esvaziar o potencial para que possam recrutar jovens que perderam a esperança.
De volta à mensagem ecológica d’As Sementes do Céu: considera que grandes cimeiras como as da COP [Conferência das Partes das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas] devem continuar a ser feitas ou o caminho para salvar o planeta de uma catástrofe climática é outro?
Acho importante que haja esta concertação. Mas receio que estas cimeiras se repitam sem decisões cujo cumprimento seja vinculativo num contexto de falência das grandes agências de cooperação multilateral. O que sucedeu no caso do drama do genocídio da Palestina é ilustrativo de quanto podemos esperar de organizações cuja liderança é totalmente carente de representatividade e de democracia. Porque iria suceder algo diferente com o clima? O que é provável é que se proponham medidas que os países mais ricos se recusarão a implementar e cujo peso penalizador irá recair sobre as nações mais pobres.