Estava no carro com o meu filho e eis que surge a pergunta (as crianças com as suas perguntas simples e inocentes, mas que nos fazem ponderar):
“Mãe, porque mudaste de trabalho? Tinhas um trabalho mais fácil e agora foste para um muito mais difícil”.
É uma pergunta que, de forma não tão simples, me é feita muitas vezes. Respondo sempre da mesma forma, superficial:
“Bem, estava à procura de algo que me desafiasse mentalmente e de um pouco mais de estabilidade”. Mas a resposta, na realidade, não é assim tão simples.
Eu trabalhava na área da estética, como esteticista. Um entre outros títulos, vindos de formações nessa área que fui fazendo ao longo do tempo. Ao contrário que se pensa, esta não é uma profissão fácil, tem os seus desafios e determina uma procura constante de formação, para se manter atual no mercado.
Lembro-me como se fosse ontem: estava sentada com uma cliente e, naquela altura, muito se falava numa grande crise que iria afetar imenso as nossas vidas, iria fazer com que repensássemos o nosso estilo de vida (e, consequentemente, os nossos gastos), e em como iria afetar a nossa profissão. Inevitavelmente, na minha cabeça começaram a surgir as lembranças da época do confinamento… assustadoras.
O meu conflito não surgiu apenas do medo e da incerteza do que viria para nós nesta altura, mas também de dois outros motivos: o facto de o trabalho na área da beleza por vezes não nos permitir estar presentes na vida pessoal, algo que para mim é importante, e também um desejo que sentia, quase que como um chamado para algo que me desafiasse mais e num outro sentido.
Tudo junto foi a virada da chave.
Procurei por formações na área e inscrevi-me num curso de Gestão de Redes e Sistemas Informáticos. Tive medo, sim, e dúvidas sobre deixar a minha área e tudo o que daí viria, não vou mentir, mas fui.
Posso dizer que mudou a minha vida.
Houve apoio das pessoas à minha volta – mas também houve questionamento – “Mas porquê? Não tem nada a ver com a área em que estavas. Se calhar não é bem para ti, mas tu é que sabes.” Estas e outras questões que me faziam ponderar, mas motivavam-me ainda mais, porque nós não somos só uma coisa – uma pessoa tem várias “vertentes”, vários gostos e também tem o direito de mudar para o que ela quiser. Faz parte da experiência humana.
Depois, porque o que os outros acham não nos define.
O curso em si foi muito desafiante, porque apesar de gostar da área, “pôr as mãos na massa” e aprender a sério é muito diferente. Fomos avisados do nível de exigência, desde o início, mas ouvir e passar por isso são coisas distintas. Confesso que houve alturas em que não estive tão confiante, mas desistir, para mim, não era opção.
Aprendi muito, sou muito grata pelos nossos formadores e com apoio, tanto deles, como dos colegas de curso, consegui terminar.
Após este passo, estagiei na empresa Syone, que foi o melhor que me poderia ter acontecido. Adorei a experiência! Poder estar com pessoas incríveis de várias áreas no mundo da tecnologia só me incentivou ainda mais. Ter acesso a vários tipos formação, lidar com diferentes sistemas na prática, dar assistência, fazer parte da rotina da empresa… Senti que era desafiada a crescer e valorizada tanto como pessoa como enquanto profissional, mesmo sendo estagiária. Toda esta experiência só me deu mais confiança para seguir em frente. Após o estágio, fiquei a tempo inteiro na empresa, enquanto consultora, inserida num projeto de migração de sistemas de monitorização, onde aprendi muito. Sinto que este passo abriu mais uma porta para uma evolução e integração, para atualmente fazer parte dessa mesma equipa.
Mas nem tudo são rosas e acho que é importante ser realista. Houve altos e baixos, e às vezes tive dúvidas se teria seguido o melhor percurso – por vezes a Síndrome do Impostor ataca – mas gostaria de salientar que ter ao nosso lado pessoas que nos apoiam e que já passaram pelo mesmo faz com que o processo seja mais fácil.
Portanto, a todas as mulheres que gostariam de apostar no mundo da Tecnologia e têm receio, deixo o meu testemunho. Se é o que querem, não tenham medo! Ouvi várias vezes durante o curso que esta é uma área dominada por homens e que, talvez por isso, nos fosse dificil vingar na área. Não entendo esse tipo de mentalidade. Interajo diariamente com muitas mulheres que são profissionais incríveis. Umas são mães, outras não, de todas as idades, personalidades, de tudo – a seguirem esta profissão e a serem tudo o que elas quiserem! Há um ano tinha terminado o estágio e fui integrada na empresa, e hoje, estou prestes a ocupar o cargo de Manager. Tudo é possível para nós!
É preciso equilíbrio, claro, e o facto de esta profissão permitir trabalhar em regime híbrido contribui para que consiga organizar-me de forma diferente do passado, o que acaba por me facilitar, também a vida pessoal, e isso é ótimo.
Apesar de (ainda) ser uma área dominada pelos homens, é notório que cada vez mais mulheres estão a escolher esta área e acredito que, em breve, esta será mais equilibrada em termos de género. O caminho faz-se caminhando, acreditem. Sem medo, porque para além de termos de ter confiança nas nossas capacidades, vai sempre haver mais pessoas a torcer pelo vosso sucesso do que contra ele.