Ao longo dos últimos anos, Portugal tem vindo a atrair um forte investimento para a instalação de data centers. E este é um mercado que poderá crescer exponencialmente ao longo dos próximos anos, o que se deve à crescente utilização da Inteligência Artificial.
A consultora Mckinsey, num relatório divulgado em maio, admite que até 2030 deverão ser investidos cerca de 5,8 biliões de euros em centros de dados em todo o mundo. Deste total, três quartos do investimento será potenciado pela Inteligência Artificial.
E uma boa parte desta verba poderá ser canalizada para Portugal. Segundo a associação que representa o setor, a Portugal DC, o nosso país irá receber, ao longo dos próximos cinco anos, um total de 11,4 mil milhões de euros de investimento em centros de dados. Estes projetos poderão criar, de forma direta e indireta, até 17 mil postos de trabalho e terão um impacto de 4% no PIB português, segundo as estimativas da Portugal DC.

Existem vários projetos, e de diferentes dimensões, que estão a ser construídos em território nacional. No início de junho, a Equinix, uma das maiores empresas de data center do mundo, com 260 centros espalhados por mais de 30 países, abriu o seu segundo data center em Portugal, o LS2, num investimento que ascendeu aos 100 milhões de euros.
“Temos assistido, ao longo dos últimos três anos, a uma aceleração muito significativa pela procura deste tipo de serviço. Anteriormente, tínhamos clientes que instalavam quatro ou cinco racks de servidores, que andavam na casa dos 20 a 40 kilowatts. Hoje, temos pedidos para 500 kilowatts”, diz Carlos Paulino, manager diretor da Equinix Portugal.
Além disso, explica o gestor, existem também muitos clientes que “querem reservar capacidade que possam vir a necessitar no futuro. E esta procura exaustiva por capacidade é um fenómeno que está a acontecer em quase todo o mundo, o que faz aumentar ainda mais a necessidade de instalar mais centros”.
Por essa razão, a Equinix já está a trabalhar para projetar a abertura de um terceiro centro de dados em Portugal.
A nova infraestrutura agora inaugurada fica situada mesmo ao lado da anterior, denominada LS1, no Prior Velho, mas terá o triplo da capacidade.
“O LS1 é o ponto mais interligado que existe em Portugal. Temos mais de setenta operadores distintos no edifício. Por isso, fazia sentido conseguirmos entregar valor dessa conectividade a mais clientes. Se fizéssemos o segundo centro noutro local não conseguiríamos aproveitar esse benefício da interligação das redes”, explica Carlos Paulino.
Apesar de ser um edifício contíguo, Carlos Paulino diz que esta é uma infraestrutura completamente distinta, quer nos equipamentos, sistemas de refrigeração, geradores e, até, equipas de operação. “Isso garante que se existir um problema num edifício não é arrastado para o outro”, esclarece o gestor.
Os data center desempenham um papel fundamental no mundo tecnológico. São, regra geral, edifícios que armazenam a informação digital, que nos permite usar a informação digital, de forma quase imediata, em qualquer aparelho eletrónico conectado. A infraestrutura garante energia e sistemas de arrefecimento para os servidores que as empresas ali queiram colocar. Mas não só. Têm de garantir resiliência, ou seja, que os servidores estarão sempre em funcionamento e com boas ligações às redes de comunicação. É ali que se processam e gerem enormes quantidades de informação, sem as quais, nos dias de hoje, seria quase impossível viver. Desde as pesquisas, as aplicações, os sistemas bancários, telecomunicações, serviços de streaming, comércio eletrónico, entre muitos milhares de outros, nada funcionaria sem os data centers. São, como definiu, Bruce Owen, presidente da Equinix para a Europa, África e Médio Oriente, uma espécie de “casa das máquinas da economia digital”.
Os novos projetos
E os investimentos neste setor em Portugal não se esgotam na Equinix. Em maio, a multinacional francesa OVHcloud abriu uma “local zone” para serviços de cloud. Trata-se de uma infraestrutura semelhante aos data centers, mas menos complexa e que necessita de um investimento menos avultado.
Também a AtlasEdge prevê construir dois centros de dados em Portugal, mais propriamente junto a Carnaxide. O investimento anunciado ronda os 500 milhões de euros. A Merlin Properties, por sua vez, está a investir, perto de Vila Franca de Xira, num novo data center que deverá entrar em operação em 2027.

Mas o maior data center previsto para o nosso país será instalado em Sines e é da responsabilidade da Start Campus. Trata-se de um investimento de 8,5 mil milhões de euros que está entre os 10 grandes projetos de desenvolvimento de centros de dados em todo o mundo e que será o maior local de colocation (arrendamento a diferentes utilizadores) da Europa, com uma capacidade de 1,2 gigawatts, alimentado por energia renovável. Quando estiver completo, o projeto terá quatro edifícios, que serão construídos de forma faseada, prevendo-se a sua conclusão em 2028. O primeiro foi inaugurado em outubro.
Para Luís Pedro Duarte, presidente da Portugal DC, este movimento mostra que “o País é um destino fiável e estável para receber estes projetos e que tem um papel importante na economia global conectada”.
Segundo um estudo da Cushman & Wakefield, Portugal beneficia de uma posição estratégica na conectividade da rede global devido à sua ligação aos principais cabos submarinos de comunicações entre a Europa, América do Norte, América do Sul e África. A prová-lo estão os dois novos cabos que irão ser ligados em breve ao nosso país, o Cloud da Google e o 2Africa, Além disso, a elevada capacidade de produção de energias renováveis, com mais de 70% do consumo a ter origem nestas fontes, é, segundo a consultora, outro dos trunfos do País para atrair investimento.
O avanço das Big Tech
Grande parte deste investimento será feito pelas grandes empresas tecnológicas dos EUA, como a Meta, empresa que controla o Facebook, WhatsApp e Instagram, Alphabet, a dona do Google e YouTube, a Microsoft ou a Amazon.
No início de janeiro, Mark Zuckerberg, CEO da Meta, disse que o grupo iria investir, ao longo de 2025, cerca de 60 mil milhões de euros para expandir a sua infraestrutura de data centers.
Um mês depois, circulou a notícia de que este gigante da tecnologia estava a estudar potenciais locais nos EUA para instalar aquele que poderá ser o maior centro de dados do mundo. Segundo a Reuters, o investimento para este projeto poderá ascender aos 175 mil milhões de euros. Um porta-voz da empresa negou a informação, dizendo que os planos de investimento para 2025 já tinham sido divulgados e não previam esse investimento.
Também a Microsoft, no seu planeamento para este ano, admitiu que ao longo do ano iria investir na ampliação dos seus data centers em todo o mundo quase o dobro do dinheiro que foi aplicado em 2024, passando de 45 mil milhões para 70 mil milhões de euros.
“A Microsoft está a caminho de investir aproximadamente 70 mil milhões de euros na construção de data centers para treinar modelos e implantar aplicações de Inteligência Artificial e também de cloud em todo o mundo. Mais da metade desse investimento será feito nos EUA”, disse Brad Smith, chairman da Microsoft.
Em abril, foi a vez da Alphabet, através do seu CEO, Sundar Pichai, anunciar um investimento total de 65 mil milhões de euros para aumentar a capacidade dos seus centros de dados.
“A oportunidade é enorme. Ainda estamos no início, mas acredito que Inteligência Artificial será a mudança mais profunda das nossas vidas”, disse Sundar Pichai.
Segundo o gestor, este investimento servirá para “aprimorar” os principais serviços da Alphabet, incluindo o Google Search, além de apoiar o desenvolvimento de serviços de Inteligência Artificial, como o Google Gemini.
Na carta anual enviada aos acionistas, no final de 2024, o CEO da Amazon, Andy Jassy, afirmou que “a Inteligência Artificial generativa vai reinventar praticamente todas as experiências do cliente que conhecemos e possibilitar experiências totalmente novas sobre as quais apenas fantasiamos”.
Já em meados de junho, a empresa disse que vai avançar com um investimento total de 17,5 mil milhões de euros na Pensilvânia, para instalar centros de dados para Inteligência Artificial. Trata-se de um dos maiores investimentos de sempre neste setor e faz parte do plano integrado do gigante do comércio eletrónico para ampliar a sua capacidade tecnológica.
Uma semana antes tinha garantido um outro investimento em centros de dados, na Carolina do Norte, no valor de 8 mil milhões de euros. E, no início do ano, anunciou aos seus acionistas que iria investir 10 mil milhões de euros para expandir os seus centros de dados situados na Georgia.
“Existe uma competição global entre os EUA e outras nações em termos de liderança em Inteligência Artificial. Estes investimentos são fundamentais para podermos competir de forma global, porque é preciso ter a infraestrutura, a base da computação em nuvem e também a potência e a energia disponíveis”, disse Shannon Kellogg, vice-presidente da Amazon.
Ao longo do último ano, grandes tecnológicas como a Amazon, Microsoft, Alphabet, Nvidia, OpenAI e xAI, entre outras, têm vindo a expandir fortemente os centros de dados nos EUA.
No entanto, este tipo de infraestrutura tem trazido consigo algumas preocupações para as populações locais. Apesar de as empresas prometerem criar empregos e investir na região, algumas cidades estão a questionar qual o impacto que estes centros de dados podem ter na qualidade de vida, nomeadamente por serem altamente consumidores de energia ‒ segundo um estudo recente, a procura de energia para centros de dados nos EUA pode triplicar até 2028 ‒ e usarem muita água nos sistemas de arrefecimento.
“Estamos extremamente comprometidos com as comunidades locais desde o início de todos os projetos. Dialogando com eles para que possamos entender todas as suas preocupações e temos equipas especializadas para resolver todos os problemas que possam surgir pelo caminho. Ao fazer esses investimentos, temos um foco especial em manter operações sustentáveis, incluindo a utilização de água”, explica Shannon Kellogg.
O consumo de energia é apontado como um dos principais problemas gerados pelos centros de dados. Os milhares de servidores que estão instalados num centro de dados são duplamente consumidores de energia. Por um lado, necessitam de muita eletricidade para se manterem em funcionamento 24 horas por dia, 365 dias por ano, e, por outro, como geram muito calor, necessitam de sistemas de arrefecimento que consomem tanta ou mais energia.
“A procura global por eletricidade por parte dos data centers deverá mais do que duplicar nos próximos cinco anos, consumindo até 2030 tanta eletricidade quanto todo o Japão consome hoje. Os efeitos serão particularmente fortes em alguns países. Por exemplo, nos Estados Unidos da América, os data centers estão a caminho de responder por quase metade do crescimento da procura por eletricidade”, diz Fatih Birol, diretor-executivo da Agência Internacional de Energia.
O relatório da Energy Information Administration dos EUA, publicado em junho, admite que, devido ao aumento dos centros de dados em funcionamento, o consumo de eletricidade no país irá atingir níveis recordes em 2025 e 2026. Segundo esta entidade, que supervisiona o setor da energia, a procura projetada de eletricidade ascenderá aos 4,2 biliões de kWh em 2025 e 4,3 biliões de kWh em 2026, quando em 2024 este número ascendeu aos 4,09 mil milhões de kWh. E, a médio prazo, os números são ainda mais assustadores, pois prevê-se que, naquele país, dentro de cinco anos, a energia consumida pelos data centers irá triplicar em relação ao consumo atual.
E a tendência será muito idêntica na Europa. Segundo a organização sem fins lucrativos Beyond Fossil Fuels, a procura por eletricidade poderá aumentar até 160% nos próximos cinco anos.
“Com a ascensão da IA, o setor energético está na vanguarda de uma das revoluções tecnológicas mais importantes do nosso tempo. É uma ferramenta incrivelmente poderosa, mas cabe a nós – nossas sociedades, governos e empresas – saber como a vamos utilizar”, conclui Fatih Birol.
A atração do dinheiro
A grande procura por estas infraestruturas não tem passado despercebida aos grandes tubarões do mundo financeiro. Bem pelo contrário. Alguns dos maiores edge funds do mundo têm estado extremamente ativos no mercado dos data center.
A Blackstone, por exemplo, um dos maiores fundos de investimento do mundo, tem os data centers como uma das aplicações financeiras “em que mais acreditam”.
A Blackstone já é, atualmente, uma das maiores proprietárias em todo o mundo de edifícios de escritórios, armazéns, centros de logística, espaços para laboratórios, entre outros. Mas nos últimos anos tem investido fortemente em data centers, de tal modo que as suas aplicações financeiras neste setor já ultrapassam as feitas em todos os outros setores, em 40 anos de história.
Em 2021 comprou a Quality Technology Services, empresa de data centers fundada em 2003, por 9 mil milhões de euros e, ao longo dos últimos quatro anos, tem vindo a investir fortemente para expandir os atuais e criar novos data centers. Ao todo, o investimento total em data centers por parte da Blackstone já ascende a 90 mil milhões de euros, em menos de cinco anos.
E não está sozinha nesta corrida. Muitos gigantes de Wall Street, como os fundos KKR, Blue Owl ou BackRock, também apontaram as baterias para o setor, começando a fazer avultados investimentos em data centers. E não só. A Social Capital, empresa de capital de risco cujo CEO Chamath Palihapitiya era um antigo executivo do Facebook, comprou um terreno no Arizona para construir data centers, num investimento total de 22 mil milhões de euros.
A corrida é de tal forma desenfreada que já existem vozes a mostrarem alguma preocupação com estes investimentos. Joe Tsai, presidente da Alibaba, um dos maiores sites chineses de comércio eletrónico, admitiu recentemente que esta poderá ser “a próxima grande bolha” da economia mundial. Na sua opinião, existe uma construção “descontrolada” de centros de dados para os quais “ainda não existem clientes”.
A consultora TD Cowen alertou recentemente num relatório que pode existir um “potencial excesso de oferta” no mercado e algumas empresas já começam a repensar em refrear os seus investimentos.
A Blackstone, por seu turno, diz que ainda existe uma grande procura destes espaços por parte das empresas de tecnologia. “Este não é um negócio imobiliário como construir edifícios em Miami”, disse Jonathan Gray, CEO da Blackstone, em entrevista à Bloomberg, destacando que só começam a construir quando sabem que irão ter um contrato, que se estende por quinze ou vinte anos, para ocupação do espaço.
De acordo com um relatório da CBRE, “o aumento da procura por computação de alta potência irá criar uma disparidade significativa de preços entre novos data centers e os antigos, porque muitos dos que já existem não têm a infraestrutura necessária para lidar com as novas ‘cargas de trabalho’”.
Uma nova guerra fria
O grande investimento dos EUA em data centers ‒ atualmente têm no seu território mais de metade da capacidade existente em todo o mundo ‒ começou a ser reforçado durante a presidência de Joe Biden, quando foi publicada a ordem executiva para acelerar a construção doméstica de infraestruturas de Inteligência Artificial e reduzir o risco à segurança nacional envolvido na tecnologia.
Esta medida autorizou o Departamento de Defesa e o Departamento de Energia a arrendar locais federais para a construção de mega data centers de Inteligência Artificial.
“A Inteligência Artificial está prestes a ter grandes efeitos em nossa economia, incluindo saúde, transporte, educação e muito mais, e é importante demais para ser terceirizada”, referia, na altura, um comunicado divulgado pela Casa Branca.
Segundo a mesma ordem executiva, as empresas que arrendassem as terras federais seriam também obrigadas a comprar uma “parte apropriada” de semicondutores fabricados nos EUA e a pagar aos trabalhadores “salários vigentes”.

Apesar de todas as críticas ao seu antecessor, a administração de Trump não só manteve esta ordem como incentivou as empresas a investirem ainda mais neste setor.
Em maio, ficou claro que esta guerra sobre o domínio da Inteligência Artificial ganhava novos contornos. Primeiro, houve uma audiência no Senado intitulada Vencendo a Corrida da IA, onde legisladores norte-americanos expressaram preocupações de que a liderança dos EUA sobre a China estava a deteriorar-se rapidamente. Pouco depois, foi proibida a venda nos EUA dos chips de Inteligência Artificial Ascend, da chinesa Huawei. E, por fim, Donald Trump deslocou-se ao Médio Oriente para assinar vários acordos de fornecimento de chips de Inteligência Artificial com os aliados regionais. No final de maio, a OpenAI, empresa norte-americana que gere o ChatGPT, anunciou que irá criar um mega data center nos Emirados Árabes Unidos, depois do acordo conseguido entre Trump e este país do Médio Oriente.
Quatro marcos que mostram claramente a mudança na corrida pela supremacia da Inteligência Artificial, que adota cada vez mais uma política de ecossistema digital global, liderada pelos EUA.
Privada de componentes-chave para o desenvolvimento da Inteligência Artificial, como os chips da Nvidia, a China começou a desenvolver as suas próprias alternativas.
Agora, a preocupação é que muitos países possam utilizar os componentes chineses integrando um outro ecossistema digital, o que fez com que Brad Smith, presidente da Microsoft, viesse apelar à administração norte-americana para que sejam tomadas medidas que garantam que a tecnologia de Inteligência Artificial norte-americana seja adotada noutros países. E usou o exemplo da infraestrutura de telecomunicações, onde a empresa chinesa Huawei se consolidou com sucesso como uma importante fornecedora de infraestrutura digital em muitas regiões.
Inicialmente, empresas norte-americanas e europeias como Lucent, Alcatel, Ericsson e Nokia desenvolveram produtos inovadores que definiram padrões internacionais. Mas, à medida que a Huawei investia em inovação e o governo chinês subsidiava as vendas dos seus produtos, especialmente nos países em desenvolvimento, a adoção desses produtos chineses superou a concorrência e tornou-se a espinha dorsal das redes de telecomunicações de vários países.
“Ao entrarmos na segunda metade da década, os primeiros sinais sugerem que o governo chinês está interessado em replicar a sua bem-sucedida estratégia de telecomunicações. A China está a começar a oferecer aos países em desenvolvimento acesso subsidiado a chips e promete construir data centers locais de Inteligência Artificial. Os chineses sabem que, se um país padronizar a plataforma chinesa de Inteligência Artificial, irá provavelmente continuar a depender dessa plataforma no futuro”, disse Brad Smith.
Para ele, a melhor resposta para os EUA é agir de forma rápida e eficaz para promover a Inteligência Artificial norte-americana como uma alternativa melhor do que a chinesa, e para isso será necessário o “envolvimento e apoio de países aliados e amigos”.
Para resolver o problema, o gestor diz que a solução passa por garantir que os sistemas de Inteligência Artificial em todo o mundo estejam hospedados em data centers que “atendam aos mais altos padrões de segurança cibernética e física do governo dos EUA”.
Uma estratégia política e económica que mostra bem a razão pela qual o investimento dos EUA em data centers está ao rubro.
(Artigo publicado originalmente na Exame 491 de junho de 2025)