Os efeitos do aquecimento global têm sido bem notórios em todo o mundo. No Ártico, por exemplo, as temperaturas mais altas começaram a descongelar o permafrost, uma camada congelada de subsolo formada por gelo, terra e rochas.
Estudos demonstraram que as temperaturas atuais do Ártico estão a aquecer até quatro vezes mais rapidamente do que em relação ao resto do planeta, o que vai enfraquecendo a camada superior do permafrost na região – durante 400 mil anos, as camadas subjacentes do permafrost permaneceram, grande parte, estáveis.
Isto levou os cientistas a investigarem a hipótese de este degelo ativar vírus adormecidos durante dezenas de milhares de anos, que podem potencialmente colocar em risco a saúde animal e humana.
O permafrost, um ambiente livre de oxigénio e onde a luz não penetra, preserva vírus antigos e restos mumificados de vários animais extintos, tornando-se, por isso, uma fonte de interesse muito grande. Ao longo dos anos, equipas de investigação têm desenterrado e analisado vários destes materiais.
“Há muita coisa a acontecer com o permafrost que é preocupante, e isso mostra porque é que é super importante que mantenhamos o máximo possível de permafrost congelado”, disse, citada pela CNN, Kimberley Miner, cientista climática do NASA Jet Propulsion Laboratory no instituto de tecnologia Caltech, em Pasadena, Califórnia, nos EUA.
Algumas amostras siberianas do permafrost têm cerca de 650 mil anos. Em dezembro do ano passado, um grupo de cientistas franceses, alemães e russos afirmou, num estudo, que teria encontrado e isolado 13 “vírus zombie” em 2019, como descreveu, presos no gelo, na região siberiana da Rússia, que estariam então a descongelar devido ao degelo do permafrost.
Entre estes agentes patogénicos, a equipa detetou um vírus que estima ter ficado preso debaixo de um lago há mais de 48500 anos.
Em busca de “vírus zombie”
No que toca a este tema, ninguém bate Jean-Michel Claverie, professor emérito de medicina e genómica na Faculdade de Medicina da Universidade de Aix-Marseille, em Marselha, França, que liderou o estudo de 2019. Ao longo dos anos, este investigador dedicou-se a testar amostras de terra retiradas do permafrost siberiano com o objetivo de analisar as partículas virais presentes nele e entender se permaneciam infecciosas.
“Ele iniciou a sua investigação sobre o permafrost depois de ler que uma planta com flores foi reanimada a partir de um pedaço de fruta que ficou congelado durante 30 mil anos”, diz, em entrevista ao Bloomberg, Chantal Abergel, mulher de Claverie e bióloga experimental, que lidera as operações no laboratório.
Em 2003, dedicou-se a um tipo de vírus específico, conhecido como vírus gigante, visível através de um microscópio de luz normal e, em 2014 e 2015, ele e a sua equipa conseguiram reanimar vírus que tinham sido isolados do permafrost, mas que apenas poderiam atingir amebas unicelulares (organismos unicelulares).
Os investigadores inseriram os vírus em células cultivadas e conseguiram torná-los infecciosos pela primeira vez em 30 mil anos.
Já este ano, em fevereiro, o investigador de 73 anos isolou várias variantes de vírus antigos a partir de amostras de permafrost retiradas de sete locais da Sibéria, demonstrando que cada uma delas podia infetar células de amebas cultivadas.
“Com as alterações climáticas, estamos habituados a pensar em perigos originários do sul”, afirma Claverie. “Agora, percebemos que pode haver algum perigo vindo do norte, à medida que o permafrost descongela e liberta micróbios, bactérias e vírus”, acrescenta.
Estes vírus podem representar uma ameça para os humanos?
Embora os vírus que Claverie e a sua equipa estudaram fossem infecciosos apenas para as amebas, os investigadores admitem o risco de que outros vírus presos no solo durante milhares de anos possam propagar-se aos humanos e outros animais.
Entre julho e agosto de 2016, um surto de antraz na Sibéria afetou dezenas de humanos e mais de 2 mil renas, tendo sido associado ao degelo do permafrost. Isto permitiu que esporos antigos de Bacillus anthracis voltassem a surgir de antigos cemitérios ou carcaças de animais.
Já em julho deste ano, uma equipa de investigação deu conta de que mesmo organismos multicelulares poderiam sobreviver às condições do permafrost em criptobiose, um estado metabólico inativo. A equipa reanimou com sucesso uma lombriga com cerca de 46 mil anos do permafrost siberiano, apenas reidratando-a, segundo o estudo.
Contudo, alguns investigadores referem que a possibilidade de virem a existir novas pandemias a partir dos terrenos da Sibéria é baixa.
Na verdade, nem todos os vírus são capazes de provocar doenças, com alguns a serem até benéficos para os seus hospedeiros. Os investigadores também desconhecem o tempo que vírus deste tipo podem permanecer infecciosos quando expostos às condições atuais.
Mas Cleverie refere, numa entrevista citada pela CNN, que “o risco tende a aumentar no contexto do aquecimento global”.
Durante vários anos, as agências de saúde mundiais, assim como os governos, têm monitorizado doenças infecciosas desconhecidas contra as quais os humanos não teriam imunidade nem medicação que as enfrentasse.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) adicionou, em 2017, uma “Doença X”, genérica, a uma lista de agentes patogénicos considerados de alta prioridade para investigação e que podem causar doenças e potencialmente uma epidemia, no futuro.
Aquecimento global na Sibéria: O que representa para a Rússia
De acordo com o Bloomberg, os efeitos do aquecimento global na Sibéria são negativos, por um lado, e positivos, por outro, para a economia russa. Estima-se que o degelo do permafrost esteja a colocar em risco infraestruturas no valor de cerca de 250 mil milhões de dólares.
No entanto, escreve o mesmo site, a região é muito rica em recursos naturais como o carvão, o gás natural, ouro e diamantes, por exemplo.
Ao contrário de outras regiões cobertas de permafrost, como o Alasca e a Gronelândia, Claverie explica que a Rússia tem sido mais ativa na mineração destes solos: “Estão a cavar buracos por todo o lado”, refere.