Roseann Sdoia, 46 anos, viveu de perto aquele fatídico dia. Não correu, mas estava na maratona, na linha de chegada, a torcer por uns amigos, quando a segunda bomba explodiu. Perdeu a perna direita e parte da audição. É com um sorriso que encara todos os dias o Hospital de Reabilitação de Spaulding em Charlestown, para mais uma sessão de fisioterapia. Ainda assim, confessa “choro todos os dias”.
Quando saiu do hospital, um mês após o atentado, viu-se perante uma escolha difícil: ou procurava outro lugar para morar, mais adequado à sua condição (usa uma prótese que substitui a perna direita), ou ficava na mesma casa. Roseann decidiu ficar. Todos os dias sobe 18 degraus, num edifício antigo em North End, com portas grandes e pesadas… “não é um lugar fácil para um amputado viver”.
“Logo no início, quando tudo isto aconteceu, muitas pessoas aconselharam-me a sair da cidade, do meu apartamento, por causa das escadas, porque não tenho elevador nem estacionamento”, relembra Sdoia. Mas ao fim de um ano tem consigo ultrapassar todos estes obstáculos. Sdoia é não só um exemplo, como um espelho da própria cidade.
Thomas Menino, ex-presidente da Câmara em Boston, explica que a cidade é hoje muito melhor, do que antes do incidente, “as pessoas aprenderam a lidar umas com as outras, aprenderam a que lidar com uma tragédia”. Acrescenta que o último ano não foi fácil, o trauma e a dor pelos cidadãos perdidos permanece; os bostonianos não esquecem o medo que tomou conta da cidade.
Mas Boston tem sarado as feridas, a pouco e pouco. A Copley Square já não está repleta de homenagens improvisadas, que agora estão expostas na Biblioteca Pública.
Marc Fucarile, um carpinteiro de 35 anos, de Stoneham, também perdeu a perna direita acima do joelho; tem estilhaços no coração, e ainda pode perder a perna esquerda. Marc diz que “tudo mudou”: a forma como vai à casa de banho, como toma banho, como escova os dentes, como entra e sai da cama.
Nos primeiros três meses após as explosões, o One Found arrecadou cerca de 61 milhões de dólares em doações. Nos cinco meses seguintes, mais 12 milhões de dólares em contribuições.
No rescaldo dos atentados, mais de 600 pessoas deslocaram-se os serviços de saúde mental do centro médico. E enquanto a maioria não precisava de ajuda nos primeiros meses, o número de consultas tem aumentado nas últimas semanas, com o aproximar do primeiro aniversário, explicou Jennifer Lawrence, assistente social, no centro Médico de Boston.
Ainda assim, a grande maioria dos que recorreram aos programas hospitalares pretende participar na maratona deste ano, seja como espectadores ou atletas.
William Evans também lá vai estar. Já correu a maratona 18 vezes, incluindo no ano passado, mas desta vez a sua presença será como comissário da polícia, supervisionando a segurança reforçada, que inclui mais de 3.500 polícias (o dobro do ano passado), mais câmaras de vigilância, cães, e restrições a todos os tipos de sacos de corredores e espectadores.