O Homem de Ferro está a olhar para o vice-primeiro-ministro. Na varanda da Bolsa de Nova Iorque, Robert Downey Jr, que desempenha o herói da Marvel nos ecrãs de cinema, espera o momento de tocar o sino. Faltam dez segundos para o início da sessão. Três. Dois. Um. O sino toca. Está em funcionamento o mais importante mercado de capitais do mundo. Paulo Portas ouve uma explicação de como se fazem transações, fala com o presidente da instituição, declara numa entrevista que o objetivo da visita é “vender, vender, vender, captar, captar, captar” e abandona o edifício. Desaparece durante três horas.
Na agenda oficial consta um “encontro one-on-one com private equity”. Por confidencialidade, ninguém fora do Governo ou dos fundos pode assistir a estas reuniões. Não se pode divulgar o conteúdo das conversas, nem o nome dos fundos. A partir de várias entrevistas a VISÃO conseguiu, no entanto, reconstituir um destes encontros, com o Capital Group, a Blacktone, a State Street e a BNY Mellon. Nos andares mais altos das torres de vidro concretizam-se em números e palavras os nebulosos “encontros com investidores”. Conversas entre ministros e gestores poderosos, que gerem fundos dezenas de vezes superiores ao PIB português, e que podem decidir num segundo comprar as empresas que o país privatiza, investir na dívida ou adquirir posições maioritárias nas maiores companhias. São eles que decidem se os sacrifícios que os portugueses têm enfrentado valem a pena.
Quando Portas desaparece
Segunda-feira, ao deixar a bolsa, Portas entra num Mercedes preto e dirige-se para a zona norte de Manhattan. Parte da sua equipa segue-o num SUV negro. Chegam até ao número 630 da Quinta Avenida, que faz parte do complexo do Rockfeller Center, e sobem até ao andar 36. Quando tocam no botão do elevador, repararam numa placa: era neste andar que os serviços de informação secretos britânicos estavam instalados durante a Segunda Guerra Mundial. A reunião com o Capital Group, que gere neste momento 1.4 biliões de dólares, vai começar.
Portas senta-se no centro da mesa. À sua esquerda, está o embaixador de Portugal nos EUA, Nuno Brito. À direita, o Secretário de Estado da Inovação, Investimento e Competitividade, Pedro Rodrigues, e o presidente da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), Miguel Frasquilho. À frente deles, o CEO do Capital Group e dois diretores. Projetado num ecrã, está o responsável pelo mercado europeu, que liga a partir de Londres. É Paulo Portas quem começa a reunião.
Em Inglês, destaca quatro pontos: Portugal terminou o programa com a Troika no primeiro momento possível; o País teve uma saída limpa; já está a proceder ao reembolso ao FMI; no final de 2015, segundo os planos apresentados em Bruxelas, fica fora de défice excessivo, livre de sanções. Portas acredita que isto distingue Portugal da Grécia.
Faz agora uma exposição sobre indicadores económicos. Confiança, crescimento do PIB, exportações, saldo positivo entre empresas criadas e fechadas. No final, os dados do investimento, referindo um aumento de 5,2% em 2014. Mensagens que amplifica mais tarde, em entrevistas à CNBC e a Bloomberg.
Dívida apetecível
Finda a apresentação, começam as perguntas. Sobre o contexto europeu, incluindo a forma como a UE está a lidar com a Grécia, e o comportamento do BCE (que Portas elogia), e esclarecem-se dúvidas sobre o plano de redução do IRC e a reforma laboral. Uma questão mais política: porque não existem no país fenómenos como o Syriza, da Grécia, ou o Podemos, de Espanha? Portas refere que Portugal é um pais moderado, com as fronteiras mais antigas da Europa, e que,se não há partidos mais à esquerda com grande popularidade, também não existe à direita uma Frente Nacional, como em França. E as eleições à porta? O ministro aproveita para lembrar que 90% da AR partilha uma posição europeista e favorável às regras do Euro. A Capital Group tem cinco por cento da GALP e, com 18 por cento é o segundo maior acionista da EDP. Quando as perguntas se tornam especificas, Portas delega nos seus colegas.
A reunião dura uma hora e o político segue para um encontro com a Blackstone. Recentemente, o grupo comprou a Multi Corporation, empresa holandesa que detinha 18 centros comerciais portugueses, como o Fórum Almada. Depois, compraram 10 propriedades à ESFG (duas plataformas logísticas, dois parques tecnológicos e outras áreas comercias, o Fórum Montijo e o Alverca Parque). O interesse norte-americano está a crescer, sobretudo nas áreas de infra-estruturas relacionadas com o turismo e transportes e ativos na área dos serviços. A Lone Star acaba de comprar por 200 milhões de euros a Marina de Vilamoura e há ainda interessados no Novo Banco. O mesmo se passa na dívida soberana: segundo a Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública, o investimento norte-americano em dívida portuguesa triplicou desde a saída da Troika.
Na terça, 28, Paulo Portas reúne-se no Harvard Club com cerca de 80 investidores e empresários. Durante o pequeno-almoço, responde a perguntas sobre impostos, incentivos financeiros e dinamismo empresarial. Há jornais e estações de televisão presentes. No final, torna a entrar no Mercedes preto que o conduz pela cidade, e desaparece. Na agenda oficial, lê-se “encontro one-on-one com private equity”. Uma hora depois, um dos representantes do fundo pergunta por nova emissão de divida nacional. “Vamos por os nossos tipos das operações olhar para isso”, diz.