Exatamente 36 anos depois do ditador Manuel Noriega se ter rendido às tropas americanas, a 3 de janeiro de 1990, na embaixada do Vaticano na cidade do Panamá, após a invasão do país por um contingente de 27 mil militares dos EUA, Donald Trump repete o mesmo guião e anunciou, esta madrugada, a captura do presidente venezuelano Nicolas Maduro, no momento em que começavam a ser difundidas imagens de explosões e de combates em Caracas.
Em ambos os casos, a justificação é igual: tanto George Bush como Donald Trump deram ordens de ataque sob a alegação de combate ao narcotráfico. E se Noriega acabou mesmo por ser julgado e condenado nos EUA – e, mais tarde, em França – ainda é desconhecido o paradeiro exato de Maduro e se Washington quererá mesmo levar a tribunal o homem que, desde 2013, comandava os destinos do país com maiores reservas de petróleo do mundo (cerca de 18% das reservas globais).
Embora este ataque direto ao regime da Venezuela fosse já admitido há vários meses, por força da grande concentração de meios militares que os EUA fizeram deslocar para a zona, a verdade é que a sua concretização – na data exata da queda de Noriega, há 36 anos – não deixou de ser considerada uma surpresa. E, por isso, há várias interrogações que se levantam e cuja resposta será determinante para se perceber o verdadeiro alcance de uma ação decidida pelo homem que, até há pouco tempo, parecia apenas sonhar com o Nobel da Paz.
1 – Corte de cabeça ou mudança de regime?
A captura isolada de Nicolas Maduro e da sua mulher, conforme anunciado, não implicará, necessariamente, uma mudança de regime, nomeadamente na Venezuela, onde, apesar de todas as contestações, o partido fundado por Chavez continuava a controlar, com relativa facilidade, todo o aparelho do Estado. Decisivo, nos próximos momentos, será perceber como reagem as forças armadas venezuelanas ou se, por outro lado, esta operação foi “negociada” com algum grupo de militares “cansados do regime”.
2 – Ação isolada ou prolongada?
Há 36 anos, no Panamá, foram precisas três semanas de intensos combates, com milhares de mortos, nomeadamente entre a população civil, para que os EUA ganhassem o controlo sobre o país, onde está o canal marítimo com importância estratégica global. Se as forças armadas venezuelanas decidirem resistir, até porque possuem equipamento muito superior ao que existia no Panamá nessa altura, podemos assistir a uma guerra de grandes proporções – com consequências gravosas e trágicas para toda a economia mundial.
3 – América Latina vai começar a arder?
As primeiras reações ao ataque dos EUA na Venezuela já demonstraram a profunda divisão que se observa hoje no continente americano. Enquanto, de imediato, o presidente da Colômbia (com fronteiras com a Venezuela), Gustavo Petro, qualificou a ação como altamente perigosa e pediu uma reunião urgente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, na ponta Sul do continente, na Argentina, o presidente Javier Milei celebrou o ataque, declarando que o mesmo constitui um “avanço para a liberdade”. Estas tensões podem multiplicar-se rapidamente pela região, que a nova estratégia de segurança dos EUA considera como estando dentro da sua área de influência e, portanto, com “autorização” para apoiar quem considera amigos e ajudar a derrotar os adversários.
4 – Os combates podem globalizar-se?
Tanto a China como a Rússia têm sido aliados fiéis e seguros do regime de Nicolas Maduro. A reação que agora Pequim e Moscovo tiverem será indicativa da nova ordem mundial que, apesar das tensões, Xi Jinping e Vladimir Putin têm estado a construir com Donald Trump: um mundo dividido por esferas de influência, com três eixos principais. Com consequências simples e quase ao nível da chamada reciprocidade: se Pequim aceitar a intervenção americana na Venezuela, também esperará que Washington adote a mesma postura numa provável invasão de Taiwan. Aliás, como tem feito, com Trump, em relação à Ucrânia, aceitando que a Rússia tem direito a ocupar uma parte do seu território.
Para além das dúvidas, temos uma certeza: o ataque dos EUA à Venezuela, um país soberano, viola as leis do direito internacional e, mais do que isso, é demonstrativa do tipo de poder que Donald Trump e os seus conselheiros têm planeado para o continente americano e as regiões mais próximas. Se Trump decidiu atacar a Venezuela, quem pode garantir que não fará algo semelhante, um dia destes, na Gronelândia – território autónomo da Dinamarca, membro da NATO e da EU – e para o qual já nomeou um “enviado especial”, com poderes de governador? A certeza que temos é que esta é uma manifestação poderosa de força, destinada a demonstrar ao mundo que Trump, mesmo a sonhar com o Nobel da Paz, não deixa nunca de cortejar os falcões da guerra. A invasão do Panamá, há 36 anos, ocorreu poucas semanas depois da queda do Muro de Berlim. Agora, a Venezuela serve de aviso semelhante – nomeadamente para todos os países que, no continente americano, têm enfrentado Donald Trump ou recusado cede às suas pressões e chantagens. A partir de agora, o jogo subiu para um patamar mais alto. E a Europa que se cuide.