Bella Ciao: A história por detrás do hino da liberdade e da resistência que as mulheres iranianas andam a cantar

Bella Ciao: A história por detrás do hino da liberdade e da resistência que as mulheres iranianas andam a cantar

Em persa e de cabeça descoberta. É assim que as mulheres iranianas cantam por estes dias Bella Ciao para mostrarem a sua oposição ao regime ultraconservador em que vivem.

Uma vez mais, o conhecido hino antifascista italiano surge como um grito pela liberdade e pela resistência. “Ó povo, uni-vos. Nós, que estamos de pé até amanhã, o nosso direito não é fraco”, canta-se (aqui numa tradução livre) nas manifestações que se multiplicam no Irão desde a morte de Mahsa Amini.

A versão em persa de Bella Ciao fez-se ouvir pela primeira vez na sexta-feira, 16 de setembro, pouco depois de se saber da morte suspeita daquela jovem curda iraniana, detida pela “polícia da moral” alegadamente por “mau uso” do hijab. Logo nessa sexta-feira, as cantoras Behin e Samin Bolouri publicaram no Instagram a nova versão, num vídeo em que ambas aparecem de cabelo à mostra.

O vídeo das duas irmãs tornou-se viral rapidamente.

Também não demorou muito até surgirem nas redes sociais outras jovens a entoarem a canção em persa, sempre sem hijab. E, em pouco tempo, Bella Ciao chegava às ruas das principais cidades iranianas.

No Irão, vive-se um clima de revolta. Os protestos repetem-se diariamente, tendo já morrido pelo menos 41 pessoas (dados oficiais).

Em Itália, a extrema-direita atravessa tempos de euforia porque vai em breve formar um novo Governo, encabeçado por Giorgia Meloni. Por ironia do destino, uma mulher que sempre torceu o nariz a Bella Ciao.

Quando, em dezembro de 2019, se ouviu esta canção no Parlamento Europeu, Meloni twittou: “Comissários Europeus entoam Bella Ciao. Só eu classifico de escandaloso este teatrinho ridículo por parte das mais altas instituições europeias? Não têm nada mais importante com que ocupar-se?”

Fosse no dia 25 de abril e talvez Giorgia Meloni não tivesse criticado os comissários. Tal como nesse dia em Portugal se canta a Grândola, em Itália canta-se Bella Ciao durante as comemorações do fim do fascismo em 1945. Mas será essa a origem da canção?

De amor ou de protesto?

“É um hino dos partigiani [membros da resistência]”, afirmou ao El País, com toda a segurança, Carlo Ghezzi, da Associazione Nazionale Partigiani d’Italia (ANPI), por ocasião do 75.º aniversário da libertação do fascismo, em 2020.

A resistência italiana era formada por pessoas com ideias muito diferentes, mas um inimigo comum. Juntava democratas-cristãos, comunistas e socialistas, assim como monárquicos, republicanos ou anarcas.

“O comandante da resistência era Raffaele Cadorna, um monárquico, e o seu vice-comandante, Luigi Longo, comunista. O antifascismo representou a página mais importante deste país, e Bella Ciao dá voz a tudo isso”, disse, na mesma ocasião, aquele dirigente da ANPI.

Bella Ciao tornar-se-ia a música da resistência e, sobretudo, “a canção que celebra a heterogeneidade reunida que levou a Itália à libertação”. A verdade é que a sua letra não tem nenhuma referência ideológica. “Mas está claro que a direita não gosta dos valores do antifascismo”, acredita Carlo Ghezzi.

Certo é que os partigiani a cantaram muito entre 1943 e 1945, mas precisamos de recuar mais no tempo para encontrar a sua origem. Ou, melhor dizendo, para apresentar hipóteses. Ninguém pode afirmar com toda a certeza onde tudo começou.

Carlo Pestelli, compositor e investigador da História da Língua Italiana, recua ao século XIX, a canções populares do norte da Itália, no seu livro Bella Ciao: La Canzone Della Libertà (Bella Ciao: a canção da liberdade), publicado no ano passado. Segundo nota, Fior di Tomba (flor de tumba), por sua vez herdeira de uma outra canção francesa do século XVI, começa e acaba exatamente com “Bella Ciao”. E em La Bevanda Sonnifera (a bebida para dormir) lá está “Ciao”, sempre por referência a uma amada.

Tradição inventada?

Já Cesare Bermani, especialista em música popular italiana e autor do livro Bella Ciao, Storia e fortuna di una canzone: dalla resistenza italiana all’universalità delle resistenze (Bella Ciao, História e sorte de uma canção: da resistência italiana à universalidade da resistência), publicado em 2020, defende que uma das suas primeiras versões remonta à Primeira Guerra Mundial.

A canção seria uma espécie de protesto contra o sistema militar, após o fracasso da batalha de Caporetto, em 1917. Daí que, num dos seus versos, a palavra “invasor” tenha sido substituída por “desertor”.

Alguns sugerem ainda que a melodia – apenas a melodia – é uma adaptação de uma canção klezmer, um género que vem da tradição musical de judeus asquenazes, especificamente de Oi Oi di Koilen.

Essa canção teria sido levada para os Estados Unidos por um acordeonista cigano, Mishka Tsiganoff, originário de Odessa, na Ucrânia, que tinha um restaurante em Nova Iorque e trabalhava como músico de klezmer. Certo é que, em 1919, Tsiganoff gravou um disco vinil em 78 rpm, com o título Klezmer-Yiddish Swing Music, e que os primeiros acordes de Oi Oi Koilen são, de facto, semelhantes aos acordes iniciais de Bella Ciao.

Três décadas mais tarde, surgiriam duas outras versões. Uma que menciona as mondine, as mulheres que trabalhavam sazonalmente nas colheitas do arroz; e outra que fala nos partigiani. Mas de nenhuma se tem a certeza quanto à paternidade.

A canção só se tornou o hino oficial da resistência vinte anos após o fim da Segunda Guerra Mundial. E Bermani, autor de um trabalho pioneiro sobre canto social em Itália, fala mesmo da invenção de uma tradição.

O avô do Professor

Faz sentido. “Bella Ciao tem sido utilizada de diferentes formas porque é uma canção popular. É contra um invasor e a favor de algo que todos gostam, a liberdade”, lembrou Carlo Pestelli ao El País.

“Não há nenhuma canção no mundo capaz de desencadear uma euforia coletiva como Bella Ciao”, escreve, por sua vez, Moni Ovadia, ator, músico, cantor e dramaturgo, no prefácio do livro de Pestelli. “Em eventos públicos e em muitas ocasiões institucionais, as notas de Bella Ciao são uma bandeira de liberdade porque as suas palavras, que todos conhecem de cor, libertam uma energia especial.”

Não admira, por isso, que ela tanto seja cantada em manifestações – agora no Irão, como já antes noutros protestos, nomeadamente em Istambul e em Hong Kong – como sob a forma de cântico em estádios. E ainda mais desde que surgiu na série espanhola da Netflix La Casa de Papel, em 2017, tornando-se logo muito popular entre os mais novos.

“A vida do Professor girava à volta de única ideia: resistência. O seu avô, que tinha ficado ao lado dos partigiani (os heróis da resistência antifascista em Itália) para derrotar os fascistas, ensinou-lhe essa música e depois ele ensinou-nos”, diz a certa altura a personagem Tóquio, ao falar do mentor do assalto.

Foi só nessa altura que muito boa gente ficou a saber que Bella Ciao foi o hino da resistência italiana contra o fascismo de Benito Mussolini e das tropas nazis durante a Segunda Guerra Mundial. Viva a cultura popular.

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