O assassínio de Anna Moriah Wilson, mais conhecida por “Mo” Wilson, tem abalado o estado do Texas nos últimos dias, mais particularmente a cidade de Austin, onde a jovem de 25 anos foi encontrada sem vida no passado dia 11 de maio. Segundo o relatório entregue ao tribunal do condado de Travis, que abrange Austin, a morte deveu-se a “múltiplos disparos” por uma arma de fogo, que parecem ter sido intencionais.
Wilson era uma atleta promissora que se destacou no esqui e no ciclismo e que, apesar da sua idade, já dominava o desporto de “Gravel Racing” – ciclismo de gravilha, em tradução livre –, uma modalidade que junta elementos do ciclismo tradicional e de montanha e cujas corridas ocorrem normalmente em longas pistas de gravilha, daí o nome. A atleta estava em Austin precisamente em preparação para uma corrida, esta com 250 quilómetros, que se iria realizar dia 14 de maio.
Entretanto, as autoridades policiais norte-americanas já emitiram um mandado de captura para a principal suspeita de ter cometido este crime: Kaitlin Marie Armstrong, uma residente do Texas com 34 anos cujo paradeiro é desconhecido.
No centro do assassínio estará um potencial triângulo amoroso entre a vítima, Kaitlin Marie Armstrong e o também ciclista Colin Strickland. Conforme as informações da polícia do Texas, entregues em tribunal, Strickland ter-se-á envolvido numa breve relação amorosa com Wilson pouco tempo depois de momentaneamente se ter separado de Marie Armstrong, com quem namorava há 3 anos, e com quem acabaria por se reconciliar.
Strickland e Wildon permaneceram amigos durante todo o processo, o que terá gerado muito desconforto na relação entre o ciclista e Marie Armstrong, que sofria de ciúmes intensos e chegou a ligar a Wilson em mais de uma ocasião para lhe dizer que “mantivesse a distância” do seu namorado. Strickland admitiu inclusivamente que, para tentar atenuar este problema, terá mudado o nome de Wilson no seu telemóvel de modo a ocultar a sua verdadeira identidade.
O relatório policial aponta ainda que Marie Armstrong sentiu-se “furiosa” e a “tremer de raiva” após descobrir a relação, o que levou os agentes a destacá-la quase imediatamente como a principal suspeita. De facto, no dia da sua morte, Wilson encontrou-se com Strickland numa piscina pública e os dois foram jantar fora, o que poderá ter precipitado o crime, equacionam as autoridades.
Todas as provas apontam mesmo para a texana de 34 anos: sustentando-se nas filmagens de uma câmara de segurança, a polícia garante que um automóvel muito semelhante ao de Marie Armstrong esteve estacionado perto da casa onde Wilson estaria alojada, pouco tempo antes do crime; e a análise forense determinou haver uma “probabilidade significativa” de a arma envolvida no crime se tratar de uma pistola de 9 mm que Strickland ofereceu à suspeita.
Uma mulher “talentosa, bondosa e carinhosa”
As reações à morte de Anna Moriah Wilson multiplicaram-se pelas redes sociais, e todos os que privaram com a ciclista tinham algo de positivo a partilhar. A família de Wilson descreve-a como uma jovem mulher “talentosa, bondosa e carinhosa”, e lamenta “que a sua vida lhe tenha sido tirada antes de poder alcançar tudo o que sonhava”.
A competição estava-lhe no sangue: o pai, Eric Wilson, fez parte da equipa nacional de esqui dos EUA e a avó, Laura, competiu nos jogos olímpicos na mesma modalidade. Talvez influenciada pelos genes, Wilson começou a praticar desporto desde cedo e focou-se sobretudo no esqui e no ciclismo. Na neve, teve bastante sucesso: chegou a alcançar o 3.º lugar numa competição nacional de juniores nos EUA e a elencar a equipa de esqui alpino da Universidade de Dartmouth, no estado de New Hampshire, o que, segundo o seu obituário, foi a concretização de um sonho.
Depois disso, dedicou-se inteiramente ao ciclismo e, antes de morrer, planeava criar “um espaço comunitário” no estado do Vermont, onde cresceu e vivia atualmente, “onde os ciclistas que passassem pela região pudessem descansar e beber um café”, pode-se ler também no obituário.
Uma das organizadoras da corrida onde Wilson ia participar antes de morrer, a “Gravel Locos Bike Race”, lembrou-a como uma “modelo a seguir, uma corredora tática e uma competidora que genuinamente se preocupava com os seus adversários”. Um artigo da VeloNews, um site de notícias dedicado ao ciclismo, rotula-a ainda de “a mulher mais vitoriosa do mundo do ciclismo de estrada”.
O eventual vencedor da “Gravel Locos Bike Race”, Jasper Ockeloen, um praticante de gravel racing dos Países Baixos, fez uma ligeira vénia em memória da jovem ciclista ao ultrapassar a meta, em vez de celebrar e levantar os braços, como é usual neste desporto. O momento foi capturado no Twitter pelo também ciclista Phillip Martindale, que cita Ockeleon: “Senti que uma manifestação de vitória não seria apropriada num dia como o de hoje”.
Strickland afirmou num comunicado endereçado ao jornal americano Austin American-Statesman que “estava a recuperar da morte de Mo Wilson” e “não imaginava a dor que a sua família e amigos mais próximos estariam a sentir”, acrescentando que “não consigo expressar adequadamente o arrependimento e tortura que sinto face à minha proximidade com este crime horrível”. Certo é que já perdeu alguns dos seus patrocinadores, avança a VeloNews, muitos deles preocupados com a atenção mediática que este caso está a gerar.
Numa declaração à VeloNews, a família de Wilson referiu que “embora a trágica perda da Moriah seja insondável, ao mesmo tempo queremos que todos se juntem a nós na celebração da sua vida, conquistas e amor pelos outros”.