O nome do comissário Carlos Moedas está na berlinda para a dança de cadeiras que se prepara em Bruxelas nas próximas semanas. Hoje, o português gere um orçamento generoso, ao tutelar a Investigação, Ciência e Inovação da Comissão Europeia, mas não é de excluir que absorva também o pelouro da Economia e Sociedade Digitais. “Se fosse eu a escolher” Carlos Moedas era o candidato, disse esta sexta-feira Andrus Ansip, vice-presidente da Comissão.
O presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker, avança o Politico.eu, já terá sondado Carlos Moedas para ficar com a área digital, só que o português afastou a proposta a menos que acumulasse com a atual pasta. Contactado pela VISÃO, o gabinete do comissário preferiu não comentar. A área da Inovação tem muitos pontos comuns com a agenda digital e numa lógica de reordenamento cirúrgico da Comissão é possível existir uma fusão e cisão de alguns pelouros.
Carlos Moedas gere fundos, não define políticas. A pasta do Digital permitia-lhe passar do laboratório para o mercado, ao intervir a nível regulatório, ao elaborar um quadro legislativo a nível europeu, apurou a VISÃO. Qualquer transição do ex-Secretário de Estado do PSD depende, por um lado, da escolha e do perfil do novo comissário búlgaro e, por outro, do futuro do comissário alemão Günther Oettinger.
A troca de pelouros foi precipitada pela saída de Kristalina Georgieva para o Banco Mundial. A búlgara – derrotada por António Guterres na corrida a secretário-geral da ONU – deixa vago, a partir de janeiro, um lugar de vice-presidente da Comissão e, também, o pasta do Orçamento e dos Recursos Humanos. Juncker assinalou que gostaria de entregar os cargos a Oettinger, atual comissário da Economia Digital. Mas isso foi antes de serem públicas as indiscrições polémicas do alemão.
Numa viagem a Budapeste em Maio, a convite do primeiro-ministro Viktor Órban, Oettinger apanhou ‘boleia’ num jato privado do milionário Klaus Mangold. A viagem-reunião entre ambos nunca foi registada, apesar de Mangold ser um conhecido lobista com ligações a Moscovo. E, coincidência ou não, Bruxelas autorizou o projeto nuclear húngaro Paks II, que será assegurado por uma empresa russa Rosatom. Antes deste episódio, um vídeo viral mostrava Oettinger, numa conferência em Hamburgo, a gozar com “olhos em bico” e a indumentária de uma comitiva chinesa, a ironizar com o casamento gay e as quotas para mulheres.
Numa altura em que Juncker aperta o código de conduta dos comissários – devido à saída de Durão Barroso para a Goldman Sachs – muitos estranham que se equacione ainda a promoção de Oettinger e, no limite, a sua continuação no Berlaymont. “São declarações incompatíveis com o exercício de qualquer cargo político”, disse o eurodeputado do PCP, João Ferreira, à VISÃO.
A nova audição no Parlamento Europeu a Oettinger, antes de assumir o Orçamento, promete ser difícil mas
ultrapassável. A família conservadora europeia (PPE), a que pertence o alemão, quer marcar ainda para dezembro a audição – em 2017 era obrigatória uma votação – e insiste que o que está em causa é apenas a capacidade do comissário. “A principal análise é se tem perfil e competência para as novas funções”, comenta o eurodeputado social-democrata José Manuel Fernandes.
O ‘ring fence’ do PPE em volta do alemão, tal como o apoio da chanceler Angela Merkel ao seu comissário, abre a via para Oettinger ser o próximo comissário europeu do Orçamento. Se irá acumular a vice-presidência, depois das piadas politicamente incorretas e o novo código de conduta da Comissão, já levanta mais dúvidas.