Dia de chegada a Paris para descobrir como a cidade está a reagir a um dos mais mortíferos atentados terroristas da sua história, inédito no alvo escolhido: a redacção de um jornal, o Charlie Hebdo.
No aeroporto de Orly, onde o avião da TAP chega com um ligeiro atraso, cerca das 13h, as medidas extraordinárias de um país em estado de alerta máximo não são particularmente impressionantes nem evidentes. Já a caminho do centro da cidade, no metro, vejo no telefone uma notícia de última hora: “Fusillade, Porte de Vincennes”. Terceiro dia consecutivo com registo de tiroteios. É precisamente esse o nome da estação de metro para onde me dirijo, no leste da cidade, perto da via de cintura Périphérique. Na mudança de linha numa das estações com mais cruzamentos, Châtelet Les Halles, um grupo de vários soldados de metralhadoras nas mãos e os olhares a varrerem todos os cantos, revela que este não é um dia igual a tantos outros em Paris. O metro da linha 1 segue normalmente na direcção de Vincennes, mas decido sair uma estação antes: Nation. As próximas duas estações estavam, de facto, encerradas por causa de um episódio com reféns de que pouco se sabia.
Dirijo-me para o meu hotel em Porte de Vincennes, reservado na véspera, depois de várias hipóteses e hesitações. O caminho mais óbvio, pelo amplo Cours de Vincennes, está cortado ao trânsito e preenchido com dezenas de carrinhas da polícia, em fila, com vários homens artilhados em musculadas fardas azuis escuras. A partir de certo ponto, nem a pé se pode passar. Muitos curiosos, habitantes locais impedidos de seguir os seus caminhos, vários jornalistas quase sem informações concretas para dar, a tentarem ainda perceber o que realmente se passava. Pelas ruas laterais consigo chegar à porta do hotel que procurava, na estreita Rue de la Voûte. Mais uns metros e seria impossível passar; é no fim dessa rua que a RFI, e vários jornalistas, improvisam diretos, com vista apenas para uma barreira policial e um impressionante movimento e aparato de ambulâncias, carros, camiões. A ideia é livrar-me rapidamente de tudo o que não preciso e voltar às ruas, mas pouco depois de fazer check-in e de tentar perceber melhor, nos diretos da TV, o que estava a acontecer, esse ajuntamento de jornalistas é ainda mais afastado, para outro quarteirão, e as ordens dadas pela polícia no hotel são claras: não há entradas nem saídas. Dou uns passos fora da porta, tento perceber se é possível afastar-me e regressar, mas dois polícias, com umas enormes ombreiras rígidas de impor respeito, são rápidos a aproximar-se para me dizerem que não posso estar ali.
As próximas horas são passadas a ver o acompanhamento permanente das televisões e sites, com a banda sonora a chegar, real, pela janela do quarto. E foi por volta das 17h, quando os polícias do GIGN (Groupe d’Intervention de la Gendarmerie Nationale) decidiram intervir na mercearia kosher (de produtos para a comunidade judaica) onde Amedy Coulibaly mantinha um número indeterminado de reféns, que percebi melhor o quão perto estava: os cerca de 30 segundos de explosões e disparos pareciam vir do outro lado da esquina, ouvi-se os gritos de ataque dos polícias misturando-se logo a seguir com os de pânico dos sobreviventes em fuga apressada. Resultado final: cinco mortos, incluindo Coulibaly (o mesmo homem que na véspera matou uma políca em Montrouge).
O perímetro de segurança manteve-se inalterado até perto das 20h, e mesmo agora, do exterior, há persistentes sirenes que se aproximam e afastam na noite. Lá fora, não parece Paris. Amanhã é outro dia.