A maioria das pessoas acredita que os seus problemas financeiros se resolveriam se ganhasse mais dinheiro. É uma convicção compreensível — e, muitas vezes, errada. A experiência mostra que o aumento de rendimento, por si só, raramente traz tranquilidade financeira duradoura. O que muda verdadeiramente a relação com o dinheiro não é quanto se ganha, mas como se decide.
Vivemos num tempo em que nunca houve tanta informação disponível sobre finanças e, paradoxalmente, nunca foi tão difícil tomar decisões simples. Créditos apresentados como soluções rápidas, consumo facilitado, pagamentos adiados, publicidade constante e uma linguagem financeira pouco clara criam um cenário em que errar é fácil e, muitas vezes, caro.
Falar de literacia financeira não é falar de investimentos complexos, nem de fórmulas milagrosas para enriquecer (quem as conhecer que partilhe!). É falar de escolhas do quotidiano: aceitar ou não um crédito, perceber o impacto real de uma prestação, distinguir necessidade de vontade, compreender até onde vai o orçamento familiar e onde começa o risco, entre muitas outras coisas. É perceber que muitas famílias vivem em permanente aperto não porque gastam de forma irresponsável, mas porque nunca lhes explicaram, de forma simples, como funciona o dinheiro.
A ideia de “viver melhor com o que se ganha” pode soar a provocação num contexto de salários baixos e custo de vida elevado. Mas é precisamente por isso que é necessária. Porque enquanto se espera por melhores rendimentos, continuam a tomar-se decisões todos os meses — algumas acertadas, outras que comprometem o futuro sem que disso se tenha plena consciência.
Grande parte do stress financeiro não vem da falta absoluta de dinheiro, mas da falta de previsibilidade e controlo. Não saber exatamente quanto se gasta, não antecipar despesas, não compreender contratos assinados ou ignorar alternativas possíveis gera ansiedade, conflitos familiares e uma sensação constante de estar “a correr atrás do prejuízo”.
Esta rubrica nasce para tentar contrariar esse ciclo. Ao longo das próximas semanas, iremos falar de finanças pessoais de forma direta, prática e sem rodeios. Abordaremos temas como crédito à habitação, crédito pessoal, cartões, orçamento familiar, renegociação de encargos, poupança e erros comuns que se repetem de forma quase invisível na vida de muitas famílias.
Não se trata de dizer às pessoas o que devem fazer, mas de lhes dar ferramentas para decidirem melhor. Porque decidir melhor não é abdicar de viver — é ganhar margem para viver com menos medo e mais consciência.
Viver melhor com o que se ganha não significa viver em permanente contenção, nem eliminar prazeres. Significa alinhar escolhas com prioridades, reduzir desperdícios invisíveis, evitar armadilhas financeiras e criar espaço para aquilo que realmente importa.
Esta rubrica não promete soluções fáceis. Promete clareza. E, muitas vezes, isso é o primeiro passo para mudar tudo.
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