Todos os anos, a Berlinale costuma oferecer-nos, pelo menos, um filme incontornável, daqueles que nos fazem sair da sala com a sensação quase física de estarmos perante um futuro Urso de Ouro. Não falamos de entretenimento fácil, mas de obras que funcionam como murro no estômago, epifania coletiva ou gesto artístico radical capaz de gerar consenso num festival que vive do desacordo. Este ano, a dois dias do fim da Competição, ainda não surgiu esse momento. Há bons filmes, obras sólidas, algumas politicamente incisivas, outras intimistas, outras historicamente ambiciosas. Mas falta o inevitável, aquele título que silencie a imprensa e imponha o seu peso artístico nas paredes do Berlinale Palast.
Na Competição encontramos propostas relevantes, mas nenhuma decisiva. “Yellow Letters”, do realizador alemão İlker Çatak, cineasta de origem turca, mergulha na perseguição estatal a um casal de artistas na Turquia contemporânea, expondo a erosão da liberdade criativa sob pressão política. “À voix basse”, da realizadora tunisiana Leyla Bouzid, acompanha o regresso de uma mulher a Sousse para o funeral do tio, confrontando o luto, os segredos familiares e a homossexualidade num contexto social conservador. “Salvation”, do realizador turco Emin Alper, instala-nos numa aldeia isolada onde o regresso de um clã reacende disputas de terras, fanatismo religioso e violência latente. “Rose”, do realizador austríaco Markus Schleinzinger, com Sandra Hüller no papel principal, revisita a Alemanha do século XVII através da história de uma mulher que se disfarça de homem para sobreviver e conquistar espaço num mundo brutalmente masculino. “We Are All Strangers”, de Anthony Chen, um drama familiar emotivo que retrata as tensões geracionais e o amor num ambiente urbano em Singapura, focando-se em personagens que procuram conexão humana e redefinem a família entre os seus laços biológicos e os escolhidos. “Queen at Sea”, do realizador norte-americano Lance Hammer, coloca Juliette Binoche no centro de um drama íntimo sobre demência, desgaste emocional e relações familiares corroídas pelo tempo. “Moscas”, do realizador mexicano Fernando Eimbcke, observa a solidão urbana na Cidade do México quando a rotina de uma mulher é perturbada pela chegada de um inquilino e do seu filho. “Home Stories”, da realizadora alemã Eva Trobisch, retrata a adolescência e a precariedade na Alemanha de Leste, cruzando a gestão de um hotel familiar em crise com a exposição emocional de um casting para reality show. E, por último, “Dao”, do cineasta franco-senegalês Alain Gomis, um drama familiar imersivo que entrelaça um casamento em França e um funeral na Guiné-Bissau, abordando ancestralidade, movimento e a interconexão entre mundos, que é o mais cotado na classificação dos críticos internacionais da revista Screen. Se vos interessa os temas, não se preocupem, a maioria destes filmes vai estrear em Portugal.
São todos filmes sérios, consistentes, com preocupações políticas e sociais claras. Contudo, nenhum se destacou até agora como vencedor inevitável. Não houve unanimidade, nem aquele murmúrio crescente que costuma anunciar um prémio maior. E quando o cinema não impõe uma obra dominante, o espaço é ocupado por outro protagonista.
Mais de 80 cineastas e atores assinaram uma carta aberta criticando o festival pelo que consideram ser o seu silêncio sobre Gaza e alegadas situações de censura. Entre os signatários encontram-se nomes como Javier Bardem, Tilda Swinton e os realizadores Adam McKay ou Mike Leigh. A carta acusa a organização de não assumir uma posição clara face ao conflito e de falhar no seu “dever moral”.
A polémica começou logo no início do festival, quando Wim Wenders, realizador alemão e presidente do júri internacional desta edição, na conferência de imprensa com os seus pares, afirmou que o festival deve manter-se “à margem da política” e que o cinema funciona como “contraponto da política”. A frase foi amplamente interpretada como tentativa de despolitização num festival que nasceu, precisamente, com uma forte carga política. Fundada em 1950, em plena Guerra Fria, a Berlinale foi concebida como vitrina do chamado “mundo livre” numa cidade dividida. Ao longo das décadas, posicionou-se ao lado de dissidentes iranianos, condenou invasões e acolheu obras de forte teor político. A ideia de neutralidade surge, por isso, como paradoxal.
A escritora e ativista indiana Arundhati Roy cancelou a sua presença na apresentação, na secção Classics, de “In Which Annie Gives It Those Ones” (1989), mas em versão restaurada, um filme de que foi argumentista, acusando o festival de silenciar um “crime contra a humanidade em tempo real”. A diretora artística da Berlinale, Tricia Tuttle, respondeu defendendo que não se pode exigir a artistas e instituições culturais que comentem todos os conflitos globais. O debate instalou-se nas conferências de imprensa, nas redes sociais e nos corredores do festival, com perguntas insistentes e respostas cuidadosamente medidas.
Entretanto, o mundo lá fora de Berlim move-se com uma gravidade que ultrapassa qualquer polémica cultural. Em Genebra decorrem negociações sobre o programa nuclear iraniano. O envio do porta-aviões “Gerald R. Ford” para o Médio Oriente, por ordem de Donald Trump, reacendeu tensões, enquanto o ayatollah Ali Khamenei ameaçou retaliar em caso de ataque ao Irão. O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, tornou-se ponto sensível, com a presença de navios russos e chineses na região. Noutra frente diplomática, representantes da Ucrânia e da Rússia voltaram a reunir-se para discutir o fim de uma guerra iniciada a 22 de fevereiro de 2022, ao mesmo tempo que mísseis e drones continuam a atingir território ucraniano. No extremo norte, a visita do rei Frederico X da Dinamarca à Gronelândia sublinha a crescente importância estratégica daquele território num contexto de rivalidades internacionais.
Este cenário global reforça a ironia do momento: discute-se intensamente se um festival de cinema deve pronunciar-se politicamente enquanto, fora das salas de cinema, das conferências de imprensa, decisões militares e diplomáticas moldam o equilíbrio mundial. A ausência de um filme esmagadoramente superior abriu espaço para que o debate moral ocupasse o centro da Berlinale 2026. Curiosamente, quando muitos dos títulos em competição abordam, além de vários do tema família e conflitos familiares, repressão, identidade, trauma histórico e violência estrutural, o ruído exterior tornou-se dominante.
A Berlinale 2026 parece estar a ser definida menos pelas suas obras do que pela discussão em torno do seu posicionamento. A questão deixou de ser se o cinema é político — sempre o foi — e passou a ser um festival internacional, financiado com fundos públicos, que pode reivindicar neutralidade num conflito que divide opiniões e sensibilidades. As redes sociais e algum jornalismo amplificaram cada frase e cada gesto, transformando declarações em slogans e nuances em polémicas.
Talvez o Urso de Ouro ainda surja nos últimos dias da Competição e devolva o foco à arte. Talvez não. Para já, o que marca esta edição não é um filme específico, mas uma tensão constante entre expressão artística e responsabilidade política. Em 2026, até agora o grande protagonista da Berlinale não é um realizador nem uma obra singular. É o debate sobre o silêncio sobre o que acontece em Gaza — nada contra obviamente, pelo contrário — e as implicações desse silêncio e desse ruído sobre o político ou não político, num mundo onde quase tudo é interpretado como tomada de posição.