Morreu Frederick Wiseman. E quando morre um cineasta destes, não desaparece apenas um nome, perde-se um arquivo vivo da civilização ocidental. Wiseman morreu a 16 de fevereiro de 2026, em Cambridge, Massachusetts, aos 96 anos. Viveu quase um século. E filmou mais desse meio século.
Se um dia quisermos perceber como funcionava — ou falhava — a democracia americana da segunda metade do século XX para cá, não precisamos de tratados académicos. Basta revisitar os seus filmes. São mais de cinquenta, muitos deles longos, exigentes, pacientes. Um verdadeiro inventário das instituições: hospitais, escolas, tribunais, esquadras, museus, teatros, lojas, quartéis, bibliotecas. A América filmada por dentro, sem narrador, sem entrevistas, sem música. Só pessoas, poder, silêncio e tempo.
O primeiro murro no estômago chamou-se Titicut Follies (1967), rodado num hospital psiquiátrico-prisão em Massachusetts. Foi proibido durante anos. Não por ser panfletário — Wiseman nunca foi panfletário — mas porque mostrava demasiado. A humilhação, a negligência, a violência institucional estavam ali. Começou ali, aliás, uma obra que nunca mais largou a pergunta essencial: o que fazem as instituições aos corpos e às consciências?
Depois vieram High School (1968), retrato impiedoso de uma escola secundária que fabricava cidadãos dóceis; Law and Order (1969), mergulho na rotina policial em Kansas City; Hospital (1970) e Welfare (1975), dois frescos brutais sobre os que vivem à margem e os balcões que os atendem. Mais tarde, Near Death (1989), quase seis horas sobre decisões de fim de vida num hospital; Aspen (1991), sátira gelada sobre luxo e desigualdade; Ballet (1995), no American Ballet Theatre; National Gallery (2014), dentro do museu londrino; “Ex Libris – A Biblioteca Pública de Nova Iorque” (2017), celebração de uma das últimas trincheiras democráticas; ou “Menu Plaisirs – Les Troisgros” (2023), sobre alta gastronomia francesa. Quase todos esses filmes estrearam em circuitos comerciais mais restritos e alternativos, na Cinemateca Portuguesa ou em festivais como o DocLisboa, em boa parte devido ao trabalho do crítico August M. Seabra, que o descobriu e o divulgou com entusiasmo.
O método de Wiseman era sempre o mesmo e nunca igual. Câmera discreta, microfone na mão, semanas a filmar sem interferir, como se ninguém estivesse por lá a filmar. Depois, meses de montagem. Era ali que o filme nascia. Wiseman dizia que descobria o sentido na edição. Que não partia com tese prévia. E talvez seja isso que o tornou tão perigoso e tão essencial. E ao mostrar, desmontava.
Nos anos 60 e 70, o seu olhar era quase clínico na denúncia: a escola como máquina ideológica, a polícia como braço muscular do Estado, o hospital como campo de batalha social. Com o tempo, o cinema de Wiseman ganhou outra nuance. Continuou crítico, mas passou também a procurar ilhas de resistência. Em Em Berkeley (2013) ou em Ex Libris – A Biblioteca Pública de Nova Iorque, há uma espécie de defesa serena da esfera pública num país cada vez mais entregue ao mercado, ao privado e mediatizado.
Nunca foi um cineasta de vedetas. Era um artesão metódico, quase obsessivo. Fundou a sua produtora, Zipporah Films, e manteve uma independência rara. Recebeu um Oscar honorário em 2017. Merecido, claro. Mas o verdadeiro prémio está na longevidade e coerência de uma obra que atravessou guerras, crises, presidentes, modas e plataformas sem perder o norte.
Wiseman filmou a América sem filtros ideológicos declarados. Tal como ela é. Mas quem vê os seus filmes percebe: ali está a anatomia do poder, a fricção entre discurso e prática, a distância entre a promessa democrática e a sua execução concreta.
Morreu Frederick Wiseman. Fica um legado colossal. Um cinema que não precisava de slogans porque confiava no tempo, na observação e na inteligência do espectador. Num mundo de opinião instantânea e indignação em 280 caracteres, ele filmava durante quatro horas uma reunião administrativa e fazia disso um thriller moral. Não era espetáculo. Era uma autópsia. E poucas vezes o seu cinema foi tão necessário, como agora.